Eu continuava vivo, claro. Contrariamente ao que se passava quando não estava solteiro, ainda tentando arrancar da memória minhas últimas confissões. Chegara a ter, após o contato com os arquétipos, uma atividade mental intensa e extra-sensória, digna de uma consciência desencarnada. Isso, só até minha voz interior restar estrangulada, extenuada, arrancando música à um mundo cada vez mais distante para fazer ouvir o fraco tom harmônico de sua realidade interior. Na ''cella'', tudo parecia indicar que minha voz se calara para sempre, tornando-se ,como recompensa, uma arte do vôo da consciência. Mas, misturada ao vôo dos fantasmas, e estremecendo ao seu contato, tal consciência deveio novamente voz, força e vitalidade. Quidquid luce fuit, tenebris agit. Apenas, não era mais a mesma voz. Podendo agora realizar todo tipo de arco e ângulo com o mais leve impulso dos sentidos, o homem falante, com a sensação de uma certa leveza divina, um ''para cima'' sem tensão ou esforço das cordas vocais, perambulava por toda Paris, mais forte e mais chocante que nunca. Parecia, porém, impossível saber se eu ia acompanhado ou sozinho. Sobre os despojos daquele personagem antigo, nesta cidade (pensava) em que não há monumento que não tenho fornecido inspiração à uma obra prima literária, começava a surgir um personagem menos real, mas mais verdadeiro. Um espécie abstrata de homem que, transportado no espaço -tempo de sua fantasmagórica companhia sem nome, seria apenas o glorioso sósia do outro. ------ Existe um conhecimento ultra-violeta e outro infra-vermelho de Paris, o das fotografias e o das plantas urbanas. Os dois mais exatos conhecimentos, o dos pormenores e o do todo (.) Fora deles, tudo o que é digno de se conhecer aqui está devidamente compilado no livro do historiador oficial da corte de Napoleão III, Charles Lefeuve. Nessa obra gigantesca (Les Anciennes Maisons de Paris), engana-se quem pensa só encontrar nela estudos científicos, matérias arquivísticas, topográfica ou histórica. Comparada à um tal vôo descritivo, a ''elevação'' da fotografia parece-me já demasiado terrena, muscular, pesada (.) -----, eu disse. Ela (se existia) não era francesa, nem falava nada. Como romancista experimentado, eu tentava explicar-lhe porque os maiores amantes de Paris eram estrangeiros, e me perdia nas descrições e motivações das grandes vias estratégicas. ----- Acesso à Paris pelo Porte de Maillot, instruído ''in puncto'' ; a Porte de Vincennes, a Porte de Versailles. Um belo dia, os parisienses acordaram e a cidade tinha as melhores vias de trânsito da Europa (...) -----, eu disse. Mas, em pouco tempo, minha narração foi substituída pelo puro movimento. Cinemática sob o dilúvio das imagens. Em poucos minutos, em segundos, todos os meus escritos que ela havia lido, se reduziram em sua cabeça à um monte de folhas sujas de esperma que a enervavam. Apelando para a busca da sensação imediata e a cadência da emoção sincopada, eu aparecia à sua frente na fachada de todos os bistrôs. ----- Mon coeur mis à nu (eu disse) Aqui, as mulheres veem-se mais no espelho que em qualquer outra cidade do mundo. Diria inclusive que não só sua beleza, mas a beleza de todas as habitantes de Paris, sai diretamente desses espelhos. Antes dos homens vê-las, milhares de espelhos de rua já as observaram. Tais espelhos são também um elemento espiritual de todas as academias poéticas daqui. E o modo como se refletem uns nos outros em séries infinitas é o contraponto da infinita recordação de recordações que, em Proust, se transformou na sua própria vida (.) ------, eu disse.
K.M.
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