sexta-feira, 25 de novembro de 2016
?! (15)
Devo ser muito ingênuo, mas agora sei que mesmo a ingenuidade pode ter sua recompensa. Consultando o guia das obras em exposição no National Arts Club, descobri que entre os sócios daquele clube estiveram alguns dos maiores artistas americanos da virada do século XIX para o XX. ----- Eles tinham que doar ao clube uma obra de arte de valor histórico indiscutível para se tornarem sócios vitalícios (.) -----, eu disse à Linda. Os olhos dela estavam brilhantes, e minhas intenções para com ela estavam longe de serem apenas ''científicas''. Mas para que eu me aproximasse dos mistérios da felicidade, naquela tarde, teria que mergulhar fundo nos olhos dela e refletir bastante sobre o fio de Ariadne , e aquele supremo tipo de êxtase, tão contagioso quanto lisonjeiro. Meu prazer, em contrapartida, tinha profundas afinidades com o dela; quer com seu êxtase, quer com sua admiração. ----- Criação (ela disse) Quanto prazer sou capaz de sentir no simples ato de desenrolar um novelo. O êxtase do avanço, mas também, ao avançar, não só descubro os meandros da caverna onde tateio, mas também desfruto desse tipo tão especial de felicidade que consiste em desenrolar um novelo até o fim. Essa certeza que me é dada pelo novelo engenhosamente desenrolado junto com você (.) -----, concluiu ela. Às cinco da tarde, parecia então haver uma quantidade pouco frequente de amor e desejo no ar. Todo mundo estava na rua; os cafés estavam cheios. O mundo parecia totalmente aberto,fácil e desenrolado até o último centímetro de seu barbante. ----- E não será essa (eu disse) justamente a felicidade de toda produção, pelo menos aquela que tem forma de prosa ? Para Heidegger, por exemplo, poesia era produção. E no amor, porque não dizer, somos também seres de prosa na sua mais alta potência. -----, concluí. Pareceu-me, então, impossível aceder à uma sensação mais profunda de felicidade do que aquela que se manifestou em mim diante da fachada redesenhada por John La Farge em 1883. Era necessário, agora, apenas tirarmos de dentro da realidade aquilo que era idêntico à nossa paixão. Algumas semanas antes, por sinal, eu havia anotado no meu bloco o seguinte: '' Sou um homem novo, sensível à tudo o que há de idêntico à mim no mundo. Linda Sherman aumentou tudo o que sou capaz de ver à minha volta, ao substituir com seu coração todas as ficções com que eu sustentava meu universo insólito de naufrágios amorosas em série. Ao invés de forçar-me à um novo estilo de vida, ela apenas reforçou poderosamente minha busca mais profunda, pressentindo em todas as minhas palavras um coquetel de escolhas e temáticas que só alcançariam a perfeição última em sua pessoa inimitável ''. Esse parágrafo tinha me agradado muito, na ocasião em que o escrevi. Relendo-o, agora, de memória ao lado dela, permiti-me confrontar o sentido político-racional que ele também tinha para mim com o sentido mágico-individual da minha relação com Linda. De fato, ela era o matiz idêntico à mim. Concentrando-me no seu rosto, a noite surgia como um êxtase totalmente compartilhado por duas pessoas. E naquele estágio da experiência, qualquer cadeia dos meus pensamentos tornava-se música. o ''Aqui e Agora'' era uma música da minha inteira responsabilidade. Responsabilidade e habilidade do artista, que estudando cuidadosamente a situação, e com a voz mais calma do mundo, emitia a música mais apropriada. Ao me referir ao ''Aqui e Agora '', no entanto , eu não me referia à cidade, mas ao pequeno recanto, não muito rico em acontecimentos, onde eu me encontrava. Até então, fôra divertido para os outros verem chegar um rapaz novo com uma bela moça de vestido verde e pensarem: ''Ele foi buscá-la no aeroporto e agora ela está lá dentro do recanto com ele. E porque não (?) ''. De fato, lisonjeava-me a idéia de estar com ela no Centro do Universo, que por tanto tempo eu habitara sozinho, até torná-lo iluminado o bastante para que alguém pudesse pisar nele sem se perder. ----- Olhar-te dentro dos olhos e soldar com meu próprio sangue as vértebras de 26 séculos de espera, para libertar o último século acorrentado. Penso que somos todos devorados pela febre da história e deveríamos dar-nos conta disso (.) -----, eu disse. Ela ria. Mas os acontecimentos, àquela altura, davam-se de tal modo que a aparição de Linda me mergulhava num sonho interminável sobre ela. Mais do que isso: comportava-me, naquela hora, como uma figura feita de medula de sabugueiro colocada numa caixa de folhas de estanho vitrificadas, que, pela fricção do vidro nas mãos dela, ficava eletrificada e a cada um de seus movimentos era obrigado a entrar nas mais extraordinárias relações com ela. Não seria exagerado dizer que agora ela se lançava à vida ''de mãos cheias''. A grande expansão da Caixa de Pandora ; eu como sempre falando em seus ouvidos com frases muito longas, mas tudo muito bem arranjado para que pudéssemos rir em conexão com a esfera do caráter. Uma nítida sensação de que não era ''exatamente'' necessário entender a fundo nenhum poema de Edgar Allan Poe naquela situação. Estávamos livres disso. ----- É muito melhor entender qualquer outra coisa, no momento (.) ------, eu disse à ela. Estávamos certamente apegados à esfera intelectual e absorvidos nos fatos da política, mas associando ora o meu, ora o seu riso à uma variedade enorme de súbitas oscilações de opinião.
K.M.
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