Quando eu me perguntava por que ela resistia em vir me visitar onde eu estava, sentia-me subitamente tomado pela insondável umidade gotejante do calor à minha volta, pelo aguaceiro sujo correndo sobre vigas verrugosas de mariscos rosados no píer; por cúpulas amarelas de limões descendo até caixotes de verduras e borbulhando através de condimentos de animais esfacelados no próprio sangue. Tudo aquilo estava à venda na rua. Era inacreditável. No meu último e-mail para ela, escrevi: ----- O egoísmo vale tanto quanto vale aquele que o possui ; pode valer muito ou pode ser vil e desprezível. Por mais pobre que seja a cidade onde eu esteja, dentro do hotel aqui em frente todas essas porcarias da feira são cortadas, coadas, agrupadas por nomes na geladeira, contadas e recontadas, abertas, lavadas, congeladas e descongeladas, rejeitadas, selecionadas, preparadas e finalmente servidas para os turistas saborearem extasiados. Trabalhei como garçom nesse hotel quando era menino. Achava incrível trabalhar num hotel cinco estrelas. Eu me sentia chique. Preferi trabalhar ali do que como office-boy da universidade. Mas voltando ao assunto, se formos capazes de encontrar um cânone comum para o nosso egoísmo, é o todo de nossa vida que dará um passo adiante. Além do mais, nosso amor vai muito além de um problema de dieta. Basta lembrar os expedientes com que o Imperador Júlio César se defendia de suas pequenas dores de cabeça: marchas longuíssimas, um modo de vida dos mais simples e rústicos, permanência ininterrupta ao ar livre, fadigas constantes e saturação sensorial. Mas estes são, num cálculo grosseiro, as medidas gerais de proteção e conservação contra a extrema vulnerabilidade dessa máquina sutil e que trabalha sob pressão máxima chamada gênio (.) -----, escrevi. Meu e-mail era certamente de uma indolência sem vergonha, mas na ressaca dos meus lábios espumejantes batia sem parar a lembrança dos seus seios. A pressão de mil atmosferas sob as quais eu me comprimia naquele quarto de hotel, onde eu me erguia e me empilhava à sua espera , tinha força suficiente para me pôr mais uma vez à prova entre suas coxas e seios; e a volúpia que, nas cascas das minhas histórias inacabadas, arrancava ao meu mundo de pedra um coração de veludo roxo, entremeava meu pensamento com agulhas e pregadores de roupa íntima. O e-mail continuava assim: ----- Não estou te convidando para conhecer a cidade. Eu mesmo já não ando livremente por aqui. Sou monitorado vinte e quatro horas por dia por todos os serviços de segurança pública da cidade e pelos militares, daqui e de outros estados. Onde eu vou, eles mandam gente atrás. Portanto, sugiro que você desça no aeroporto internacional daqui, entre num táxi e vá direto para o hotel. Não converse com ninguém, não sorria para ninguém. Ficaremos presos dentro do hotel por quantos dias seja necessário. Não há de nos faltar nada lá dentro. Depois, é só fazer o percurso de volta. Sem grandes emoções. Eu prometo. Entenda apenas que o trabalhador cansado, que respira lentamente após feitos e proezas inimagináveis, e cujo olhar pode ter se tornado momentaneamente estúpido e vazio, deixa as coisas andarem como andam por considerar os frutos do seu egoísmo mais cômodos e saudáveis para nós dois. Com isso, eu fortaleço incrivelmente a valoração do meu amor por você. Não tenho dúvidas de que o instinto mais básico dos meus sentimentos por você são uma aspiração de vida. E considero admirável (apesar de tudo) a disciplina a que me submeti para sobreviver nessa cidade. Ao anoitecer, abro todo tipo de livros em que se mobilizam os feitiços perigosos da arte política, e raramente deixo de escrever coisas que despertam os maus instintos de todos os ''envolvidos''. Apetece-me, nesses momentos, saber mais sobre cada infortúnio sem nome causado por certos rituais de magia negra do que sobre qualquer imagem de catástrofe política espontânea que tais livros possam oferecer. Mas como disse minha voz interior, na ocasião da minha morte iniciática: ''Quanto mais afastados do centro irradiante da consciência, mais política se torna a atmosfera de nossos cérebros ''. Depois, olhando-me no espelho, pergunto-me a que ponto pode ter chegado alguém para despejar assim no asfalto virtual anônimo o que lhe restou de seus livros e escritos. Esperar o quê agora, em nome de Deus (?!) Que alguém (preferivelmente você) passe por aqui a horas tardias e seja subitamente assaltada por um irreprimível desejo de leitura (?) E após isto, por um desejo sexual avassalador (?) Ou será qualquer coisa de muito diferente uma alma que aqui está de guarda, alimentando esperanças com as migalhas que você me atira (?) O certo é que, independente das suas reais intenções, cada palavra que eu escrevo eu as escrevo de uma maneira que o destino do mundo me olha a partir delas com mil olhos. Mas isso (já lhe dei a entender) não é a ótica de um pessimista diante do ''mau olhado''do mundo. É (isso sim) exatamente aquilo que o artista trágico comunica de si. Não só o fato de que a pobreza sempre perde, mas justamente o ''estado sem medo'' diante do terrível e do questionável. Para ele, esse estado (e para aflição geral) é altamente desejável. ''Quem o conhece '', pensa o trágico ''honra-o com honras supremas ''. E eu certamente também o comunico , tanto com meus escritos quanto com minha vida. Pressuponho obviamente que sou um artista, ou antes um gênio da comunicação. Minha valentia e a liberdade dos meus sentimentos diante de situações tão desfavoráveis quanto absurdas; diante de infortúnios sublimes dos quais não tenho nenhuma chance de escapar; diante de problemas e situações que despertam horror nas pessoas comuns ------ é esse estado triunfante que o trágico escolhe para si. É esse estado que ele glorifica e, glorificando-o, glorifica-se. O que há de valentia em nossas almas festeja seus melhores e mais raros frutos diante da tragédia. A bebida dessa dulcíssima crueldade consigo mesmo substitui qualquer sofrimento ocasional pela exaltação sem limites das próprias forças. Mas, para muita gente, encontrar palavras exatas para aquilo que elas têm diante dos olhos pode ser algo de muito, muito difícil. Por cima de tudo isso, no entanto, logo estará uma quantidade satisfatória de pó, que aqui, em particular, é composto de sal marinho, calcário e mica.
K.M.
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