segunda-feira, 28 de novembro de 2016
?! (17)
O Presidente, e nesse ponto eu concordava com todos os relatos posteriores de Karina, vinha suportando com incrível dignidade minhas diatribes. Somente ao ser informado sobre minha projeção de slides na New York Public Library foi que ele interveio mais energicamente pelo twitter: '' As coisas realmente boas são dispendiosas '' (escreveu ele) ''E sempre vale a lei de que quem as 'possui' é diferente daquele que simplesmente as ''adquire''. Tudo o que é bom é herança ; o que não é herdado é imperfeito, é ''apenas começo' '', escreveu o Presidente na noite anterior à minha apresentação. E não foi sem sutileza que ele o fez. No vazio criado nos meus olhos, ao ler sua frase no celular, na tarde seguinte, Karina imediatamente floresceu à minha frente como uma saudosa lembrança de óculos escuros que eu cultivara desde o primeiro ano de faculdade em Franchise, Wiscosin, matriculado como estudante especial no curso de artes liberais. Antes de encontrá-la para realizar a projeção de slides na Public Library, eu vagueara a manhã inteira sob o sol inclinado de Nova York a se pintar de manchas vermelhas e negras entre o cinza formidável dos arranha-céus e inumeráveis rajadas de vento verde. Minha fantasia daquela manhã, a de que eu emprenhara acidentalmente uma fêmea de nome desconhecido, transformara-se numa tenaz convicção quando , ao me ver sozinho na 5Th Avenue, um dos dois leões de pedra da Library, Paciência ou Coragem (?), rugiu na minha direção : '' Pode ser mais do que um sinal de elevação da alma quando um grande filósofo se cala '', disse o primeiro leão, que o prefeito LaGuardia havia batizado de Paciência. Então, o outro abriu a boca e rugiu também o seu rugido: ''Mas pode ser amor quando ele se contradiz ''. Aquele era certamente a Coragem. O barulho do trânsito turvava meus ouvidos naquele momento, enquanto minha mente recuava aos tempos em que eu abandonara o vício da heroína em favor da convivência com as hordas de universitários brancos de pescoço vermelho do Wiscosin, onde eu conhecera Karina, passando a viver inteiramente concentrado, desde então, em questionários, filas de matrículas adicionais em cursos extra e nas salas de aula da universidade do outro lado da rua principal do campus, tão cheia de trânsito como me parecia NY naquele instante: uma dança de facas afiadas através da qual eu caminhava até as abóbadas de mármore esculpido sobre a escadaria do Astor Hall ; exatamente como eu costumava caminhar até aquela livraria com toldo em cima em Franchise, anos atrás, onde, de acordo com as solicitações do curso, passei a adquirir às toneladas livros de Tom Paine, os artigos do Federalist, as obras de Arthur Schlesinger, uma coletânea tipograficamente frenética da admirável prosa americana, um texto de economia letalmente pesado numa capa falsamente sorridente de azul- esmaltado, e vários cadernos vazios que eu mesmo haveria de encher de erudita sabedoria, cadernos de capas salpicadas como madeira podre, e cujas páginas sugeriam campos de intermináveis e estreitas valas de irrigação. Em meio àquela nuvem de recordações, a Public Library me mergulhou no ambiente mais apropriado para o estudo calmo dos meus slides ; bem iluminado e arejado, onde milhões de livros ficavam enfileirados em locais de fácil acesso, a visão de Karina pareceu-me mais valiosa que os U$ 9 milhões confiados ao projeto da Library de Carrére e Hasting em 1911. -----Vamos entrar (.)-----, ela disse. O imenso Salão Principal de Leitura ocupava ao todo dois quarteirões e recebia luz solar dos dois pátios internos . Embaixo dele: 140 km de prateleiras contendo mais de sete milhões de volumes. ------ Assustador, né (??) (ela disse) Ainda assim, os bibliotecários levam menos de cinco minutos para localizar um livro aqui (.) -----, concluiu ela. Na sala especial de jornais, com 10 mil publicações atuais, de 128 países diferentes, eu compreendi perfeitamente o que Heidegger queria dizer com o Aberto do Mundo, manifestando e resplandecendo a mais pura aparência de sabedoria. Quis apropriar-me fisicamente daquela ''abertura'', por assim dizer, apreender toda aquela aparência de sabedoria e torná-la fisicamente manifesta em mim. E naquele momento, Karina era para mim a linguagem viva daquela apropriação , pois trabalhara dois anos seguidos ali, como bibliotecária, e transformara a natureza do lugar numa espécie de rosto só seu. Prova disso, é que ela não se intimidava intelectualmente comigo, apesar de achar cativantes a maioria dos meus escritos. Parecia, por sinal, ainda ver em mim o quarto-zagueiro amador dos Packers de Franchise, indiferente aos meus progressos literários. Ela costumava viajar para o sul comigo naquela época, onde íamos cultuar no templo de Milwaukee ou, viajando mais uma hora até Chicago, no Santo dos Santos. Em nossas viagens juntos, os campos verdes de Wiscosin passavam céleres em nossos olhos como ondas de um mar manso. E aquela também era uma ''abertura'' na qual meu espírito permanecia oculto: os estábulos brancos e os silos prateados que pressagiavam uma América na qual eu, no Olds bebedor de gasolina e sem silencioso, viria a me tornar a grande impureza intelectual, o espectro negro e diabólico da macumba que atravessaria as artérias da América como uma doença incurável, percorrendo todos os setores da sociedade, da mídia aos mercados financeiros, passando pelo governo e os partidos políticos, e indo parar dentro do FBI, do Departamento de Estado e do Pentágono. Embora a mente de Karina fosse límpida e casual como uma suave agitação marítima, ela tinha realmente memorizado para sempre nossas passagens por aquelas velhas casas de fazendeiros. As notas tilintantes das minhas primeiras reflexões políticas já lhe causavam ansiedade, naquele tempo, e jamais deixaram de contatar a fímbria de cada uma das ondas de seu pensamento. Seu rosto, no entanto, era a única coisa que restava-me daquelas lembranças, a última parada de uma interminável viagem de carro. Seu rosto me obcecava como uma coroa real. A frágil grandiosidade de suas formas delicadas se repetindo no horizonte ondulado da minha memória, com suas perspectivas cambiantes. ------ Meu primeiro slide é justamente uma fotografia do seu rosto (eu disse) A idéia central da minha apresentação, é a de que deve-se persuadir primeiro o ''rosto'' ; aquilo que, em cada indivíduo singular, abre para todo o espaço político. A revelação do rosto como linguagem. Abertura. Comunicação. Caminhar sob a luz de um rosto significa instalar-se em tal abertura. Até mesmo a natureza só adquire um ''rosto'' no momento em que é revelada pela linguagem. Como nas viagens em que víamos aquelas casas de fazenda com empenas finas rodeadas de árvores majestosas ; a pobreza de Wiscosin entelhando uma casa aqui e outra ali com remendos de ripas desiguais de cinco ou seis cores diferentes. Lembra (??) ,você ficava fascinada pelas torres de transmissão na estrada: aqueles esqueletos de aço cuja forma sugeria gigantes que seguravam delicadamente fios de pura força em braços minúsculos e baixos, os isoladores (.) -----, eu disse. Tais momentos de deja vù, entre eu e Karina, eram eletrizantes,com algo bem mais precioso do que a ressonância mental daquelas torres diminuindo ao longo de linhas perfeitamente retas. ------ O rosto não coincide com a face ( continuei) Onde quer que um ser chegue à exposição e tente agarrar o próprio ser exposto, tem-se um rosto. E é possível que hoje , toda a terra, transformada pela apropriação técnica dos homens num detestável deserto de cegueira e doença, tenha-se tornado também um rosto. Um rosto abominável (.) -----, eu disse. Ao olhá-la nos seus olhos, estes rapidamente se abaixaram, revelando um pequeno pudor por trás deles, mas logo voltaram a me encarar altivamente, exibindo novamente seu vazio como se existisse por trás deles, agora, um terceiro olho abissal que conhecia aquele vazio e o usava como um esconderijo impenetrável. Enfim, um quase ''despudor'', uma lascívia, algum sentimento sem reservas que permitia que no vazio de nossos olhares acontecesse amor e palavras. ------- A exposição é o lugar da política (observou ela) Entendo perfeitamente seu slide número 1. Quanta honra (!) Por exemplo: quando os atores de um filme pornô olham para a câmera, significa que eles ''demonstram que estão simulando'', certo (?) , mas na medida em que exibem a falsificação, mostram-se ainda mais verdadeiros. É o mesmo procedimento que a publicidade utiliza hoje para fazer com que as imagens pareçam mais convincentes: mostram abertamente a própria ficção. Quem as olha se confronta, ainda que a contra-gosto, com a essência e a verdade de um ''rosto'' (.) -----, concluí. De fato: a beleza dela não era um mero acaso. Graça e amabilidade obtida por meio de uma herança tornada consciente pelo espelho das gerações. Para obtê-la, Karina havia necessitado preferir a beleza ao proveito popular dos dotes físicos, aos hábitos liberais, à indolência e à frivolidade dos formadores de opinião da sociedade. Norma suprema da beleza real: não se ''deixar levar'' nem mesmo diante de si própria. Uma mera disciplina democrática de sentimentos e pensamentos, teria tornado sua beleza natural, ainda que inquestionável por si só, quase invisível. Mas a rigorosa sustentação de gestos importantes e seletos, a obrigatoriedade de viver apenas com pessoas que não ''se deixam levar'', foram suficientes para torná-la uma dama importante e seleta: sua beleza já estava completamente ''interiorizada'', naquela altura da vida. O resto eram as consequências estéticas de uma operação espiritual bem sucedida. ------ Aquilo que o homem é verdadeiramente (eu disse) não é nada mais do que essa dissimulação e essa inquietude de sua aparência. Sua condição é sempre a mais insubstancial: A VERDADE. O que resta oculto não é, para ele, algo por trás da aparência, mas o próprio ''aparecer'', o seu não ser nada mais do que um rosto. E levar a aparência à própria aparência é justamente a tarefa da política. A verdade, o rosto e a exposição são hoje objeto de uma ''guerra civil planetária'', e esse é o objeto do meu segundo slide: uma fotografia do meu próprio ''rosto''. Há muito que políticos, mediocratas e publicitários compreenderam o caráter insubstancial do ''rosto'' e do tipo de sociedade que ele pode ''abrir'' no Aberto do Mundo e o transformaram num segredo publicitário miserável, retórico e mentiroso até a biliosidade, com o qual se trata de assegurar, a qualquer custo, o controle da sociedade. O poder dos Estados não está mais fundado no monopólio da violência, que hoje ele tem que dividir com a ONU, a Rússia, as organizações terroristas e com o próprio Deus ; o poder dos Estados encontra-se agora no controle da aparência, da doxa grega. A constituição da política em uma esfera autônoma vai junto com a separação do rosto num mundo espetacular, na sociedade do espetáculo. A exposição enquanto valor que se acumula através das imagens e da mídia liberal, e sobre cuja gestão vela de modo ciumento toda uma nova classe de ''burocratas da falsificação'' . A política então surge (nessas circunstâncias) como vazio comunicativo no qual o rosto humano emerge como tal (.) -----, eu disse. Quando terminei de falar, Karina olhava-me com alguma ansiedade ------ Olhe só essas paredes, K (ela disse) Respire fundo. Vamos andar um pouco por aqui. A atual Library possui muitas outras raridades (.) -----, me pegando pela mão como uma criança. A julgar pela sua calma, pela sua vontade soberana de colocar a calma acima da ansiedade, julguei que ela estava me levando para ver a cópia da Declaração de Independência dos Estados Unidos que havia ali, assinada por Thomas Jefferson e, talvez, se Deus assim o permitisse, os originais datilografados de The Waste Land, de T.S. Eliot. A tarde da América, naquela hora, abobadava-me em volta da minha própria cabeça fumegante, recebendo a luz solar dos pátios internos da Library como uma cegante cefalalgia sobre a interminável refeição de quilômetros do meu pensamento.
K.M.
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