sexta-feira, 18 de novembro de 2016

?! (7)

----- Tenho de confessar à você que vi a coisa chegando  como uma visão bíblica do Antigo Testamento (ela disse) Primeiro, aos poucos; o combustível que alimentava seu fogo no começo era a mais pura vaidade. Você e aquela eterna máscara mortuária fotografando-se incansavelmente no espelho. Mas em pouco tempo a coisa evolui para um mar de chamas tão turbulento, que já não fazia mais sentido falar em vaidade. Subjacente àquele rosto imutável, foi espantoso para mim constatar que não havia absolutamente nada, nem vaidade, nem caráter, nem história, nem honra, nem mesmo infelicidade. Não havia absolutamente nada. A exposição dos seus textos, por si só, tornou-se um dos mais fortes efeitos que se fizeram sentir sobre quem os lia desde o começo.  Os americanos (em especial) colocaram em prática toda sua estupefação, interpelando seus pseudônimos a partir dos mesmos anúncios luminosos de Hollywood, o que te tornou famosíssimo (.) ------, ela disse. Ela relacionava minha pessoa, obviamente, ao conteúdo de um sem número de profecias recentes. Mas o que se passava então era o seguinte: a imagem interior do meu ser, que trago comigo o tempo todo, revelou-se para ela o que de fato era: de minuto a minuto, uma pura improvisação. Isso fazia de mim alguém mais atento e vivo, quando o assunto era a consciência intensificada. Permitia-me orientar as reações dos outros com clarividência, totalmente pelas máscaras que lhes apresentava em cada ocasião. ------ Compreendo o que você quer dizer (eu disse) Minha condição difere da sua por não estar fundada no princípio de identidade permanente de uma estrela de cinema. Não busco a encenação midiática de uma personalidade, usando o sistema de pequenas variações tópicas da moda para sofisticar a encenação do próprio corpo.  Absolutamente ! Ao transformarem suas personalidades numa grife de sedução, a personalização das aparências de uma estrela não chega a constituir nenhum arsenal de máscaras. As estrelas apenas redefinem, reinventam, de quando em quando, aqui e ali, o perfil e os traços de sua personalidade. E é da natureza de seu meio essa ambição liberal de re-fabricar, remodelar sem modelo preestabelecido para maior glória de uma personalidade radiante. Por isso, nada alegra mais uma atriz do que ver alguém inusitado se aproximar dela com uma caixa cheia de máscaras exóticas, mostrando à elas os exemplares mais raros, a máscara do assassino, do magnata das finanças,  do comunista, do Presidente da República, do navegador de longo curso ; máscaras reais,  não apenas cinematográficas. Máscaras que fazem rizoma com a realidade concreta, sem a intermediação da tela. E ver através de tais máscaras deixa a todas elas encantadas, como se estivessem diante do deus Dioniso em pessoa. Nessas ocasiões, elas relembram as constelações e momentos mais marcantes em que de fato foram outras nos filmes que protagonizaram. Na verdade, todos os seres humanos aspiram ao êxtase privilegiado desse jogo de máscaras caleidoscópico, mas só quem sabe viver integralmente através disso é o iniciado nos mistérios da consciência (.) ----, eu disse. ----- E porquê (?) -----, perguntou-me ela. ----- Porque (?) Responder à isso seria mostrar-te uma máscara a mais. Uma máscara de olhos inescrutáveis, como uma sonda insaciada  que volta novamente à luz saída de toda profundidade da consciência, esse mar de imagens indescritíveis. Mas, digamos que o iniciado saiba como transportar instantaneamente qualquer pessoa para uma daquelas pausas silenciosas supremas do destino, em relação às quais só mais tarde alguém percebe que elas continham o germe de um destino muito diferente daquele que nos coube de fato. As pessoas, e as atrizes em especial, apressam-se a dar-me razão quanto mais avidamente eu as faço sentir subindo de suas entranhas aquelas sombras falantes de vidas não vividas.

K.M.

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