sábado, 19 de novembro de 2016

?! (9)

Só tendo encontrado na auto-observação (até hoje) um ''mau olhado'' meu voltado para mim mesmo, concentrei toda minha atenção no terceiro olho. Mesmo assim, tais quimeras ainda viciam o pensamento  de muita gente : destaco psicanalistas freudianos e budistas ocidentais de segunda mão. Só os verdadeiros psicólogos da humanidade, um Dostoiéviski, um Charles Baudelaire, assim como grandes pintores como Cézanne e Van Gogh, eram capazes de deixarem aos próprios instintos, à sua ''câmera obscura'' , a filtragem e a expressão do ''caso'', da ''natureza'', do ''vivido''. À essas consciências chegava apenas o UNIVERSAL, a CONCLUSÃO, o RESULTADO. Livres de todas as abstrações arbitrárias do ''caso individual''. Eternos. SOBRENATURAIS. Mas o espírito igualitário e democrático, ao agir sobre o show-business de maneira diametralmente oposta, alcançou outro resultado: toaletes, fotos, medidas ideais, generosidade mamária, enfim, a idade de ouro de Hollywood não abandonou imediatamente o esplendor dos excessos e a magia dos ideais , mas estruturou progressivamente uma formação de compromisso com o povo que paga pelos ingressos. E, presentemente, tudo indica que o processo de ''humanização'' das estrelas de cinema, de erosão da dessemelhança, de desencantamento mítico, foi um erro publicitário grosseiro da indústria cultural (.) ------, eu disse.  À isso, veio juntar-se, naquele instante, qualquer coisa de muito diferente de nossa fome. Talvez uma disponibilidade crescente de nossos nervos, tenha feito ela dizer: ----- Não há dúvida de que esse é o tempo das estrelas de físico ''insignificante'' ; seduzem, ainda, mas não mais porque são divindades extraordinárias, e sim porque são iguais às pessoas comuns. Não é mais o povo que se parece com elas, elas é que se parecem com gente do povo (.) Aparências normais, sem particularidades ostensivas ; antes as estrelas eram super-modelos, agora são só reflexos de meninas bonitas num shopping. O povo agora quer estrelas ''gente boa'', ''acessíveis'', que namoram homens feios e engordam na cintura, que irritam-se com familiares e cultivam pequenos hábitos sujos. Querem estrelas plebéias (.) -----, ela disse. Súbito, passou-me um calafrio pela espinha. Comecei a sentir-me só ao lado dela, ao perceber que ela não era nada daquilo que descrevia. Talvez fosse até mesmo um dos últimos exemplares de uma espécie em extinção. E não era por estar sonhando com fantasmagorias das mais requintadas que me dei por satisfeito, ao envolver-me numa profusão de palavras.  Senti que, de um instante para o outro, tinha agora a oportunidade de mandar os meus sentidos, todos presos à rédea como cavalos bravos, para as valas e os abismos dos mais elementares divertimentos crus da minha mente. Com o nome dela no meio de tudo aquilo, que agora misturava o perfume da minha solidão de escritor com aquele que vinha do seu pescoço, dos seus seios, das suas pernas, eu me perdia numa tempestade mental de letras de fogo: nomes, vozes, perfumes, músicas, temas e vinhos. Apenas cerca de uma hora depois foi que um sussurro dela nos meus ouvidos me fez levantar os olhos. Pus-me imediatamente a observá-la com atenção, enquanto ela falava: ------ O código da proximidade comunicacional, a descontração, o contato, o psicologismo midiático. Todos esses valores ''psi '' nos quais as massas estão mergulhadas prenderam também as estrelas de cinema na grande rede de monotonia terrestre (.) ----- ela disse: ----- Restaurants du Coeur (continuou, quase sem ar) O fenômeno não exprime apenas um apelo ideológico coletivo, mas  traduz também a irreprimível  democratização do estrelato. A massificação do estrelato. A vulgarização do estrelato. Os ídolos de Hollywood não se contentam mais em associar-se exteriormente às grandes escolhas das eleições democráticas; agora eles também coletam fundos participativos, criam associações ecológicas, associações de caridade, associações de auxílio mútuo (risos), engajam-se pelos mais deserdados dos homens (!!) Os semideuses do super holofote hollywoodiano apanharam seus bastões de peregrinos na lata do lixo da história e voltaram para o meio dos homens comuns, mais sensíveis aos flagelos da humanidade que um filhote encharcado de cão (. ) ------, ela disse. Ao perceber isso, senti-me orgulhoso, e apoderou-se de mim uma grande felicidade. Não havia nada em mim, para ela, que me assemelhasse à multidão. Então, saciado, guardei minha caneta e senti um ruído de papel no bolso. Era uma página do Impero, um jornal fascista dos anos 1920, que eu havia comprado de um colecionador, um dia antes. Estava escrito na coluna: ''A psicologia barata apenas estreita a realidade; ela traz para casa um punhado de coisas curiosas todas as noites, mas veja-se o resultado: um monte de borrões sentimentais; no melhor dos casos,  coisas compostas de sentimentos berrantes. Estimada artisticamente, a natureza nunca é um ''modelo''. Ela deforma tudo. E o ''estudo segundo a natureza'' é um péssimo sinal: revela submissão, fraqueza e fatalismo diante do Fogo. Ficar deitado  na poeira dos pequenos fatos da natureza é indigno de um ''artista inteiro'', de um ''Mestre do Fogo''.

K.M.

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