Quando as palavras chegam e batem seus pequenos martelos no verdadeiro amor até arrancarem dele a imagem perfeita, tal imagem geralmente nos aparece como que saída de vivências demasiado ofuscantes, num relevo duro de sombras profundas. E certamente havia muita coisa ali , mas protegida e na sombra. Era-me penoso furtar-me ao presente excessivo da tarde, tendo diante de mim a manhã ao anoitecer e o dia durante a noite. Tudo isso num quarto de hotel que, sem ter qualquer inclinação, era o mais bem acabado exemplo da mansarda do poeta germânico exilado nos trópicos que se pode imaginar. Eu vivia sentado ali à medida em que as horas me transformavam, com seu suor de segundos, num grande bibliófilo e bibliômano, num explosivo no qual se ia acumulando uma quantidade cada vez mais formidável de energia. Assim também ''ela'' tinha, na sua personalidade, mais que na sua beleza, o imperativo soberano de uma estrela. Conquistara-me facilmente pelo tipo raro de mulher que conseguia impôr na tela. Greta Garbo (eu pensava) encarnava a mulher inacessível e altiva; Catherine Deneuve, a sensualidade glacial. E eu era certamente a combinação perfeita entre Clark Gable e Clint Eastwood: o tipo exemplar de homem viril, cúmplice e impudente daquele, com o homem cínico, eficaz, duro deste. Mas ''ela'' era mais, muito mais que uma mera identificação clássica. Sua estrela jorrava a luz de uma personalidade construída a partir de dotes físicos e ''papéis'' psicológicos tão estratégicos, que o arquétipo primordial de sua personalidade , muitas vezes, aparecia por cima desta, uma super-personalidade que se tornara a grife ou imagem de marca da divindade cinematográfica por excelência. Aquela não era a primeira vez que ela vinha me visitar naquele hotel à beira-mar; na primeira vez , quando ainda não nos conhecíamos pessoalmente, eu entrara no táxi com ela e, no banco de trás, colocara minha mão sobre a dela sem pronunciar palavra. Depois levara a outra mão por baixo da estola de seu vestido, e em pouco tempo estava acariciando a parte interna das suas coxas enquanto ela admirava as praias pela janela. Uma experiência, para mim, apenas comparável à daquela tarde em que a voz de Hofmansthal desceu de repente sobre meus escritos e a brisa de diamantes do Lógos, vinda dos confins do universo, passou através de mim como um cometa. ----- Foi assim que uma voz verdadeiramente hermética passara a escoltar cada uma de minhas palavras (expliquei à ela ) Subindo o rio de Lenau para conduzir minha mente àquelas alturas intransitáveis onde, à sombra de Holderlin, Jean Paul, Bachofen, Nietzsche e Artaud,renovei totalmente a comunicação humana (.) ------, eu disse. Que agora meu destino sobre a terra fosse o de um deus que à muito se emancipara de qualquer mitologia, isso eu já o demonstrara nos meus últimos trabalhos. ------ De qualquer forma (continuei) ''Hermes'' é, no sentido mais rigoroso e mítico, não só o deus da comunicação, o grande mensageiro, mas,mais precisamente, aquele que como nenhum outro se equiparou aos maiores arquétipos do universo, à eles se ligando de uma forma nova, insuspeitada e radiosa, mais efêmera e mais pairante. Que mais não fosse pela inquietação que me faz estar sempre em movimento, e pelas muitas intuições e impulsos que, do mundo antigo dos Germanos ao dos judeus, me prepararam para acolher em mim mesmo toda a tradição primordial de sabedoria e toda a experiência acumulada dos séculos. Acumulada, poupada e guardada com vistas ao caso de, tendo a tensão nas massas humanas se tornado grande o bastante, o mais acidental dos estímulos chamasse ao mundo o o Gênio, o Lógos, a ação, o grande destino (.) ------, eu disse. Ora, que me importavam, então, o ambiente, a época, o ''espírito da época'', a ''opinião pública'' (?) Nessas ocasiões, eu só conseguia pensar em Napoleão Bonaparte. A França revolucionária (eu pensava), e mais ainda a pré-revolucionária, teria certamente produzido o tipo oposto à Napoleão, e também produziu em larga escala tais tipos. Mas porque Napoleão era diferente, herdeiro de uma civilização mais forte, mais prolongada, mais antiga e mais gloriosa que aquela que caía aos pedaços na França, ele se tornou seu senhor, e seu ''único '' senhor. ------ Para se chegar alguma vez à isso (eu disse à ela) é sempre necessário uma abundância muito grande de grandiosas abreviaturas. E a maior parte das que eu tornei conhecidas, nos últimos tempos, apenas puderam alcançar um grau tão elevado de predomínio e universalidade graças às fórmulas espantosas do meu espírito irônico, caracterizando o mundo dos meus pensamentos tão bem quanto o da minha escrita, da qual um velho grafólogo porteño da internet, disse outro dia que ela precisava ''de uma chave para poder ser lida na sua inteireza''. Ele disse ainda : ''Ela se assemelha à quem a escreve por ser um incomparável esconderijo de imagens ''. E ele tinha razão, pois nela vivem, habitam, alojam-se, imagens, sabedorias , palavras e poderes que não se pode dizer se teriam se afirmado com tanta força nos nossos dias sem a força correspondente da minha pessoa (.) ------, eu disse. Quando descemos na portaria do hotel, eu já havia me transformado na versão ninja shaolin de D. João, o felizardo do amor. Meu segredo era o modo como eu, em todas as minhas aventuras, convocava fulminantemente e em convergência absoluta a decisão e a arte de bem fazer a corte ; a forma como eu representava instantaneamente a esperança no êxtase e antecipava a decisão ao fazer a corte. Aquele ''de-uma-vez-por-todas'' do prazer e a imbricação do tempo dela com o meu só podia ganhar mesmo uma expressão musical muito grandiosa dentro daquele quarto, quando batemos a porta atrás de nós. Nenhum hotel de gala do terceiro mundo tinha um preço tão exorbitante que não pudesse oferecer por uma mixaria o bilhete de entrada na natureza criada por Deus, sabiamente enfeitada pelas mãos dos homens de negócio. Ao penetrarmos na sombra fresca daqueles vítreos e amplos salões, olhando pelas janelas grandes e baixas, a implacável verdade da vila marítima nos ensinava à deitar um olhar mais ameno ao mar.
K.M.
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