sábado, 19 de novembro de 2016
?! (10)
Que talvez sim. Naquele momento era talvez o que eu esperava que acontecesse, mas mesmo para esperar era preciso ainda outra coisa, um abandono total das expectativas, livrar-me da sujeição da imagem dela e ambicionar apenas o abismo da consciência no qual eu vivia e sua poderosa luz. Verona by night e ponte Risorgimento: minha mão pularia do seu joelho para os seus seios, mergulharia nas suas coxas, voltaria para seu pescoço e seu rosto e sua boca encontraria nela, ainda, o emblema do mais profundo respeito encharcada das babas proibidas. Não seria a primeira vez que eu içaria minha mão à um volume feminino dançante, menos pela alegria de ler nela o último refúgio do meu pensamento do que pela sensação indefinida de estar fazendo algo que agradava aos deuses. ----- As estrelas de cinema não são mais seres completamente superficiais (eu disse , rindo) como todo mundo agora, nestes tempos de redes sociais, elas também aspiram `a exprimir-se com ''profundidade'' ; à testemunhar, relatar, ''pensar'', passar mensagens de auto-ajuda para a ralé e dicas ''super-legais'' de sucesso... essa avalanche residual de sub-mercadorias do estrelato é legião nas autobiografias das estrelas (.) O sucesso delas abre uma porta para a diversificação mercantil, a Caixa de Pandora dos sub-produtos do sucesso pessoal pede a utilização do nome consagrado em todas as direções . O melhor trabalho da publicidade atual se encontra nesses ''restos'', espécie de vibrante carniça do sucesso que fulmina o público aficcionado, fechando o círculo da alienação total. A celebridade aqui induz uma probabilidade de sucesso ali. Ahhaaaa (!) ''Via estrelas de cinema'' pode-se ampliar a audiência em qualquer meio , e colocar qualquer desconhecido nas melhores condições para o sucesso imediato (.) ------, eu disse. Meu desejo por ela, naquele momento, se balançava na fumaçadas minhas palavras, de mansa, mas desesperada esperança ; eu pedia à ela apenas para ir além, pedia como um cavalheiro, explicando que, caso contrário, eu daria meia volta imediatamente. Que eu não gostava de jogos que não sabia jogar direito e que preferia ficar sozinho para sempre do que à mercê dos seus altos e baixos estéreis, que só me empurravam para o final da lista. O dinheiro e a posição social certamente lhe davam um direito absoluto para brincar com meu coração, o que me incomodava. Conhecendo a fundo o país dos sonhos, eu conhecia também todas as consequências das provas e dos perigos míticos que continuavam a recomendar-me mais prudência e distância das brincadeiras de mau gosto dos outros, e pelo próprio bem deles. A fuga imprevisível das barreiras espaço-temporais que eu atravessava começava no famoso ''tarde demais'' do atrasado, arquétipo de todos os fracassos sociais, e ia até a solidão absoluta do último compartimento da intuição intelectual, onde a luz da consciência fazia de qualquer um rei dos homens. O medo de perder a ligação com o mundo dos vivos era substituído pelo aconchegante horror das regiões desconhecidas da consciência. ----- Similia Similibus (eu disse) A anestesia de um medo pelo outro é a salvação do andarilho das estrelas. Sem perceber bem como, sinto-me subitamente envolvido numa luta de gigantes muito maior que o mundo; e reconhecendo dessa luta a luz da minha própria consciência, testemunho mudamente o combate entre os deuses da anestesia e do pânico. Os enigmas não resolvidos são facilmente deixados para trás, quando se acelera a vibração da consciência. E a incerteza do futuro é um copo cheio de ácido, onde o pensamento ferve até se dissolver. Só me pergunto como alguém ainda pode dar conta disso numa sociedade com inclinação científica e tecnológica. Como explicar esses transportes diabólicos (?) E se sou eu quem responde minha própria pergunta, é justamente porque a chave de toda a modernidade está oculta no imemorial e no pré-histórico. A permanência do sentimento mágico no seio do mundo racionalista é a arqueologia de um presente que nunca regride ao passado remoto, restando dele em nós uma vaga intuição de estados não vividos, incessantemente tragados em direção à origem do universo (.) ------, eu disse. Ela me ouvia calada, na margem oposta do que deveria ser um verdadeiro encontro amoroso. Ainda não era de forma alguma o que eu esperava. Era, antes disso, algo que eu temia e não desejava vivenciar. E se naquele segundo eu não era capaz de saber se suas mãos e sua boca cairiam sobre mim de repente como uma violadora diante de sua presa, ou se ela estava apenas me torturando gratuitamente como uma idiota, também não seria eu quem faria faria o primeiro gesto de entrega. Tampouco cuspiria em sua cara e passaria a enumerar seus defeitos e fraquezas. Naquele silêncio em que tudo ameaçava afundar de uma hora para outra, eu não ouvia nem sua recusa nem seu coração. Só via rostos desconhecidos dizendo que não me entendiam, e que mais uma vez tudo era culpa minha. Eram os mesmos rostos do passado, da minha infância, da minha vida inteira. Os mesmos rostos que eu retorcera, agora ressurgidos. ----- Indigestão de confidências, entrevistas, indiscrições relacionadas ao deus da escrita. O que impede o acesso ao presente imediato é exatamente a massa daquilo que, por alguma razão, nele não conseguimos viver. O que transporta os amantes mais fervorosos não são as qualidades humanas, físicas ou psicológicas, longe disso, nem uma mensagem de salvação, e sim o charme de uma imagem sublimada e estetizado, fabricada pelo próprio amante, e que o tempo todo ameaça não existir (.) E não será essa imagem tão amada a lançadeira do tear que perfura incansavelmente , ao ritmo de suas rodas mentais, a urdidura, o livro do herói (??) Mas querendo dar graças aos pequenos altares das palavras móveis e coloridas que, oficiando minha curiosidade, faço passar do devaneio fantasmagórico ao delírio das sensações, envolvidas na terra que voa como um cachecol flutuante, sinto por algumas horas percorrer minha espinha o frêmito do suspense e o ritmo elétrico da kundalini -----, eu disse.
K.M.
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