Ao longo do vôo explicara à Anne que eu não era apenas um amante das artes; mas que além disto, eu era um viajante que buscava ''na distância'' de certos estados inusuais de consciência, a ''sorte'' que pudesse me servir de casa'' ; e que só muito tarde, na vida, é que eu tinha começado a colecionar estrelas. ----- Passaram por cima de mim como cristas mais alvas que as da Trácia, e foram em seguida doutrinadas , à sua revelia, por essas mesmas garras que você me ouve estalar de minuto a minuto. Garras mais rudes que as das feras do séquito de Artemisa. Agora, se quiserem fugir de mim, terão que enfrentar ondas mais eternas que o fogo do do inferno (.) Mas você, em especial, não tem de temer nada disso. Peço-vos apenas que me acompanhe, daqui há dois dias, à pirâmide dourada no alto do New York Life Insurance Company, onde pretendo espalhar a desordem dos meus caixotes de livros, no ar cheio de pó de madeira do velho quarto de dispensa onde guardo meu saco de boxe alienígena (.) ------, eu disse. Antes de desembarcarmos, eu me adiantei e me ajoelhei diante de Anne. ''Tudo bem '' (pensei) ''Se é o que ela deseja de fato, está prestes a conseguir, e com tudo o quem direito ''. -----Vamos, agora levante. Vamos tomar um café antes de nos despedirmos (.) -----,eu disse. O rosto dela estava sonolento e inexpressivo, até onde me lembro ; espantada por dentro (é verdade), mas com toda certeza sem nada de debochada. só o fato de ela ter ido até o coffe chop comigo bastara para representar um novo e delicioso desafio no grande psico-drama que era minha história sem começo nem fim. Portanto, concentrei-me , fiz pontaria e disparei: ------ No Life Insurance há um chão coberto pelos meus papéis rasgados, como se um bicho desvairado tivesse passado por ali. Um Demôno da Tazmânia. Sob as pilhas de livros que verão novamente a luz do sol , depois de dois anos na mais completa escuridão, eu lhe revelarei o segredo último da beleza e da feiúra, para que você partilhe comigo um pouco do estado de espírito em que vivo ; nada de elegíaco (garanto-lhe), antes algo tenso, próprio de um autêntico colecionador de estrelas. De fato, é alguém desta estirpe que vos fala, no momento, ; e, no fundo, vos fala apenas de si mesmo (.) -----, eu disse. No dia seguinte, não voltamos a nos falar. Eu fôra direto para aquele imponente edifício projetado em 1928, adornado com lustres enormes e painéis de bronze, além da imensa escadaria que leva à estação de metrô. O antigo ''palácio dos prazeres'' (Madison Square Garden) de Stanford White ocupara o espaço do Insurance no passado, quando a elite de NY frequentava os musicais e eventos da alta sociedade. O palácio dos prazeres tinha arcadas e uma torre imitando a Giralda, de Sevilha, sobre a qual ficava a famosa estátua de ouro de Diana nua. Certamente uma nudez chocante para a época, tal como a morte de White, seu conceptor. White fôra morto a tiros ali mesmo pelo marido de sua amante, Evelyn Nesby, e ganhou o seguinte destaque na Vanity Fair: ''White, mulherengo e pervertido, teve uma morte de cachorro ''. Sem um pingo de hesitação, eu arrastava minha figura majestosa até a ''pirâmide dourada'', pensando que os escândalos revelados durante o julgamento de seu assassino superavam os enredos de qualquer filme de Hollywood... Mas minha passagem pelo interior do edifício, ao contrário, conferia à noção de decoro dos funcionários e transeuntes uma relevância de discrição colossal. E se por acaso eu parecia eufórico à alguns deles, era porque vinha imaginando Anne como uma atriz inibida e envolta em todos os disfarces de sua carreira, e que no dia seguinte eu a tornaria completamente desinibida,de uma hora para outra, estudando-a e amando-a enquanto palco, teatro de nosso próprio destino. ''Os escritores'' (pensava então) ''São de fato pessoas que escrevem livros não por serem pobres, mas por insatisfação com os livros que poderiam comprar, mas que não lhes agradam de forma alguma ''. Na segunda-feira de manhã, ela finalmente me telefonou e marcamos nosso encontro. ------ Prometo que não haverá publicidade, frustração, crises (disse-lhe eu) Sou um amnésico seletivo cujo ponto forte é justamente tornar sem consequências desagradáveis qualquer fator inconveniente (.) -----,concluí. De resto: nada, no meu caminho. A decisão de encontrá-la era apenas um dique momentâneo contra a maré de recordações que avançava sem parar. Toda paixão está sempre bem próxima do caos, mas a do colecionador de estrelas confina mais com o mar de suas recordações. O mais profundo encantamento do colecionar de estrelas é o de fechá-las, uma a uma, num círculo mágico em que elas ---- enquanto são atravessadas por um último calafrio ----- ficam eternamente petrificadas. Então, tudo o que é recordação, pensamento ou consciência de um colecionador de estrelas, se torna, subitamente, pódio, moldura, pedestal, altar, fecho de sua propriedade espiritual. A época, a cidade, a região da cidade, o filme, a locação do filme, as fisionomias, os proprietários anteriores delas, tudo isso se transforma, para o verdadeiro colecionador de estrelas, e em cada uma de suas peças, numa enciclopédia miraculosa cuja quintessência é o destino de seu objeto. Imprimátur (!!) Eu era antes de tudo um grande fisionomista, um fisionomista apaixonado, e quando o rosto de Anne surgiu à minha frente, tornei-me por acréscimo imediato o intérprete privilegiado de seu destino. Basta alguém observar como eu a manipulava dentro daquele quarto escuro e empoeirado: como um objeto na minha vitrine. Mas quando segurei-a pelo braço, senti-me inspirado a olhar através de seu coração, dos seus olhos, dela toda... para a distância de onde ela vinha. ------ Habent sua fata libelli (eu disse) Quem quiser intervir num leilão, terá necessariamente que dividir sua atenção em suas partes iguais: na peça cobiçada e nos concorrentes; e ainda manter a cabeça fria, para (como acontece tantas vezes) não se deixar levar pela luta com a concorrência, e acabar na situação de ter de pagar um preço de arrematação demasiado alto, porque fez sua oferta mais para afirmar sua posição do que por um genuíno interesse (.) -----, concluí. Enquanto falava, tinha nas mãos uma obra digna de nota, adquirida justamente num leilão de livros raros, em Heidelberg, há cinco anos. ------ Aqui está (continuei) os tão legendários ''Fragmente aus dem Nachlasse eines jungen Physikers, que Johann Wilhelm Ritter publicou em Heidelber em 1810, nessa edição em dois tomos. A obra nunca foi reimpressa, mas o preâmbulo, em que o autor-editor evoca o amigo anônimo supostamente falecido (que não é senão ele próprio), fazendo o relato de sua própria vida, é para mim um das mais significativas peças de prosa do Romantismo alemão (.) -----, eu disse, dando início ao meu monólogo. Enquanto falava, deixei que ela folheasse a incrível raridade, e passei ao meu ''número'' seguinte, aproveitando-me de sua distração. Com o coração ligeiramente acelerado, parecia-me evidente que nada tornava mais exótico o fascínio de revirar caixas de livros raros do que a dificuldade de dar por terminada a tarefa. Eu procurava, naquele momento, uma obra que me ajudasse a cumprir a promessa que fizera à ela, de revelar-lhe o segredo da Beleza. Acendi um cigarro e, na ponto final de uma fileira de livros infantis, caiu-me nas mãos dois volumes cartonados, já bem desbotados pelo tempo, que, em rigor, não deveriam estar ali. Quetalvez nem sequer existissem. ----- Não há biblioteca viva (eu disse) que não albergue um certo número de criaturas livrescas provenientes da ''zona-limite'' da infância. Isso aqui parece-me mais uma pandecta ; fac-símile de um manuscrito ou datiloscrito de uma história infantil já inacessível à inteligência de nosso tempo, mas que em dias remotos deve ter constituído a margem prismática de alguma famosa coleção alemã ou dinamarquesa (.) Muito bem... A PROMESSA (!) sei que ao dizer o que vou te dizer agora, estarei sendo bastante arrojado, mas também muito coerente com meu papel. Prometi revelar-lhe o segredo da Beleza, certo (??) Exageros, distorções, invenções descaradas ----- tudo isso certamente faz parte de meus talentos. Ninguém, nenhuma estrela, até hoje foi capaz de sufocar completamente meu cinismo. Tenho plena consciência de que a revelação que farei do meu mundo mental, implícita no ato de colecionar estrelas, reforçará sua convicção acerca do caráter intempestivo da minha exótica paixão e sua desconfiança em relação ao meu ''tipo humano''. Sem problemas, mas digamos que nada seja mais condicionado, mais limitado em nós, seres humanos, do que nosso sentimento do Belo. Qualquer um que tente pensar tal sentimento separado do prazer que os seres humanos sentem consigo próprios, perderia de imediato o solo sob seus pés. O ''Belo em si'' é somente uma expressão vazia, não chega a ser nem mesmo um conceito. Na Beleza, o ser humano define a si mesmo como medida da perfeição; em casos escolhidos, adora neles apenas a si próprio. Uma espécie não pode ''dizer sim'' a si mesma senão dessa forma. Seu instinto mais ''básico'' , o de auto-conservação e auto-propagação, se irradia mesmo em tais sublimidades. No fundo, o homem se espelha nas coisas, ele julga belo tudo aquilo que lhe devolve sua própria imagem: o juízo ''belo'' é a vaidade da espécie. Mas nada, absolutamente nada, nos garante que o homem seja o modelo do Belo. Quem pode dizer como ele se apresentaria a um juízo superior do gosto (??) Talvez atrevido ? Divertido (?) Ou mesmo extremamente arbitrário. ''OH, DIONÍSO, SER DIVINO, PORQUE PUXAS TÃO FORTE MINHAS ORELHAS (?!) '' , perguntou Ariadne certa vez, num daqueles célebres diálogos de Naxos ao seu divino filósofo amante. ''Apenas o homem é belo''. Sobre essa ingenuidade repousa toda a estética ocidental. E sobre esta segunda : ''Nada é feio, a não ser o homem degenerado'' , demarca as fronteiras do reino do juízo estético. O efeito daquilo que é feio pode ser medido com um dinamômetro: lembra-lhes sempre ''declínio'' e ''perigo''; mas tanto num quanto noutro caso, tiram a mesma conclusão: e as premissas de tal conclusão estão acumuladas no instinto em abundância gigantesca. O feio é entendido como um sintoma da morte. Todo indício de morte, no Ocidente, produz o ''feio'' como juízo de valor estético. E o que irrompe de uma tal reação psicológica é apenas o mais puro ódio. Aquilo que o homem odeia. Não resta dúvida que aí se esconde a monomania da contra-iniciação e do medo ao desconhecido. Aquilo que ameaça o tipo ocidental como juízo de valor, ameaça-o com a transmutação de todos os valores. E o ódio desses tipos vem sempre carregado de calafrios, cautelas, profundidades e perspicácias. É o mais profundo tipo de ódio que há: o ódio ao desconhecido.
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
?! (13)
Ao longo do vôo explicara à Anne que eu não era apenas um amante das artes; mas que além disto, eu era um viajante que buscava ''na distância'' de certos estados inusuais de consciência, a ''sorte'' que pudesse me servir de casa'' ; e que só muito tarde, na vida, é que eu tinha começado a colecionar estrelas. ----- Passaram por cima de mim como cristas mais alvas que as da Trácia, e foram em seguida doutrinadas , à sua revelia, por essas mesmas garras que você me ouve estalar de minuto a minuto. Garras mais rudes que as das feras do séquito de Artemisa. Agora, se quiserem fugir de mim, terão que enfrentar ondas mais eternas que o fogo do do inferno (.) Mas você, em especial, não tem de temer nada disso. Peço-vos apenas que me acompanhe, daqui há dois dias, à pirâmide dourada no alto do New York Life Insurance Company, onde pretendo espalhar a desordem dos meus caixotes de livros, no ar cheio de pó de madeira do velho quarto de dispensa onde guardo meu saco de boxe alienígena (.) ------, eu disse. Antes de desembarcarmos, eu me adiantei e me ajoelhei diante de Anne. ''Tudo bem '' (pensei) ''Se é o que ela deseja de fato, está prestes a conseguir, e com tudo o quem direito ''. -----Vamos, agora levante. Vamos tomar um café antes de nos despedirmos (.) -----,eu disse. O rosto dela estava sonolento e inexpressivo, até onde me lembro ; espantada por dentro (é verdade), mas com toda certeza sem nada de debochada. só o fato de ela ter ido até o coffe chop comigo bastara para representar um novo e delicioso desafio no grande psico-drama que era minha história sem começo nem fim. Portanto, concentrei-me , fiz pontaria e disparei: ------ No Life Insurance há um chão coberto pelos meus papéis rasgados, como se um bicho desvairado tivesse passado por ali. Um Demôno da Tazmânia. Sob as pilhas de livros que verão novamente a luz do sol , depois de dois anos na mais completa escuridão, eu lhe revelarei o segredo último da beleza e da feiúra, para que você partilhe comigo um pouco do estado de espírito em que vivo ; nada de elegíaco (garanto-lhe), antes algo tenso, próprio de um autêntico colecionador de estrelas. De fato, é alguém desta estirpe que vos fala, no momento, ; e, no fundo, vos fala apenas de si mesmo (.) -----, eu disse. No dia seguinte, não voltamos a nos falar. Eu fôra direto para aquele imponente edifício projetado em 1928, adornado com lustres enormes e painéis de bronze, além da imensa escadaria que leva à estação de metrô. O antigo ''palácio dos prazeres'' (Madison Square Garden) de Stanford White ocupara o espaço do Insurance no passado, quando a elite de NY frequentava os musicais e eventos da alta sociedade. O palácio dos prazeres tinha arcadas e uma torre imitando a Giralda, de Sevilha, sobre a qual ficava a famosa estátua de ouro de Diana nua. Certamente uma nudez chocante para a época, tal como a morte de White, seu conceptor. White fôra morto a tiros ali mesmo pelo marido de sua amante, Evelyn Nesby, e ganhou o seguinte destaque na Vanity Fair: ''White, mulherengo e pervertido, teve uma morte de cachorro ''. Sem um pingo de hesitação, eu arrastava minha figura majestosa até a ''pirâmide dourada'', pensando que os escândalos revelados durante o julgamento de seu assassino superavam os enredos de qualquer filme de Hollywood... Mas minha passagem pelo interior do edifício, ao contrário, conferia à noção de decoro dos funcionários e transeuntes uma relevância de discrição colossal. E se por acaso eu parecia eufórico à alguns deles, era porque vinha imaginando Anne como uma atriz inibida e envolta em todos os disfarces de sua carreira, e que no dia seguinte eu a tornaria completamente desinibida,de uma hora para outra, estudando-a e amando-a enquanto palco, teatro de nosso próprio destino. ''Os escritores'' (pensava então) ''São de fato pessoas que escrevem livros não por serem pobres, mas por insatisfação com os livros que poderiam comprar, mas que não lhes agradam de forma alguma ''. Na segunda-feira de manhã, ela finalmente me telefonou e marcamos nosso encontro. ------ Prometo que não haverá publicidade, frustração, crises (disse-lhe eu) Sou um amnésico seletivo cujo ponto forte é justamente tornar sem consequências desagradáveis qualquer fator inconveniente (.) -----,concluí. De resto: nada, no meu caminho. A decisão de encontrá-la era apenas um dique momentâneo contra a maré de recordações que avançava sem parar. Toda paixão está sempre bem próxima do caos, mas a do colecionador de estrelas confina mais com o mar de suas recordações. O mais profundo encantamento do colecionar de estrelas é o de fechá-las, uma a uma, num círculo mágico em que elas ---- enquanto são atravessadas por um último calafrio ----- ficam eternamente petrificadas. Então, tudo o que é recordação, pensamento ou consciência de um colecionador de estrelas, se torna, subitamente, pódio, moldura, pedestal, altar, fecho de sua propriedade espiritual. A época, a cidade, a região da cidade, o filme, a locação do filme, as fisionomias, os proprietários anteriores delas, tudo isso se transforma, para o verdadeiro colecionador de estrelas, e em cada uma de suas peças, numa enciclopédia miraculosa cuja quintessência é o destino de seu objeto. Imprimátur (!!) Eu era antes de tudo um grande fisionomista, um fisionomista apaixonado, e quando o rosto de Anne surgiu à minha frente, tornei-me por acréscimo imediato o intérprete privilegiado de seu destino. Basta alguém observar como eu a manipulava dentro daquele quarto escuro e empoeirado: como um objeto na minha vitrine. Mas quando segurei-a pelo braço, senti-me inspirado a olhar através de seu coração, dos seus olhos, dela toda... para a distância de onde ela vinha. ------ Habent sua fata libelli (eu disse) Quem quiser intervir num leilão, terá necessariamente que dividir sua atenção em suas partes iguais: na peça cobiçada e nos concorrentes; e ainda manter a cabeça fria, para (como acontece tantas vezes) não se deixar levar pela luta com a concorrência, e acabar na situação de ter de pagar um preço de arrematação demasiado alto, porque fez sua oferta mais para afirmar sua posição do que por um genuíno interesse (.) -----, concluí. Enquanto falava, tinha nas mãos uma obra digna de nota, adquirida justamente num leilão de livros raros, em Heidelberg, há cinco anos. ------ Aqui está (continuei) os tão legendários ''Fragmente aus dem Nachlasse eines jungen Physikers, que Johann Wilhelm Ritter publicou em Heidelber em 1810, nessa edição em dois tomos. A obra nunca foi reimpressa, mas o preâmbulo, em que o autor-editor evoca o amigo anônimo supostamente falecido (que não é senão ele próprio), fazendo o relato de sua própria vida, é para mim um das mais significativas peças de prosa do Romantismo alemão (.) -----, eu disse, dando início ao meu monólogo. Enquanto falava, deixei que ela folheasse a incrível raridade, e passei ao meu ''número'' seguinte, aproveitando-me de sua distração. Com o coração ligeiramente acelerado, parecia-me evidente que nada tornava mais exótico o fascínio de revirar caixas de livros raros do que a dificuldade de dar por terminada a tarefa. Eu procurava, naquele momento, uma obra que me ajudasse a cumprir a promessa que fizera à ela, de revelar-lhe o segredo da Beleza. Acendi um cigarro e, na ponto final de uma fileira de livros infantis, caiu-me nas mãos dois volumes cartonados, já bem desbotados pelo tempo, que, em rigor, não deveriam estar ali. Quetalvez nem sequer existissem. ----- Não há biblioteca viva (eu disse) que não albergue um certo número de criaturas livrescas provenientes da ''zona-limite'' da infância. Isso aqui parece-me mais uma pandecta ; fac-símile de um manuscrito ou datiloscrito de uma história infantil já inacessível à inteligência de nosso tempo, mas que em dias remotos deve ter constituído a margem prismática de alguma famosa coleção alemã ou dinamarquesa (.) Muito bem... A PROMESSA (!) sei que ao dizer o que vou te dizer agora, estarei sendo bastante arrojado, mas também muito coerente com meu papel. Prometi revelar-lhe o segredo da Beleza, certo (??) Exageros, distorções, invenções descaradas ----- tudo isso certamente faz parte de meus talentos. Ninguém, nenhuma estrela, até hoje foi capaz de sufocar completamente meu cinismo. Tenho plena consciência de que a revelação que farei do meu mundo mental, implícita no ato de colecionar estrelas, reforçará sua convicção acerca do caráter intempestivo da minha exótica paixão e sua desconfiança em relação ao meu ''tipo humano''. Sem problemas, mas digamos que nada seja mais condicionado, mais limitado em nós, seres humanos, do que nosso sentimento do Belo. Qualquer um que tente pensar tal sentimento separado do prazer que os seres humanos sentem consigo próprios, perderia de imediato o solo sob seus pés. O ''Belo em si'' é somente uma expressão vazia, não chega a ser nem mesmo um conceito. Na Beleza, o ser humano define a si mesmo como medida da perfeição; em casos escolhidos, adora neles apenas a si próprio. Uma espécie não pode ''dizer sim'' a si mesma senão dessa forma. Seu instinto mais ''básico'' , o de auto-conservação e auto-propagação, se irradia mesmo em tais sublimidades. No fundo, o homem se espelha nas coisas, ele julga belo tudo aquilo que lhe devolve sua própria imagem: o juízo ''belo'' é a vaidade da espécie. Mas nada, absolutamente nada, nos garante que o homem seja o modelo do Belo. Quem pode dizer como ele se apresentaria a um juízo superior do gosto (??) Talvez atrevido ? Divertido (?) Ou mesmo extremamente arbitrário. ''OH, DIONÍSO, SER DIVINO, PORQUE PUXAS TÃO FORTE MINHAS ORELHAS (?!) '' , perguntou Ariadne certa vez, num daqueles célebres diálogos de Naxos ao seu divino filósofo amante. ''Apenas o homem é belo''. Sobre essa ingenuidade repousa toda a estética ocidental. E sobre esta segunda : ''Nada é feio, a não ser o homem degenerado'' , demarca as fronteiras do reino do juízo estético. O efeito daquilo que é feio pode ser medido com um dinamômetro: lembra-lhes sempre ''declínio'' e ''perigo''; mas tanto num quanto noutro caso, tiram a mesma conclusão: e as premissas de tal conclusão estão acumuladas no instinto em abundância gigantesca. O feio é entendido como um sintoma da morte. Todo indício de morte, no Ocidente, produz o ''feio'' como juízo de valor estético. E o que irrompe de uma tal reação psicológica é apenas o mais puro ódio. Aquilo que o homem odeia. Não resta dúvida que aí se esconde a monomania da contra-iniciação e do medo ao desconhecido. Aquilo que ameaça o tipo ocidental como juízo de valor, ameaça-o com a transmutação de todos os valores. E o ódio desses tipos vem sempre carregado de calafrios, cautelas, profundidades e perspicácias. É o mais profundo tipo de ódio que há: o ódio ao desconhecido.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário