quarta-feira, 23 de novembro de 2016

?! (14)

O que se passou exatamente no Shake Shak ? Ótima pergunta. Ou melhor: pergunte ao haxixe. Parece que tudo dá errado comigo quando fumo haxixe; ou simplesmente Deus percebe que o fumei e se recusa a me entender. Anne não falara nada até aquele momento, porque eu me sentara ao seu lado como um Don Juan inquestionável, e mandara vir uma polenta à americana e uma garrafa de nebiolo. Ela queria que eu pedisse logo o segundo prato. Escolhi qualquer coisa vulgar e ela começou a folhear o cardápio, e a pedir uma coisa atrás da outra. Sem grande risco para o nosso bom-humor, disse-lhe que a ''evasão'' era a necessidade primordial que sustentava o consumismo. Depois disso, saltou-me à vista o nome anterior ao prato que ela tinha pedido, e eu pedi um daquele também. Quando cheguei ao alto do cardápio, os garçons já estavam nos olhando com desconfiança.  Aquilo já não era apenas gula, era antes uma espécie de extrema delicadeza mística,totalmente desencadeada pelo haxixe em nós , para com as comidas que não queríamos ofender com nossa recusa. Resumindo: ------ E um patê de Lyon (.) ----, pedi novamente. Estava sendo divertido, até então, perceber que a evasão pelo consumo também se manifestava na gula enquanto ''ópio do povo'', substituto para a monotonia da vida cotidiana e os estados de consciência ordinários em que vive a massa. Em resposta à alienação generalizada, um imaginário gastronômico atordoante e recreativo . Depois de comer um pouco, Anne sussurrou-me ao ouvido com desdém: ----- É carne tenra de coelho ou de galinha (seja lá o que for) Em todo caso, não me parece próprio satisfazer minha fome de leão com carne de leão (.) -----, ela disse. De resto, já tínhamos decidido que, assim que acabássemos de comer ali, iríamos andar a pé e fumar mais haxixe, até ficarmos com fome de novo e irmos jantar em outro restaurante.  ----- Aumentando a fragmentação das tarefas e a nuclearização do social (continuei) a lógica burocrático-tecnocrática engendra a passividade e a desqualificação, o tédio e a irresponsabilidade, a solidão e a frustração crônica de todos os cidadãos de um país, inclusive os que se consideram profissional , emocional e sexualmente realizados. É justamente nesse terreno que a cultura de  massas encontra a brecha necessária para fazer as pessoas evadirem-se da realidade, iludindo-se das maneiras mais hilariantes. Abrindo o campo ilimitado das projeções e identificações falsas, encoraja-se então as atitudes mentais passivas, embotam-se as faculdades imaginárias e criativas, desestimula-se a altivez espiritual e o intelecto aguerrido que passa entre as descrições padronizadas pelo senso comum. Assim, a cultura de massas apenas amplia a esfera  da despossessão subjetiva (.) -----, concluí. Após comermos, íamos caminhado ao longo da Madison Ave. , lendo todos os nomes  de edifícios à nossa volta. Uma alegria incompreensível apoderara-se de mim depois que ela finalmente reparou no meu terno cinzento comprado na A. Shop; cinzento, lustroso, de raiom e com paletó traspassado. Eu sorria à todos os nomes de edifícios que ela dizia em voz alta. ----- Metropolitan Life (eu disse) ''Uma luz que nunca falha'' ; no antigo restaurante aí dentro haviam murais históricos do célebre ilustrador de Robin Hood, A Ilha do Tesouro e Robinson Crusoé. Hoje, em compensação, o que existe aí dentro é o First Boston Credit-Suisse (.) -----, concluí. Dois minutos depois, olhando para baixo, acrescentei: ---- As coisas tornam-se mais estranhas a cada século que passa (.) ------, parecia-me que o amor das cores prometido nas respectivas placas dos nomes de todos aqueles edifícios era qualquer coisa de maravilhosamente belo e comovente. Apenas pelo prédio da Apellete Division of The Supreme Court of The State of New York foi que passei com hostilidade, pois ele me fazia lembrar de guerras aéreas e de um bar onde eu trabalhara como garçom, no Bronx, em que eu tinha que desviar o olhar das fisionomias demasiado desfiguradas de certas clientes. ------ Aqueles velhos jogos de amarelinha do Demônio (eu disse) Tudo sempre se apaga, uma vez terminado cada sonho mau; e para além de suas evidentes satisfações psicológicas, a cultura de massas imita uma função parecida no inconsciente televisivo: acelerando o declínio de valores ultrapassados, pouco funcionais numa sociedade em desintegração, as estrelas da música e do cinema usam seu erotismo para criar um teatro de variedades que, através da tv e da imprensa feminina, promove uma ética lúdica e consumista da vida muito interessante. Hipnotizado por suas realizações pessoais milionárias e seu incrível bem-estar , o público aficcionado substitui a fé em Deus e no pensamento independente pela crença em múltiplas formas de auto-realização existencial, capazes de centrarem violentamente suas vidas privadas, monótonas e tediosas, nos mitos de sucesso mais loucos.  Para mim, é particularmente incrível que, no fundo, a vida moderna seja somente isto. Chega-se até um limiar e, depois, nada. Tudo fica pelo caminho como pratos vazios numa mesa de restaurante (.) ------, eu disse. Quando anoiteceu, o vinho, uma garrafa de cassis, um vinho seco, já não estava indo bem com o haxixe. Eu tinha escolhido aquele restaurante perto do Flatiron Building por causa da vidraça aberta através da qual eu podia olhar rua abaixo na esperança de vislumbrar os tornozelos e as ancas das mulheres que passavam. ''23 -SKIDOO (!) '' . '' CIRCULANDO (!)'', como diziam os tiras antigamente, naquele mesmo ponto da cidade.  No copo dela havia uma pedra de gelo solitária, que na minha imaginação representava sua vida, e eu aguardava ansiosamente um café à napolitana na frente do telão, porque o jogo do Nápoles começaria às 22 h em ponto. Ao que tudo indica, foi mais ou menos aos 30 ´ do primeiro tempo que Anne percebeu que eu tinha o péssimo hábito de me transformar completamente com cada pessoa que atravessava minha vida. Como se cada pessoa representasse para mim uma figura que, claro, não tinha nada a ver com o modo como eu as via, mas antes com o modo de ver dos grandes retratistas do século XVII, que procuravam realçar uma colunata ou uma janela, ou mesmo um lustre, de acordo com o estatuto do personagem que enquadravam. ------ Mesmo que você não me perdôe nunca mais (eu disse à ela)  Talvez eu ainda lhe deva um confissão de caráter mais geral : a solidão dos meus estados de êxtase poético têm de fato seus lados sombrios. Para falar apenas do lado físico: houve um momento, agora há pouco, que uma forte ereção dentro da minha calça só pôde encontrar alívio num cantarolar em surdina ao pé do seu ouvido. E não tenho dúvidas de que o que era verdadeiramente belo e iluminado entre nós, até o momento, desfez-se num individualismo sonambúlico, despossuído de si mesmo, assim que comecei a cantarolar. Por outro lado, minha ereção atuou como um filtro dos meus desejos de afirmação imediata. Tenho certeza que, amanhã pela manhã , quando tentar escrever sobre a experiência, produzirei mais do que uma mera enumeração de impressões vagas. Hoje à noite, caso você venha dormir comigo, o êxtase restante do haxixe demarcará nosso cotidiano pelos seus belos contornos prismáticos, formando uma espécie de figura sem sentido que se retorce no escuro até explodir de felicidade (.) -----, eu disse. Mas ela analisou tudo que falei pelo ângulo da generalização dos meus desejos egoístas . Desanimada, vi Anne levantar-se da mesa e dizer ao garçom que precisava ''imediatamente'' de alguma coisa para ''fazer assentar o ravióli''' dentro dela. Quando  o Nápoles finalmente abriu o placar ,  meu café já tinha esfriado na xícara.  ''A cultura de massas '' (pensei então) ''Realmente fantasmagoriza o espectador''. 

K.M.

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