domingo, 20 de novembro de 2016
?! (11)
Ninguém poderia dizer então que o Sol reaparece com boas intenções. Esse não poder transformar as coisas em sua própria perfeição é reabsorvido em si mesmo até tornar-se a mais pura arte. Imagina-se então, por toda parte, um estado anti-artístico epidêmico carcomendo o mundo, contrário a todos os instintos da saúde, da beleza, da inteligência e da arte, que é a escuridão; o modo de ser da escuridão deixa todas as coisas esgotadas, pobres e rarefeitas. E, de fato, a história humana é rica em estados anti-artísticos: a necessidade de se apossar das coisas, consumi-las, envilecê-las, usá-las e matá-las deixando-as irreconhecíveis, é própria dos mais baixos atavismos humanos. Natural, portanto, que o poeta use os momentos totalmente sem nuvens de seu domínio de maneira absolutamente despótica. ''Durante dez meses aqui '' (ele diz) ''tudo será feito de trevas ''. Então, quando as trevas desse sol poético realmente chegam ao mundo, elas interpelam todas as coisas, arrancando-as à noite do mundo e mergulhando-as na sua própria; o rito do sol negro faz de todas as coisas propriedade sua, mas sem puxar as barbas duras do mundo. ------ No universo em expansão (eu disse à ela) as galáxias mais remotas distanciam-se de nós à uma velocidade tão grande que a luz não consegue nos alcançar (.) O que percebemos como a escuridão do céu é essa luz que viaja velocíssima em nossa direção e, entretanto, não pode nos alcançar, porque as galáxias das quais provém distanciam-se a uma velocidade superior à da luz(.) ------, concluí. A embriaguez apolínea mantém excitado sobretudo o olho do poeta, de modo que ele receba a força visionária. Mas no estado dionisíaco, por outro lado, o sistema inteiro de afetos é que é excitado e intensificado, de modo que ele descarrega todos os seus recursos expressivos de uma só vez sobre as pessoas, liberando ao mesmo tempo, como uma bofetada na cara, a força de representar, fingir, transfigurar e transformar, bem como toda espécie de mímica e teatralidade. ------ O essencial (continuei) é a facilidade da metamorfose, a incapacidade de não reagir, de modo muito semelhante a alguns histéricos, que também assumem qualquer papel a qualquer inclinação. É impossível ao homem dionisíaco não compreender à fundo qualquer sugestão, ele não ignora nem o mínimo sinal telepático de afeto, tem o grau mais alto de instinto compreensivo e divinatório, tal como possui o grau mais alto da arte de comunicar. Ele entra em qualquer pele, em qualquer afeto, obedecendo à princípios muito rígidos de espreita; ele se metamorfoseia sem cessar (.) ------, concluí. Uma questão de coragem: manter o olhar fixo na escuridão, mas também perceber nela sua luz dirigida à nós, pobres mortais, afastando-se infinitamente de nós. Esse estado de urgência no qual mergulho sempre que olho para você é intempestividade pura. E nada disso tem a ver com a idolatria das estrelas de cinema. Apenas a expressão empobrecida de personalidades dispersas; claro, com tudo o que o fenômeno comporta de fabricação , exigências subjetivas, fantasmas e delírios publicitários. Falando-se, mesmo agudamente, de alienação e dependência psicológica do público, só se vê ainda uma parte desse fenômeno de massas. Mas honestamente, acho que pelo caminho da adulação de estrelas ainda pode surgir alguma coisa de valor sociológico, .ter um ídolo é para os jovens de hoje demonstrar, na ambiguidade, sua própria individualidade, maneira mais econômica, em tempos de recessão mundial, de se chegar à uma forma de identidade de grupo (.) ------, ela disse. ''Eis uma mulher imponente mesmo de pijama '' (pensei : os opulentos peitos descobertos. Sobre uma base forte. Lábios cheios. Como ela, todas as outras figuras de mulher do meu pensamento nasciam de formas vagas, pouco articuladas e colhidas aleatoriamente, contra um fundo opaco de sensações extintas. Restos de claridade que pareciam tecer à minha frente, sem parar, uma série contínua e imprevisível de sinais, pensamentos, construções indescritíveis do inconsciente coletivo , todo um entrelaçamento de asas infinitamente mutável e fugaz que , de um instante para outro, tornava-se legível como uma revelação. Meu último passeio no pacto de Verona tinha sido para ir ao cinema, assistir, em segredo, o filme que ela protagonizara recentemente. Modéstia à parte, eu era um belo espetáculo para os olhos dela, com minha mala na mão, perto da porta. Mas pensava que, quanto antes estivesse no bar do aeroporto, com o segundo ou terceiro uísque descendo pela garganta, tanto melhor. Ela quis saber o que eu tinha feito na rua e lhe contei sobre o filme. ----- E o que você achou (??) -----, perguntou-me, aflita. ------- Hanhãn (respondi) muito interessante (.) -----, depois caminhei lentamente até a porta e disse ''ciao''.
K.M.
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