quarta-feira, 16 de novembro de 2016
?! (prólogo)
Naquele ponto exato onde eu transformara o quarto em um camarote , era possível ver agora um ballet superior aos dos palcos de Herrenchiemsee, que ofereciam à Luís II da Baviera. Era, de fato, um ballet, até mesmo nas primeiras horas da manhã, e certamente os cartazes e letreiros atraíram não só a massa, mas o público mais seleto do planeta. Fazer ler meu calhamaço mal acabado em meio ao escândalo democrático americano, enquanto afinava os baixos dos barretes, os violinos dos toldos, as flautas das flores e os timbales estatísticos daquelas frutas impressas, não era algo possível sem um obstinado prolongamento intelectual,durável e maior a partir do momento em que minha escrita tornava-se poeira de estrelas nos olhos dela. Mas o fenômeno ainda não diminuía em nada a acusação de vício totalitário que pesava sobre mim. Eu ainda era um elemento a ser recrutado pelo bom senso. ----- No entanto (ela disse) tudo parece relativamente bem esquematizado na sua cabeça, K; com idealismo, e sem família, sem parentes, em casa, sem ajuda; enfim, sem nenhuma daquelas bobagens te puxando em vinte direções diferentes, nada daquele tumulto emocional com que alguém como você desnorteio os outros, nada da turbulência de querer mudar o mundo ao mesmo tempo que aluga um casarão novaiorquino pomposo no bairro do show-business (.) ------, ela disse. De fato: o fracasso das minhas tentativas talvez fosse o maior signo de que tais remédios eram já tardios, assim como todos aqueles projetos de passeios noturnos que faziam os silêncios se abrirem, necessários e belos,como pausas em uma música que também são música. A pausa era criadora. E eu evitava fazer perguntas à ela porque a sentia ligeiramente assombrada de ainda me ver ali. ----- Não se preocupe (eu disse) Deixe-me ficar tal como estou, olhando sobre os telhados e colinas, regurgitando essas formas redondas que convidam ao cumprimento ou à despedida. Palavras misturadas e confusas, que me dizem tudo , mas que é preciso alisar, conectar com outras para que você me entenda.Chame isso de primeiro round de um novo estudo para piano. De ''cortesia sigilosa'' de alguém que busca ou teme os flancos perigosos. A estridência publicitária não é suficiente para impedir o espaço público do pensamento. Fogos contrários certamente se acendem, novos títulos e novos elogios aparecem, lançando dúvidas políticas nos espíritos ou levando a curiosidade eleitoral para outra parte. O gênio do coração, cuja voz não diz uma palavra, nao lança um olhar em que não se encontre a consideração e o vinco de um tentador, e cuja maestria consiste em que ele entenda das ''aparências do mundo'', é também feito daquilo que para os que o pressentem constitui uma ''doce coerção'' para se aproximar dele. Complexificação e flutuação de referências intelectuais alisam as almas ásperas e lhes dá a saborear novos anseios, mas de você eu não preciso ocultar nenhum detalhe da minha história sem saída. Se agora há pouco passei o dedo no seu nariz e o retirei rapidamente,com medo de ser censurado, foi para que minha mão apalermada aprendesse a esperar e a segurar mais graciosamente suas peças de avanço. O tesouro que estava escondido , a gota de doce espiritualidade sob o opaco e espesso gelo dos efeitos epidérmicos das comparações e interrogações pessoais (.) ------, eu disse. Subitamente, ela compreendeu que as dádivas daquela manhã queriam ser recebidas em lugares altos, como o nascer do Sol. E que a aurora que iluminava as paredes daquele quarto com cores sugestivas, não era uma aurora mercantil. Aquele sol estava coberto de papéis e detritos descartados pela sociedade, e entre seus raios mais fortes, os que brilhavam com mais força saíam do meio de escombros. Escombros de repetição e variação de formas. Mas ao invés de trocas e negócios, só música. Tocava Brahms. ----- Cômica, bela, enternecedora semelhança com Brahms (eu disse) Em que Banco da Justiça Universal será pago a Brahms o que ele teve de suportar quando tocava piano em seu primeiro concerto, e lhe atiraram lixo (?) Quando apareceu o primeiro volume de Proust (depois que André Gide atirara o manuscrito no lixo), um certo Henry Ghéon escreveu sobre ele que ''tal autor havia se encarniçado em fazer o que é exatamente o oposto de uma obra de arte, o inventário de suas sensações, o recenseamento de seus conhecimentos, em um quadro sucessivo, jamais de conjunto, nunca inteiro, da mobilidade das paisagens e almas''. Assim, esse senhor atacou justamente a essência do gênio proustiano(.) ------, concluí. Depois que acendi o primeiro cigarro do dia, me pareceu impossível que algo pudesse se esvair de forma mais irrevogável que aquela manhã. A rotação daquela peça de avanço não deixara uma polegada livre no meu cérebro onde meu pensamento pudesse vir a repousar.
K.M.
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