terça-feira, 29 de novembro de 2016

?! (18)


---- Ao fim  de uma ou duas horas, você já deve ter percebido, elas se tornam novamente agradáveis ou ''vistosas'', pelo menos para mim, como se fossem as primeiras cenas de um mundo inteiramente novo, muito superior ao reino intermediário em que minhas palavras eram somente uma ''ponte'' (.) ------, eu disse. Karina havia feito a coisa mais enérgica que conseguiu imaginar, o truque mais contundente de mulher que ela conhecia: vestiu-se para o nosso encontro , naquela tarde, como mandava o figurino,com seu casaco de lince e um vestido grená de um milhão de dólares, saído de um sonho, com remates em renda preta e calçando sandálias prateadas, e seguiu implacável para o Whitney Museum of American  Art, demonstrando, na medida certa, uma imponência quase arrogante assim que me viu parado diante do Green Coca-Cola Bottles, de Andy Wharol. ----- Uma reflexão sobre a produção  em massa e o monopólio (??) -----, perguntou-me ela, irônica. ------Diria que apenas mais produção em massa, nada mais (eu disse) Um ''espaço vazio'' mantido em separado numa esfera que garante sua inapropriabilidade e impede qualquer mensagem inteligente de vir à luz. Pop Art é só isso. Capitalismo reproduzido sem nenhum esforço intelectual. Alienação da própria linguagem em troca de dinheiro. Morte da natureza comunicativa e reflexiva da América (.) Aprender a refletir, aprender a pensar  ,não se tem mais noção do que seja isso; mesmo entre os maiores  eruditos da atualidade, o ''dom do pensamento criativo'', há muito se degenerou em teoria, em prática, ensaísmo e sociologia líquida, em ''ofício'' e ''dever de casa''. Ninguém mais parece capaz de alçar-se àquele arrepio sutil que os ''pés leves'' nas coisas do espírito fazem transbordar em todos os músculos do corpo. Talvez a fundadora do Whitney Museum o soubesse, olhe só para ela (!)  -----, eu disse, indicando-lhe o óleo de Robert Henry de 1916, que mostrava Gertrude Vanderbilt Whitney esparramada num sofá de casa. ------ Acanhada apetitice de gestos espirituais e obras de arte valiosas (Karina disse) não mais do que isso. A mão tosca do vulgo ao tocar em coisas maiores, isso é holandês em tal grau que na Europa é até confundido com a própria latitude dos Países Baixos. Naturalmente, Nova York é holandesa até o osso.  Nem os holandeses nem os novaiorquinos tem dedos treinados para as ''nuances'' (.) ------, ela disse. Achava impressionante como Karina era capaz dessas dissecações instantâneas de que eu me julgava o único capaz ; mas era preciso admitir que ela também não tinha nenhuma queda pelas meias medidas. Em qualquer uma das extremidades de seu arco-íris emocional, o seu excesso de percepções mostrava-se incrivelmente persuasivo. ------ Nossa principal qualidade (eu diria) é nossa incapacidade de ouvir os outros ; sofremos profundamente da impressão irrefutável de que a maior parte do que dizem fica infinitamente aquém daquilo que de fato lhes teríamos concedido se eles tivessem sabido ficar calados. Os outros causam-nos um doloroso desapontamento, porque frequentemente nos desviam do mais importante objeto de toda  nossa atenção: nós próprios (.) -------, eu disse. A dança do meu pensamento, naquele instante, não podia ser descontado ; meu poder de dançar com os pés dos pensamentos, os conceitos e as palavras. Justamente. Para isso, era preciso, antes de tudo, ''saber escrever bem''. A pura comunicabilidade tem um preço, e ele é bem alto. Enquanto não se é capaz dela, qualquer rosto humano, por mais belo e nobre, fica sempre suspenso sobre um abismo. Deixam emergir, geralmente pelos olhos, o fundo informe que os ameaça.  Mas esse fundo informe é, muitas vezes, a própria comunicabilidade enquanto permanece mortificada em estado de ''coisa''. De fato: ''indene'' (pensava comigo) é somente aquele rosto que assume em si o abismo da própria comunicabilidade, e consegue expô-lo sem temor, complacência ou artifícios de espécie alguma. -------Children Meeting, de Elizabeth  Murray, revela o uso de cores e formas como ''rosto''. Mas as ''críticas'' de Roy Lichtenstein à expressionistas e abstratos é uma vulgaridade massificada. Nada disso nunca chegou nem aos pés de Edward Hopper. Esse sim tinha um caráter como rosto. O caráter artístico como careta de um rosto que, no ponto em que se dá conta de não ter nada a exprimir, recua silenciosamente para trás de si mesmo em sua identidade muda. O vazio urbano da vida na América. O caráter como reticência constitutiva do homem dentro da linguagem. Só uma face (?) Não: antes, uma verdade tornada própria: sua apreensão e sua exposição. Mas a política do mundo moderno  é, ao contrário, vontade de auto-apropriação total, na qual a democracia industrial impõe em toda parte seu domínio, através da mídia. 

K.M.

Nenhum comentário:

Postar um comentário