sábado, 19 de novembro de 2016

?! (8)

Um sonho afinal de contas, os cortes arbitrários em que tudo oscila sem motivo aparente, tesouras manipuladas por manobras mentais, e de repente veio às nossas bocas o abismo do paladar. Após vencidos o fastio e a falta de apetite, as últimas curvas, nossa vista se abriu sobre uma inesperada paisagem de palato: uma maré revolta de gula contínua e esverdeada, que só conhecia as ondas fibrosas e pastosas da polpa das frutas abertas à faca no prato. ----- Quem sempre foi comedido no comer (eu disse à ela) nunca soube o que é uma refeição à sério; o prazer de comer não é a gula, esse desvio da estrada plana do apetite que conduz à selva da gulodice. Ah, a desmedida do desejo e a uniformidade daquilo que o sacia. Comer sem deixar resto (!) Assim se chega mais ao fundo da coisa devorada do que pelo prazer de comer (.) ------, concluí. Estávamos em Verona, no presente e em San Zeno, mas era um hotel à espanhola, uma vasto pastiche com enormes esculturas goyescas no pórtico de entrada ; e sem transição estávamos de novo numa cama cheia de pecado e traições, onde profanávamos três altares ao mesmo tempo. Deitáramos na diagonal, sem sapatos, numa espécie de abandono satisfeito que pouco tinha a ver comigo. A estrela dela, mais próxima do real e de seu maior espectador, expandia-se ao meu lado combinando o sex-appeal contemporâneo com o de Brigitte Bardot e M. Monroe, des-sublimando a imagem da diva inacessível por um erotismo natural. Olhando para uma vela à minha frente, eu sorvia um gole de café para mim e outro para ela, até que os restos de chantilly viessem dar à borda espessa da xícara, amplo promontório onde repousavam meus lábios. ------ Prometi à mim mesmo nunca mais praticar psicologia barata (eu disse) Nunca mais observar só por observar. Isso resulta numa ótica falsa, estrábica, em algo forçado e exagerado. Em todo caso, o trabalho da democracia no Ocidente retirou as estrelas de cinema daquele universo sagrado e distante das décadas passadas, e suas vidas privadas agora estão em todas as revistas; seus atributos eróticos, nas telas e nas fotos; vemos todas elas tranquilas e sorridentes, mergulhadas em situações mundanas, atrás das câmeras, em família, na cidade, de férias (.) corrente de dessacralização democrática que ainda não chegou ao fim, inventando estrelas cada vez mais realistas e palpáveis. 

K.M.

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