---- Ao fim de uma ou duas horas, você já deve ter percebido, elas se tornam novamente agradáveis ou ''vistosas'', pelo menos para mim, como se fossem as primeiras cenas de um mundo inteiramente novo, muito superior ao reino intermediário em que minhas palavras eram somente uma ''ponte'' (.) ------, eu disse. Karina havia feito a coisa mais enérgica que conseguiu imaginar, o truque mais contundente de mulher que ela conhecia: vestiu-se para o nosso encontro , naquela tarde, como mandava o figurino,com seu casaco de lince e um vestido grená de um milhão de dólares, saído de um sonho, com remates em renda preta e calçando sandálias prateadas, e seguiu implacável para o Whitney Museum of American Art, demonstrando, na medida certa, uma imponência quase arrogante assim que me viu parado diante do Green Coca-Cola Bottles, de Andy Wharol. ----- Uma reflexão sobre a produção em massa e o monopólio (??) -----, perguntou-me ela, irônica. ------Diria que apenas mais produção em massa, nada mais (eu disse) Um ''espaço vazio'' mantido em separado numa esfera que garante sua inapropriabilidade e impede qualquer mensagem inteligente de vir à luz. Pop Art é só isso. Capitalismo reproduzido sem nenhum esforço intelectual. Alienação da própria linguagem em troca de dinheiro. Morte da natureza comunicativa e reflexiva da América (.) Aprender a refletir, aprender a pensar ,não se tem mais noção do que seja isso; mesmo entre os maiores eruditos da atualidade, o ''dom do pensamento criativo'', há muito se degenerou em teoria, em prática, ensaísmo e sociologia líquida, em ''ofício'' e ''dever de casa''. Ninguém mais parece capaz de alçar-se àquele arrepio sutil que os ''pés leves'' nas coisas do espírito fazem transbordar em todos os músculos do corpo. Talvez a fundadora do Whitney Museum o soubesse, olhe só para ela (!) -----, eu disse, indicando-lhe o óleo de Robert Henry de 1916, que mostrava Gertrude Vanderbilt Whitney esparramada num sofá de casa. ------ Acanhada apetitice de gestos espirituais e obras de arte valiosas (Karina disse) não mais do que isso. A mão tosca do vulgo ao tocar em coisas maiores, isso é holandês em tal grau que na Europa é até confundido com a própria latitude dos Países Baixos. Naturalmente, Nova York é holandesa até o osso. Nem os holandeses nem os novaiorquinos tem dedos treinados para as ''nuances'' (.) ------, ela disse. Achava impressionante como Karina era capaz dessas dissecações instantâneas de que eu me julgava o único capaz ; mas era preciso admitir que ela também não tinha nenhuma queda pelas meias medidas. Em qualquer uma das extremidades de seu arco-íris emocional, o seu excesso de percepções mostrava-se incrivelmente persuasivo. ------ Nossa principal qualidade (eu diria) é nossa incapacidade de ouvir os outros ; sofremos profundamente da impressão irrefutável de que a maior parte do que dizem fica infinitamente aquém daquilo que de fato lhes teríamos concedido se eles tivessem sabido ficar calados. Os outros causam-nos um doloroso desapontamento, porque frequentemente nos desviam do mais importante objeto de toda nossa atenção: nós próprios (.) -------, eu disse. A dança do meu pensamento, naquele instante, não podia ser descontado ; meu poder de dançar com os pés dos pensamentos, os conceitos e as palavras. Justamente. Para isso, era preciso, antes de tudo, ''saber escrever bem''. A pura comunicabilidade tem um preço, e ele é bem alto. Enquanto não se é capaz dela, qualquer rosto humano, por mais belo e nobre, fica sempre suspenso sobre um abismo. Deixam emergir, geralmente pelos olhos, o fundo informe que os ameaça. Mas esse fundo informe é, muitas vezes, a própria comunicabilidade enquanto permanece mortificada em estado de ''coisa''. De fato: ''indene'' (pensava comigo) é somente aquele rosto que assume em si o abismo da própria comunicabilidade, e consegue expô-lo sem temor, complacência ou artifícios de espécie alguma. -------Children Meeting, de Elizabeth Murray, revela o uso de cores e formas como ''rosto''. Mas as ''críticas'' de Roy Lichtenstein à expressionistas e abstratos é uma vulgaridade massificada. Nada disso nunca chegou nem aos pés de Edward Hopper. Esse sim tinha um caráter como rosto. O caráter artístico como careta de um rosto que, no ponto em que se dá conta de não ter nada a exprimir, recua silenciosamente para trás de si mesmo em sua identidade muda. O vazio urbano da vida na América. O caráter como reticência constitutiva do homem dentro da linguagem. Só uma face (?) Não: antes, uma verdade tornada própria: sua apreensão e sua exposição. Mas a política do mundo moderno é, ao contrário, vontade de auto-apropriação total, na qual a democracia industrial impõe em toda parte seu domínio, através da mídia.
terça-feira, 29 de novembro de 2016
?! (18)
---- Ao fim de uma ou duas horas, você já deve ter percebido, elas se tornam novamente agradáveis ou ''vistosas'', pelo menos para mim, como se fossem as primeiras cenas de um mundo inteiramente novo, muito superior ao reino intermediário em que minhas palavras eram somente uma ''ponte'' (.) ------, eu disse. Karina havia feito a coisa mais enérgica que conseguiu imaginar, o truque mais contundente de mulher que ela conhecia: vestiu-se para o nosso encontro , naquela tarde, como mandava o figurino,com seu casaco de lince e um vestido grená de um milhão de dólares, saído de um sonho, com remates em renda preta e calçando sandálias prateadas, e seguiu implacável para o Whitney Museum of American Art, demonstrando, na medida certa, uma imponência quase arrogante assim que me viu parado diante do Green Coca-Cola Bottles, de Andy Wharol. ----- Uma reflexão sobre a produção em massa e o monopólio (??) -----, perguntou-me ela, irônica. ------Diria que apenas mais produção em massa, nada mais (eu disse) Um ''espaço vazio'' mantido em separado numa esfera que garante sua inapropriabilidade e impede qualquer mensagem inteligente de vir à luz. Pop Art é só isso. Capitalismo reproduzido sem nenhum esforço intelectual. Alienação da própria linguagem em troca de dinheiro. Morte da natureza comunicativa e reflexiva da América (.) Aprender a refletir, aprender a pensar ,não se tem mais noção do que seja isso; mesmo entre os maiores eruditos da atualidade, o ''dom do pensamento criativo'', há muito se degenerou em teoria, em prática, ensaísmo e sociologia líquida, em ''ofício'' e ''dever de casa''. Ninguém mais parece capaz de alçar-se àquele arrepio sutil que os ''pés leves'' nas coisas do espírito fazem transbordar em todos os músculos do corpo. Talvez a fundadora do Whitney Museum o soubesse, olhe só para ela (!) -----, eu disse, indicando-lhe o óleo de Robert Henry de 1916, que mostrava Gertrude Vanderbilt Whitney esparramada num sofá de casa. ------ Acanhada apetitice de gestos espirituais e obras de arte valiosas (Karina disse) não mais do que isso. A mão tosca do vulgo ao tocar em coisas maiores, isso é holandês em tal grau que na Europa é até confundido com a própria latitude dos Países Baixos. Naturalmente, Nova York é holandesa até o osso. Nem os holandeses nem os novaiorquinos tem dedos treinados para as ''nuances'' (.) ------, ela disse. Achava impressionante como Karina era capaz dessas dissecações instantâneas de que eu me julgava o único capaz ; mas era preciso admitir que ela também não tinha nenhuma queda pelas meias medidas. Em qualquer uma das extremidades de seu arco-íris emocional, o seu excesso de percepções mostrava-se incrivelmente persuasivo. ------ Nossa principal qualidade (eu diria) é nossa incapacidade de ouvir os outros ; sofremos profundamente da impressão irrefutável de que a maior parte do que dizem fica infinitamente aquém daquilo que de fato lhes teríamos concedido se eles tivessem sabido ficar calados. Os outros causam-nos um doloroso desapontamento, porque frequentemente nos desviam do mais importante objeto de toda nossa atenção: nós próprios (.) -------, eu disse. A dança do meu pensamento, naquele instante, não podia ser descontado ; meu poder de dançar com os pés dos pensamentos, os conceitos e as palavras. Justamente. Para isso, era preciso, antes de tudo, ''saber escrever bem''. A pura comunicabilidade tem um preço, e ele é bem alto. Enquanto não se é capaz dela, qualquer rosto humano, por mais belo e nobre, fica sempre suspenso sobre um abismo. Deixam emergir, geralmente pelos olhos, o fundo informe que os ameaça. Mas esse fundo informe é, muitas vezes, a própria comunicabilidade enquanto permanece mortificada em estado de ''coisa''. De fato: ''indene'' (pensava comigo) é somente aquele rosto que assume em si o abismo da própria comunicabilidade, e consegue expô-lo sem temor, complacência ou artifícios de espécie alguma. -------Children Meeting, de Elizabeth Murray, revela o uso de cores e formas como ''rosto''. Mas as ''críticas'' de Roy Lichtenstein à expressionistas e abstratos é uma vulgaridade massificada. Nada disso nunca chegou nem aos pés de Edward Hopper. Esse sim tinha um caráter como rosto. O caráter artístico como careta de um rosto que, no ponto em que se dá conta de não ter nada a exprimir, recua silenciosamente para trás de si mesmo em sua identidade muda. O vazio urbano da vida na América. O caráter como reticência constitutiva do homem dentro da linguagem. Só uma face (?) Não: antes, uma verdade tornada própria: sua apreensão e sua exposição. Mas a política do mundo moderno é, ao contrário, vontade de auto-apropriação total, na qual a democracia industrial impõe em toda parte seu domínio, através da mídia.
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
?! (17)
O Presidente, e nesse ponto eu concordava com todos os relatos posteriores de Karina, vinha suportando com incrível dignidade minhas diatribes. Somente ao ser informado sobre minha projeção de slides na New York Public Library foi que ele interveio mais energicamente pelo twitter: '' As coisas realmente boas são dispendiosas '' (escreveu ele) ''E sempre vale a lei de que quem as 'possui' é diferente daquele que simplesmente as ''adquire''. Tudo o que é bom é herança ; o que não é herdado é imperfeito, é ''apenas começo' '', escreveu o Presidente na noite anterior à minha apresentação. E não foi sem sutileza que ele o fez. No vazio criado nos meus olhos, ao ler sua frase no celular, na tarde seguinte, Karina imediatamente floresceu à minha frente como uma saudosa lembrança de óculos escuros que eu cultivara desde o primeiro ano de faculdade em Franchise, Wiscosin, matriculado como estudante especial no curso de artes liberais. Antes de encontrá-la para realizar a projeção de slides na Public Library, eu vagueara a manhã inteira sob o sol inclinado de Nova York a se pintar de manchas vermelhas e negras entre o cinza formidável dos arranha-céus e inumeráveis rajadas de vento verde. Minha fantasia daquela manhã, a de que eu emprenhara acidentalmente uma fêmea de nome desconhecido, transformara-se numa tenaz convicção quando , ao me ver sozinho na 5Th Avenue, um dos dois leões de pedra da Library, Paciência ou Coragem (?), rugiu na minha direção : '' Pode ser mais do que um sinal de elevação da alma quando um grande filósofo se cala '', disse o primeiro leão, que o prefeito LaGuardia havia batizado de Paciência. Então, o outro abriu a boca e rugiu também o seu rugido: ''Mas pode ser amor quando ele se contradiz ''. Aquele era certamente a Coragem. O barulho do trânsito turvava meus ouvidos naquele momento, enquanto minha mente recuava aos tempos em que eu abandonara o vício da heroína em favor da convivência com as hordas de universitários brancos de pescoço vermelho do Wiscosin, onde eu conhecera Karina, passando a viver inteiramente concentrado, desde então, em questionários, filas de matrículas adicionais em cursos extra e nas salas de aula da universidade do outro lado da rua principal do campus, tão cheia de trânsito como me parecia NY naquele instante: uma dança de facas afiadas através da qual eu caminhava até as abóbadas de mármore esculpido sobre a escadaria do Astor Hall ; exatamente como eu costumava caminhar até aquela livraria com toldo em cima em Franchise, anos atrás, onde, de acordo com as solicitações do curso, passei a adquirir às toneladas livros de Tom Paine, os artigos do Federalist, as obras de Arthur Schlesinger, uma coletânea tipograficamente frenética da admirável prosa americana, um texto de economia letalmente pesado numa capa falsamente sorridente de azul- esmaltado, e vários cadernos vazios que eu mesmo haveria de encher de erudita sabedoria, cadernos de capas salpicadas como madeira podre, e cujas páginas sugeriam campos de intermináveis e estreitas valas de irrigação. Em meio àquela nuvem de recordações, a Public Library me mergulhou no ambiente mais apropriado para o estudo calmo dos meus slides ; bem iluminado e arejado, onde milhões de livros ficavam enfileirados em locais de fácil acesso, a visão de Karina pareceu-me mais valiosa que os U$ 9 milhões confiados ao projeto da Library de Carrére e Hasting em 1911. -----Vamos entrar (.)-----, ela disse. O imenso Salão Principal de Leitura ocupava ao todo dois quarteirões e recebia luz solar dos dois pátios internos . Embaixo dele: 140 km de prateleiras contendo mais de sete milhões de volumes. ------ Assustador, né (??) (ela disse) Ainda assim, os bibliotecários levam menos de cinco minutos para localizar um livro aqui (.) -----, concluiu ela. Na sala especial de jornais, com 10 mil publicações atuais, de 128 países diferentes, eu compreendi perfeitamente o que Heidegger queria dizer com o Aberto do Mundo, manifestando e resplandecendo a mais pura aparência de sabedoria. Quis apropriar-me fisicamente daquela ''abertura'', por assim dizer, apreender toda aquela aparência de sabedoria e torná-la fisicamente manifesta em mim. E naquele momento, Karina era para mim a linguagem viva daquela apropriação , pois trabalhara dois anos seguidos ali, como bibliotecária, e transformara a natureza do lugar numa espécie de rosto só seu. Prova disso, é que ela não se intimidava intelectualmente comigo, apesar de achar cativantes a maioria dos meus escritos. Parecia, por sinal, ainda ver em mim o quarto-zagueiro amador dos Packers de Franchise, indiferente aos meus progressos literários. Ela costumava viajar para o sul comigo naquela época, onde íamos cultuar no templo de Milwaukee ou, viajando mais uma hora até Chicago, no Santo dos Santos. Em nossas viagens juntos, os campos verdes de Wiscosin passavam céleres em nossos olhos como ondas de um mar manso. E aquela também era uma ''abertura'' na qual meu espírito permanecia oculto: os estábulos brancos e os silos prateados que pressagiavam uma América na qual eu, no Olds bebedor de gasolina e sem silencioso, viria a me tornar a grande impureza intelectual, o espectro negro e diabólico da macumba que atravessaria as artérias da América como uma doença incurável, percorrendo todos os setores da sociedade, da mídia aos mercados financeiros, passando pelo governo e os partidos políticos, e indo parar dentro do FBI, do Departamento de Estado e do Pentágono. Embora a mente de Karina fosse límpida e casual como uma suave agitação marítima, ela tinha realmente memorizado para sempre nossas passagens por aquelas velhas casas de fazendeiros. As notas tilintantes das minhas primeiras reflexões políticas já lhe causavam ansiedade, naquele tempo, e jamais deixaram de contatar a fímbria de cada uma das ondas de seu pensamento. Seu rosto, no entanto, era a única coisa que restava-me daquelas lembranças, a última parada de uma interminável viagem de carro. Seu rosto me obcecava como uma coroa real. A frágil grandiosidade de suas formas delicadas se repetindo no horizonte ondulado da minha memória, com suas perspectivas cambiantes. ------ Meu primeiro slide é justamente uma fotografia do seu rosto (eu disse) A idéia central da minha apresentação, é a de que deve-se persuadir primeiro o ''rosto'' ; aquilo que, em cada indivíduo singular, abre para todo o espaço político. A revelação do rosto como linguagem. Abertura. Comunicação. Caminhar sob a luz de um rosto significa instalar-se em tal abertura. Até mesmo a natureza só adquire um ''rosto'' no momento em que é revelada pela linguagem. Como nas viagens em que víamos aquelas casas de fazenda com empenas finas rodeadas de árvores majestosas ; a pobreza de Wiscosin entelhando uma casa aqui e outra ali com remendos de ripas desiguais de cinco ou seis cores diferentes. Lembra (??) ,você ficava fascinada pelas torres de transmissão na estrada: aqueles esqueletos de aço cuja forma sugeria gigantes que seguravam delicadamente fios de pura força em braços minúsculos e baixos, os isoladores (.) -----, eu disse. Tais momentos de deja vù, entre eu e Karina, eram eletrizantes,com algo bem mais precioso do que a ressonância mental daquelas torres diminuindo ao longo de linhas perfeitamente retas. ------ O rosto não coincide com a face ( continuei) Onde quer que um ser chegue à exposição e tente agarrar o próprio ser exposto, tem-se um rosto. E é possível que hoje , toda a terra, transformada pela apropriação técnica dos homens num detestável deserto de cegueira e doença, tenha-se tornado também um rosto. Um rosto abominável (.) -----, eu disse. Ao olhá-la nos seus olhos, estes rapidamente se abaixaram, revelando um pequeno pudor por trás deles, mas logo voltaram a me encarar altivamente, exibindo novamente seu vazio como se existisse por trás deles, agora, um terceiro olho abissal que conhecia aquele vazio e o usava como um esconderijo impenetrável. Enfim, um quase ''despudor'', uma lascívia, algum sentimento sem reservas que permitia que no vazio de nossos olhares acontecesse amor e palavras. ------- A exposição é o lugar da política (observou ela) Entendo perfeitamente seu slide número 1. Quanta honra (!) Por exemplo: quando os atores de um filme pornô olham para a câmera, significa que eles ''demonstram que estão simulando'', certo (?) , mas na medida em que exibem a falsificação, mostram-se ainda mais verdadeiros. É o mesmo procedimento que a publicidade utiliza hoje para fazer com que as imagens pareçam mais convincentes: mostram abertamente a própria ficção. Quem as olha se confronta, ainda que a contra-gosto, com a essência e a verdade de um ''rosto'' (.) -----, concluí. De fato: a beleza dela não era um mero acaso. Graça e amabilidade obtida por meio de uma herança tornada consciente pelo espelho das gerações. Para obtê-la, Karina havia necessitado preferir a beleza ao proveito popular dos dotes físicos, aos hábitos liberais, à indolência e à frivolidade dos formadores de opinião da sociedade. Norma suprema da beleza real: não se ''deixar levar'' nem mesmo diante de si própria. Uma mera disciplina democrática de sentimentos e pensamentos, teria tornado sua beleza natural, ainda que inquestionável por si só, quase invisível. Mas a rigorosa sustentação de gestos importantes e seletos, a obrigatoriedade de viver apenas com pessoas que não ''se deixam levar'', foram suficientes para torná-la uma dama importante e seleta: sua beleza já estava completamente ''interiorizada'', naquela altura da vida. O resto eram as consequências estéticas de uma operação espiritual bem sucedida. ------ Aquilo que o homem é verdadeiramente (eu disse) não é nada mais do que essa dissimulação e essa inquietude de sua aparência. Sua condição é sempre a mais insubstancial: A VERDADE. O que resta oculto não é, para ele, algo por trás da aparência, mas o próprio ''aparecer'', o seu não ser nada mais do que um rosto. E levar a aparência à própria aparência é justamente a tarefa da política. A verdade, o rosto e a exposição são hoje objeto de uma ''guerra civil planetária'', e esse é o objeto do meu segundo slide: uma fotografia do meu próprio ''rosto''. Há muito que políticos, mediocratas e publicitários compreenderam o caráter insubstancial do ''rosto'' e do tipo de sociedade que ele pode ''abrir'' no Aberto do Mundo e o transformaram num segredo publicitário miserável, retórico e mentiroso até a biliosidade, com o qual se trata de assegurar, a qualquer custo, o controle da sociedade. O poder dos Estados não está mais fundado no monopólio da violência, que hoje ele tem que dividir com a ONU, a Rússia, as organizações terroristas e com o próprio Deus ; o poder dos Estados encontra-se agora no controle da aparência, da doxa grega. A constituição da política em uma esfera autônoma vai junto com a separação do rosto num mundo espetacular, na sociedade do espetáculo. A exposição enquanto valor que se acumula através das imagens e da mídia liberal, e sobre cuja gestão vela de modo ciumento toda uma nova classe de ''burocratas da falsificação'' . A política então surge (nessas circunstâncias) como vazio comunicativo no qual o rosto humano emerge como tal (.) -----, eu disse. Quando terminei de falar, Karina olhava-me com alguma ansiedade ------ Olhe só essas paredes, K (ela disse) Respire fundo. Vamos andar um pouco por aqui. A atual Library possui muitas outras raridades (.) -----, me pegando pela mão como uma criança. A julgar pela sua calma, pela sua vontade soberana de colocar a calma acima da ansiedade, julguei que ela estava me levando para ver a cópia da Declaração de Independência dos Estados Unidos que havia ali, assinada por Thomas Jefferson e, talvez, se Deus assim o permitisse, os originais datilografados de The Waste Land, de T.S. Eliot. A tarde da América, naquela hora, abobadava-me em volta da minha própria cabeça fumegante, recebendo a luz solar dos pátios internos da Library como uma cegante cefalalgia sobre a interminável refeição de quilômetros do meu pensamento.
K.M.
sábado, 26 de novembro de 2016
?! (16)
Vamos escrever, então, para nos isolar dos latidos dos cães raivosos. Em primeiro lugar: mulher alta é tudo de bom. Em segundo lugar: só quem sabe dessa história sou eu. Não sei direito o que posso fazer com ela, além de escrevê-la, então irei em frente. Conexão; distinção. Ao sorrir, as mulheres certamente sentem crescer em si pequenas asas. Sorrir e esvoaçar, para muitas delas (não todas) têm afinidades. E se eu estava fazendo Pamela sorrir, naquele momento, não era sem uma satisfação que beirava o sexual,com todos os seus componentes ambíguos de prazer e fraqueza, de agressão e fraqueza: a satisfação de sabotar o amor da minha vida. Não seria exagerado dizer que minha traição se situava na mesma região do prazer perverso, sádico, ilícito e fragmentado. Um tipo de prazer (diga-se logo) manipulador e clandestino, em que há muito daquilo que atrai um ser humano. Uma espécie de dança da perversão nas pontas dos pés,como um bailarino russo enlouquecido. Quando eu girei a chave na algema que prendia minha maleta de esmeraldas ao meu punho, todas as vitrines da 47 Th Street reluziam de ouro e diamantes. Nas lojas e oficinas, joalheiros de todas as procedências do mundo brigavam (ali) por clientes ; e nos nos andares superiores daqueles enormes prédios envidraçados quantias estratosféricas de dinheiro americano passavam de uma mão para a outra. Pamela surgiu na minha vida levemente, falando docemente, com inteligência notável, e sorrindo um dos mais belos sorrisos da América. Imediatamente, tive a sensação de que era uma dama muito, muito distinta,entre outras razões , por ter-me feito pensar em Linda como um território que eu jamais conseguiria aprofundar; por me fazer compreender, com um único daqueles sorrisos hipnóticos, que, por mais que eu me aventurasse nas profundezas inexistentes de Linda, sempre me moveria numa soleira desbotada e analfabeta. Nissuno sa... ''Vou ter que fazer o inventário desse amor sozinho '', pensei então '' Depois,disse à ela: ------ Justamente nessa miniaturização da riqueza é que está a idéia da passagem da ''mais valia'' para o riso (.) Ah... as estrelas do deserto (!) Que glórias mais propínquas (!) Glóbulos trêmulos ,valiosíssimos, supervisionando nosso progresso umbroso com o mais eloquente, o mais sedutor dos sorrisos (.) ------, pois sim: muito mais do que as lampadárias internas das minhas esmeraldas, lampadárias das lampadárias. Rainha das estrelas. Correndo como um veio central, um vale luminoso dentro de um céu negro como o veludo de um mostruário de joalheiro, que em cada um de seus centímetros oferecia, ao meu olho atônito e paciente, mais e mais estrelas, estrelas saídas de estrelas, mais e mais personagens, umas saídas de dentro das outras, de modo que o intervalo entre cada um de seus sorrisos eram luzeiros subdivididos, e novamente subdivididos, pelo surgimento de novos pontos, conduzindo meu escrutínio sexual pasmo cada vez mais para o meu interior, a uma escala na qual a indefinição de Andrômeda tornava-se uma imensidade verbal cujos sóis, como partículas, podiam ser numerados no caos ígneo-espermático dos meus testículos. ------- É sempre com uma emoção alegre que escuto sair palavras singulares e audaciosas da boca de homens como você (.) ------, Pamela disse. E sorriu de novo. Balancei em completo silêncio. Seguia, então, os mesmos caminhos de pensamento que vinha seguindo desde o início ; mas agora ele estava juncado de rosas e estrelas. ------ Homens que (continuou ela) por uma questão de honra espiritual, vêm para dizer a verdade ; uma verdade com que muitos se preocupam tão somente porque trata-se de uma verdade infalível em seus efeitos ; sem nenhuma espécie de hesitação em descontentar aqueles para quem ela se apresenta de maneira hedionda (.) -----, ela disse. Sensibilidade muito apurada reagindo em voz alta às portas abertas do meu corpo e do meu espírito. Música alemã. ------ O Diamond Row surgiu nos anos 1930 (eu disse à ela) quando lapidários da Antuérpia e de Amsterdã chegaram aos Estados Unidos fugidos do nazismo. Até hoje, são esses judeus que predominam na venda de diamantes em Nova York (.) O comércio em geral é atacadista, mas atendem pessoas ilustres individualmente, como você (.) Até onde sei, os interessados devem chegar com dinheiro vivo,falando o mínimo possível, mas comparando os preços e pechinchando, como em qualquer feira livre do mundo (.) Comprar e vender em ''quantidades'' aqui (no entanto) é só para quem entende do assunto (.) ------ , eu disse. a expressão de um autêntico e imemorial ''saber'' satânico. E aquilo intensificou, por magnetismo, minha integração com Pamela no espaço. A rua tornou-se mais aveludada, inflamada,escura. E eu deixei cair o seu nome dos meus lábios. ------ Isso me lembra alguma coisa estranha (ela disse) A segunda impressão de um jogo muito obscuro, em que alguém menosprezado detém poder de vida e morte sobre todos os resultados. Em que começa-se, por sinal, a jogar progressivamente com todos os pontos dos espaço. Cada vez mais de perto (.) ------, ela disse. Sua desconfiança absorveu-me. ------ Tu não podes levar a sério todas as impressões que tens (.) ------, disse subitamente à ela. ------ Acene (cotinuei) Tente uma pequena e saudável despedida do mundo dos espíritos e deixe o resto por minha conta. Do contrário, estará praticando satanismo involuntário, como os espíritas. E (Meu Deus!) quanto de africano há nisto (!) Aqueles temores razoáveis da superstição africana quanto à ''espíritos maus'' . ''Wiegt de Schmetterling sich uber dem rotlichen Klee ''. Se quiser ser um satanista eficiente, volte àquele sufocante decoro inglês (.) ------, eu disse. O espaço vestia-se diante de nós, como um ser gigantesco e brutal que nos atraía: as roupas da atmosfera dominante. Pamela não estava necessariamente enganada em sua avaliação das próprias impressões. O estado de ânimo em que estava mergulhada a América, naquele momento, era mesmo uma atmosfera de ''emboscada'' e ''acusação'' ; o espírito de vingança respirava por toda parte. Mesmo os grandes momentos da história universal eram disfarces sob os quais eu trocava olhares de conivência com o nada do mundo, reduzido à pó à minha volta pelo fogo da consciência. O que havia de mais baixo e banal na minha atividade psíquica, aparecia aos olhos dos outros como a quintessência do Mal. Pensava comigo que eles não podiam ver as outras coisas. Como mestre de miha própria ciencia, nestas circunstâncias, me limitava a responder às piscadelas de olho que me chegavam do nirvana. De fato: quando o ''espaço aberto'' do mundo , o espaço urânico, transforma em tortura a idéia do ''lá fora '' , a sensação do ocultista de estar ''profundamente entretido'', enredado em uma teia de aranha da qual pendem todos os acontecimentos do mundo, ganha uma força.
K.M.
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
?! (15)
Devo ser muito ingênuo, mas agora sei que mesmo a ingenuidade pode ter sua recompensa. Consultando o guia das obras em exposição no National Arts Club, descobri que entre os sócios daquele clube estiveram alguns dos maiores artistas americanos da virada do século XIX para o XX. ----- Eles tinham que doar ao clube uma obra de arte de valor histórico indiscutível para se tornarem sócios vitalícios (.) -----, eu disse à Linda. Os olhos dela estavam brilhantes, e minhas intenções para com ela estavam longe de serem apenas ''científicas''. Mas para que eu me aproximasse dos mistérios da felicidade, naquela tarde, teria que mergulhar fundo nos olhos dela e refletir bastante sobre o fio de Ariadne , e aquele supremo tipo de êxtase, tão contagioso quanto lisonjeiro. Meu prazer, em contrapartida, tinha profundas afinidades com o dela; quer com seu êxtase, quer com sua admiração. ----- Criação (ela disse) Quanto prazer sou capaz de sentir no simples ato de desenrolar um novelo. O êxtase do avanço, mas também, ao avançar, não só descubro os meandros da caverna onde tateio, mas também desfruto desse tipo tão especial de felicidade que consiste em desenrolar um novelo até o fim. Essa certeza que me é dada pelo novelo engenhosamente desenrolado junto com você (.) -----, concluiu ela. Às cinco da tarde, parecia então haver uma quantidade pouco frequente de amor e desejo no ar. Todo mundo estava na rua; os cafés estavam cheios. O mundo parecia totalmente aberto,fácil e desenrolado até o último centímetro de seu barbante. ----- E não será essa (eu disse) justamente a felicidade de toda produção, pelo menos aquela que tem forma de prosa ? Para Heidegger, por exemplo, poesia era produção. E no amor, porque não dizer, somos também seres de prosa na sua mais alta potência. -----, concluí. Pareceu-me, então, impossível aceder à uma sensação mais profunda de felicidade do que aquela que se manifestou em mim diante da fachada redesenhada por John La Farge em 1883. Era necessário, agora, apenas tirarmos de dentro da realidade aquilo que era idêntico à nossa paixão. Algumas semanas antes, por sinal, eu havia anotado no meu bloco o seguinte: '' Sou um homem novo, sensível à tudo o que há de idêntico à mim no mundo. Linda Sherman aumentou tudo o que sou capaz de ver à minha volta, ao substituir com seu coração todas as ficções com que eu sustentava meu universo insólito de naufrágios amorosas em série. Ao invés de forçar-me à um novo estilo de vida, ela apenas reforçou poderosamente minha busca mais profunda, pressentindo em todas as minhas palavras um coquetel de escolhas e temáticas que só alcançariam a perfeição última em sua pessoa inimitável ''. Esse parágrafo tinha me agradado muito, na ocasião em que o escrevi. Relendo-o, agora, de memória ao lado dela, permiti-me confrontar o sentido político-racional que ele também tinha para mim com o sentido mágico-individual da minha relação com Linda. De fato, ela era o matiz idêntico à mim. Concentrando-me no seu rosto, a noite surgia como um êxtase totalmente compartilhado por duas pessoas. E naquele estágio da experiência, qualquer cadeia dos meus pensamentos tornava-se música. o ''Aqui e Agora'' era uma música da minha inteira responsabilidade. Responsabilidade e habilidade do artista, que estudando cuidadosamente a situação, e com a voz mais calma do mundo, emitia a música mais apropriada. Ao me referir ao ''Aqui e Agora '', no entanto , eu não me referia à cidade, mas ao pequeno recanto, não muito rico em acontecimentos, onde eu me encontrava. Até então, fôra divertido para os outros verem chegar um rapaz novo com uma bela moça de vestido verde e pensarem: ''Ele foi buscá-la no aeroporto e agora ela está lá dentro do recanto com ele. E porque não (?) ''. De fato, lisonjeava-me a idéia de estar com ela no Centro do Universo, que por tanto tempo eu habitara sozinho, até torná-lo iluminado o bastante para que alguém pudesse pisar nele sem se perder. ----- Olhar-te dentro dos olhos e soldar com meu próprio sangue as vértebras de 26 séculos de espera, para libertar o último século acorrentado. Penso que somos todos devorados pela febre da história e deveríamos dar-nos conta disso (.) -----, eu disse. Ela ria. Mas os acontecimentos, àquela altura, davam-se de tal modo que a aparição de Linda me mergulhava num sonho interminável sobre ela. Mais do que isso: comportava-me, naquela hora, como uma figura feita de medula de sabugueiro colocada numa caixa de folhas de estanho vitrificadas, que, pela fricção do vidro nas mãos dela, ficava eletrificada e a cada um de seus movimentos era obrigado a entrar nas mais extraordinárias relações com ela. Não seria exagerado dizer que agora ela se lançava à vida ''de mãos cheias''. A grande expansão da Caixa de Pandora ; eu como sempre falando em seus ouvidos com frases muito longas, mas tudo muito bem arranjado para que pudéssemos rir em conexão com a esfera do caráter. Uma nítida sensação de que não era ''exatamente'' necessário entender a fundo nenhum poema de Edgar Allan Poe naquela situação. Estávamos livres disso. ----- É muito melhor entender qualquer outra coisa, no momento (.) ------, eu disse à ela. Estávamos certamente apegados à esfera intelectual e absorvidos nos fatos da política, mas associando ora o meu, ora o seu riso à uma variedade enorme de súbitas oscilações de opinião.
K.M.
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
?! (14)
O que se passou exatamente no Shake Shak ? Ótima pergunta. Ou melhor: pergunte ao haxixe. Parece que tudo dá errado comigo quando fumo haxixe; ou simplesmente Deus percebe que o fumei e se recusa a me entender. Anne não falara nada até aquele momento, porque eu me sentara ao seu lado como um Don Juan inquestionável, e mandara vir uma polenta à americana e uma garrafa de nebiolo. Ela queria que eu pedisse logo o segundo prato. Escolhi qualquer coisa vulgar e ela começou a folhear o cardápio, e a pedir uma coisa atrás da outra. Sem grande risco para o nosso bom-humor, disse-lhe que a ''evasão'' era a necessidade primordial que sustentava o consumismo. Depois disso, saltou-me à vista o nome anterior ao prato que ela tinha pedido, e eu pedi um daquele também. Quando cheguei ao alto do cardápio, os garçons já estavam nos olhando com desconfiança. Aquilo já não era apenas gula, era antes uma espécie de extrema delicadeza mística,totalmente desencadeada pelo haxixe em nós , para com as comidas que não queríamos ofender com nossa recusa. Resumindo: ------ E um patê de Lyon (.) ----, pedi novamente. Estava sendo divertido, até então, perceber que a evasão pelo consumo também se manifestava na gula enquanto ''ópio do povo'', substituto para a monotonia da vida cotidiana e os estados de consciência ordinários em que vive a massa. Em resposta à alienação generalizada, um imaginário gastronômico atordoante e recreativo . Depois de comer um pouco, Anne sussurrou-me ao ouvido com desdém: ----- É carne tenra de coelho ou de galinha (seja lá o que for) Em todo caso, não me parece próprio satisfazer minha fome de leão com carne de leão (.) -----, ela disse. De resto, já tínhamos decidido que, assim que acabássemos de comer ali, iríamos andar a pé e fumar mais haxixe, até ficarmos com fome de novo e irmos jantar em outro restaurante. ----- Aumentando a fragmentação das tarefas e a nuclearização do social (continuei) a lógica burocrático-tecnocrática engendra a passividade e a desqualificação, o tédio e a irresponsabilidade, a solidão e a frustração crônica de todos os cidadãos de um país, inclusive os que se consideram profissional , emocional e sexualmente realizados. É justamente nesse terreno que a cultura de massas encontra a brecha necessária para fazer as pessoas evadirem-se da realidade, iludindo-se das maneiras mais hilariantes. Abrindo o campo ilimitado das projeções e identificações falsas, encoraja-se então as atitudes mentais passivas, embotam-se as faculdades imaginárias e criativas, desestimula-se a altivez espiritual e o intelecto aguerrido que passa entre as descrições padronizadas pelo senso comum. Assim, a cultura de massas apenas amplia a esfera da despossessão subjetiva (.) -----, concluí. Após comermos, íamos caminhado ao longo da Madison Ave. , lendo todos os nomes de edifícios à nossa volta. Uma alegria incompreensível apoderara-se de mim depois que ela finalmente reparou no meu terno cinzento comprado na A. Shop; cinzento, lustroso, de raiom e com paletó traspassado. Eu sorria à todos os nomes de edifícios que ela dizia em voz alta. ----- Metropolitan Life (eu disse) ''Uma luz que nunca falha'' ; no antigo restaurante aí dentro haviam murais históricos do célebre ilustrador de Robin Hood, A Ilha do Tesouro e Robinson Crusoé. Hoje, em compensação, o que existe aí dentro é o First Boston Credit-Suisse (.) -----, concluí. Dois minutos depois, olhando para baixo, acrescentei: ---- As coisas tornam-se mais estranhas a cada século que passa (.) ------, parecia-me que o amor das cores prometido nas respectivas placas dos nomes de todos aqueles edifícios era qualquer coisa de maravilhosamente belo e comovente. Apenas pelo prédio da Apellete Division of The Supreme Court of The State of New York foi que passei com hostilidade, pois ele me fazia lembrar de guerras aéreas e de um bar onde eu trabalhara como garçom, no Bronx, em que eu tinha que desviar o olhar das fisionomias demasiado desfiguradas de certas clientes. ------ Aqueles velhos jogos de amarelinha do Demônio (eu disse) Tudo sempre se apaga, uma vez terminado cada sonho mau; e para além de suas evidentes satisfações psicológicas, a cultura de massas imita uma função parecida no inconsciente televisivo: acelerando o declínio de valores ultrapassados, pouco funcionais numa sociedade em desintegração, as estrelas da música e do cinema usam seu erotismo para criar um teatro de variedades que, através da tv e da imprensa feminina, promove uma ética lúdica e consumista da vida muito interessante. Hipnotizado por suas realizações pessoais milionárias e seu incrível bem-estar , o público aficcionado substitui a fé em Deus e no pensamento independente pela crença em múltiplas formas de auto-realização existencial, capazes de centrarem violentamente suas vidas privadas, monótonas e tediosas, nos mitos de sucesso mais loucos. Para mim, é particularmente incrível que, no fundo, a vida moderna seja somente isto. Chega-se até um limiar e, depois, nada. Tudo fica pelo caminho como pratos vazios numa mesa de restaurante (.) ------, eu disse. Quando anoiteceu, o vinho, uma garrafa de cassis, um vinho seco, já não estava indo bem com o haxixe. Eu tinha escolhido aquele restaurante perto do Flatiron Building por causa da vidraça aberta através da qual eu podia olhar rua abaixo na esperança de vislumbrar os tornozelos e as ancas das mulheres que passavam. ''23 -SKIDOO (!) '' . '' CIRCULANDO (!)'', como diziam os tiras antigamente, naquele mesmo ponto da cidade. No copo dela havia uma pedra de gelo solitária, que na minha imaginação representava sua vida, e eu aguardava ansiosamente um café à napolitana na frente do telão, porque o jogo do Nápoles começaria às 22 h em ponto. Ao que tudo indica, foi mais ou menos aos 30 ´ do primeiro tempo que Anne percebeu que eu tinha o péssimo hábito de me transformar completamente com cada pessoa que atravessava minha vida. Como se cada pessoa representasse para mim uma figura que, claro, não tinha nada a ver com o modo como eu as via, mas antes com o modo de ver dos grandes retratistas do século XVII, que procuravam realçar uma colunata ou uma janela, ou mesmo um lustre, de acordo com o estatuto do personagem que enquadravam. ------ Mesmo que você não me perdôe nunca mais (eu disse à ela) Talvez eu ainda lhe deva um confissão de caráter mais geral : a solidão dos meus estados de êxtase poético têm de fato seus lados sombrios. Para falar apenas do lado físico: houve um momento, agora há pouco, que uma forte ereção dentro da minha calça só pôde encontrar alívio num cantarolar em surdina ao pé do seu ouvido. E não tenho dúvidas de que o que era verdadeiramente belo e iluminado entre nós, até o momento, desfez-se num individualismo sonambúlico, despossuído de si mesmo, assim que comecei a cantarolar. Por outro lado, minha ereção atuou como um filtro dos meus desejos de afirmação imediata. Tenho certeza que, amanhã pela manhã , quando tentar escrever sobre a experiência, produzirei mais do que uma mera enumeração de impressões vagas. Hoje à noite, caso você venha dormir comigo, o êxtase restante do haxixe demarcará nosso cotidiano pelos seus belos contornos prismáticos, formando uma espécie de figura sem sentido que se retorce no escuro até explodir de felicidade (.) -----, eu disse. Mas ela analisou tudo que falei pelo ângulo da generalização dos meus desejos egoístas . Desanimada, vi Anne levantar-se da mesa e dizer ao garçom que precisava ''imediatamente'' de alguma coisa para ''fazer assentar o ravióli''' dentro dela. Quando o Nápoles finalmente abriu o placar , meu café já tinha esfriado na xícara. ''A cultura de massas '' (pensei então) ''Realmente fantasmagoriza o espectador''.
K.M.
?! (13)
Ao longo do vôo explicara à Anne que eu não era apenas um amante das artes; mas que além disto, eu era um viajante que buscava ''na distância'' de certos estados inusuais de consciência, a ''sorte'' que pudesse me servir de casa'' ; e que só muito tarde, na vida, é que eu tinha começado a colecionar estrelas. ----- Passaram por cima de mim como cristas mais alvas que as da Trácia, e foram em seguida doutrinadas , à sua revelia, por essas mesmas garras que você me ouve estalar de minuto a minuto. Garras mais rudes que as das feras do séquito de Artemisa. Agora, se quiserem fugir de mim, terão que enfrentar ondas mais eternas que o fogo do do inferno (.) Mas você, em especial, não tem de temer nada disso. Peço-vos apenas que me acompanhe, daqui há dois dias, à pirâmide dourada no alto do New York Life Insurance Company, onde pretendo espalhar a desordem dos meus caixotes de livros, no ar cheio de pó de madeira do velho quarto de dispensa onde guardo meu saco de boxe alienígena (.) ------, eu disse. Antes de desembarcarmos, eu me adiantei e me ajoelhei diante de Anne. ''Tudo bem '' (pensei) ''Se é o que ela deseja de fato, está prestes a conseguir, e com tudo o quem direito ''. -----Vamos, agora levante. Vamos tomar um café antes de nos despedirmos (.) -----,eu disse. O rosto dela estava sonolento e inexpressivo, até onde me lembro ; espantada por dentro (é verdade), mas com toda certeza sem nada de debochada. só o fato de ela ter ido até o coffe chop comigo bastara para representar um novo e delicioso desafio no grande psico-drama que era minha história sem começo nem fim. Portanto, concentrei-me , fiz pontaria e disparei: ------ No Life Insurance há um chão coberto pelos meus papéis rasgados, como se um bicho desvairado tivesse passado por ali. Um Demôno da Tazmânia. Sob as pilhas de livros que verão novamente a luz do sol , depois de dois anos na mais completa escuridão, eu lhe revelarei o segredo último da beleza e da feiúra, para que você partilhe comigo um pouco do estado de espírito em que vivo ; nada de elegíaco (garanto-lhe), antes algo tenso, próprio de um autêntico colecionador de estrelas. De fato, é alguém desta estirpe que vos fala, no momento, ; e, no fundo, vos fala apenas de si mesmo (.) -----, eu disse. No dia seguinte, não voltamos a nos falar. Eu fôra direto para aquele imponente edifício projetado em 1928, adornado com lustres enormes e painéis de bronze, além da imensa escadaria que leva à estação de metrô. O antigo ''palácio dos prazeres'' (Madison Square Garden) de Stanford White ocupara o espaço do Insurance no passado, quando a elite de NY frequentava os musicais e eventos da alta sociedade. O palácio dos prazeres tinha arcadas e uma torre imitando a Giralda, de Sevilha, sobre a qual ficava a famosa estátua de ouro de Diana nua. Certamente uma nudez chocante para a época, tal como a morte de White, seu conceptor. White fôra morto a tiros ali mesmo pelo marido de sua amante, Evelyn Nesby, e ganhou o seguinte destaque na Vanity Fair: ''White, mulherengo e pervertido, teve uma morte de cachorro ''. Sem um pingo de hesitação, eu arrastava minha figura majestosa até a ''pirâmide dourada'', pensando que os escândalos revelados durante o julgamento de seu assassino superavam os enredos de qualquer filme de Hollywood... Mas minha passagem pelo interior do edifício, ao contrário, conferia à noção de decoro dos funcionários e transeuntes uma relevância de discrição colossal. E se por acaso eu parecia eufórico à alguns deles, era porque vinha imaginando Anne como uma atriz inibida e envolta em todos os disfarces de sua carreira, e que no dia seguinte eu a tornaria completamente desinibida,de uma hora para outra, estudando-a e amando-a enquanto palco, teatro de nosso próprio destino. ''Os escritores'' (pensava então) ''São de fato pessoas que escrevem livros não por serem pobres, mas por insatisfação com os livros que poderiam comprar, mas que não lhes agradam de forma alguma ''. Na segunda-feira de manhã, ela finalmente me telefonou e marcamos nosso encontro. ------ Prometo que não haverá publicidade, frustração, crises (disse-lhe eu) Sou um amnésico seletivo cujo ponto forte é justamente tornar sem consequências desagradáveis qualquer fator inconveniente (.) -----,concluí. De resto: nada, no meu caminho. A decisão de encontrá-la era apenas um dique momentâneo contra a maré de recordações que avançava sem parar. Toda paixão está sempre bem próxima do caos, mas a do colecionador de estrelas confina mais com o mar de suas recordações. O mais profundo encantamento do colecionar de estrelas é o de fechá-las, uma a uma, num círculo mágico em que elas ---- enquanto são atravessadas por um último calafrio ----- ficam eternamente petrificadas. Então, tudo o que é recordação, pensamento ou consciência de um colecionador de estrelas, se torna, subitamente, pódio, moldura, pedestal, altar, fecho de sua propriedade espiritual. A época, a cidade, a região da cidade, o filme, a locação do filme, as fisionomias, os proprietários anteriores delas, tudo isso se transforma, para o verdadeiro colecionador de estrelas, e em cada uma de suas peças, numa enciclopédia miraculosa cuja quintessência é o destino de seu objeto. Imprimátur (!!) Eu era antes de tudo um grande fisionomista, um fisionomista apaixonado, e quando o rosto de Anne surgiu à minha frente, tornei-me por acréscimo imediato o intérprete privilegiado de seu destino. Basta alguém observar como eu a manipulava dentro daquele quarto escuro e empoeirado: como um objeto na minha vitrine. Mas quando segurei-a pelo braço, senti-me inspirado a olhar através de seu coração, dos seus olhos, dela toda... para a distância de onde ela vinha. ------ Habent sua fata libelli (eu disse) Quem quiser intervir num leilão, terá necessariamente que dividir sua atenção em suas partes iguais: na peça cobiçada e nos concorrentes; e ainda manter a cabeça fria, para (como acontece tantas vezes) não se deixar levar pela luta com a concorrência, e acabar na situação de ter de pagar um preço de arrematação demasiado alto, porque fez sua oferta mais para afirmar sua posição do que por um genuíno interesse (.) -----, concluí. Enquanto falava, tinha nas mãos uma obra digna de nota, adquirida justamente num leilão de livros raros, em Heidelberg, há cinco anos. ------ Aqui está (continuei) os tão legendários ''Fragmente aus dem Nachlasse eines jungen Physikers, que Johann Wilhelm Ritter publicou em Heidelber em 1810, nessa edição em dois tomos. A obra nunca foi reimpressa, mas o preâmbulo, em que o autor-editor evoca o amigo anônimo supostamente falecido (que não é senão ele próprio), fazendo o relato de sua própria vida, é para mim um das mais significativas peças de prosa do Romantismo alemão (.) -----, eu disse, dando início ao meu monólogo. Enquanto falava, deixei que ela folheasse a incrível raridade, e passei ao meu ''número'' seguinte, aproveitando-me de sua distração. Com o coração ligeiramente acelerado, parecia-me evidente que nada tornava mais exótico o fascínio de revirar caixas de livros raros do que a dificuldade de dar por terminada a tarefa. Eu procurava, naquele momento, uma obra que me ajudasse a cumprir a promessa que fizera à ela, de revelar-lhe o segredo da Beleza. Acendi um cigarro e, na ponto final de uma fileira de livros infantis, caiu-me nas mãos dois volumes cartonados, já bem desbotados pelo tempo, que, em rigor, não deveriam estar ali. Quetalvez nem sequer existissem. ----- Não há biblioteca viva (eu disse) que não albergue um certo número de criaturas livrescas provenientes da ''zona-limite'' da infância. Isso aqui parece-me mais uma pandecta ; fac-símile de um manuscrito ou datiloscrito de uma história infantil já inacessível à inteligência de nosso tempo, mas que em dias remotos deve ter constituído a margem prismática de alguma famosa coleção alemã ou dinamarquesa (.) Muito bem... A PROMESSA (!) sei que ao dizer o que vou te dizer agora, estarei sendo bastante arrojado, mas também muito coerente com meu papel. Prometi revelar-lhe o segredo da Beleza, certo (??) Exageros, distorções, invenções descaradas ----- tudo isso certamente faz parte de meus talentos. Ninguém, nenhuma estrela, até hoje foi capaz de sufocar completamente meu cinismo. Tenho plena consciência de que a revelação que farei do meu mundo mental, implícita no ato de colecionar estrelas, reforçará sua convicção acerca do caráter intempestivo da minha exótica paixão e sua desconfiança em relação ao meu ''tipo humano''. Sem problemas, mas digamos que nada seja mais condicionado, mais limitado em nós, seres humanos, do que nosso sentimento do Belo. Qualquer um que tente pensar tal sentimento separado do prazer que os seres humanos sentem consigo próprios, perderia de imediato o solo sob seus pés. O ''Belo em si'' é somente uma expressão vazia, não chega a ser nem mesmo um conceito. Na Beleza, o ser humano define a si mesmo como medida da perfeição; em casos escolhidos, adora neles apenas a si próprio. Uma espécie não pode ''dizer sim'' a si mesma senão dessa forma. Seu instinto mais ''básico'' , o de auto-conservação e auto-propagação, se irradia mesmo em tais sublimidades. No fundo, o homem se espelha nas coisas, ele julga belo tudo aquilo que lhe devolve sua própria imagem: o juízo ''belo'' é a vaidade da espécie. Mas nada, absolutamente nada, nos garante que o homem seja o modelo do Belo. Quem pode dizer como ele se apresentaria a um juízo superior do gosto (??) Talvez atrevido ? Divertido (?) Ou mesmo extremamente arbitrário. ''OH, DIONÍSO, SER DIVINO, PORQUE PUXAS TÃO FORTE MINHAS ORELHAS (?!) '' , perguntou Ariadne certa vez, num daqueles célebres diálogos de Naxos ao seu divino filósofo amante. ''Apenas o homem é belo''. Sobre essa ingenuidade repousa toda a estética ocidental. E sobre esta segunda : ''Nada é feio, a não ser o homem degenerado'' , demarca as fronteiras do reino do juízo estético. O efeito daquilo que é feio pode ser medido com um dinamômetro: lembra-lhes sempre ''declínio'' e ''perigo''; mas tanto num quanto noutro caso, tiram a mesma conclusão: e as premissas de tal conclusão estão acumuladas no instinto em abundância gigantesca. O feio é entendido como um sintoma da morte. Todo indício de morte, no Ocidente, produz o ''feio'' como juízo de valor estético. E o que irrompe de uma tal reação psicológica é apenas o mais puro ódio. Aquilo que o homem odeia. Não resta dúvida que aí se esconde a monomania da contra-iniciação e do medo ao desconhecido. Aquilo que ameaça o tipo ocidental como juízo de valor, ameaça-o com a transmutação de todos os valores. E o ódio desses tipos vem sempre carregado de calafrios, cautelas, profundidades e perspicácias. É o mais profundo tipo de ódio que há: o ódio ao desconhecido.
terça-feira, 22 de novembro de 2016
?! 12
----- Yo mi sucedo a mí mismo (.) -----, disse para a moça ao meu lado, no balcão do bar do aeroporto. Ela se surpreendeu um pouco com essa frase de Lope de Vega, encontrada por acaso entre as relíquias espontâneas da minha memória involuntária, porque o assunto naquele momento não era eu, e sim o ''Partido Republicano no poder''. Olhou-me como uma criança assustada, e eu lhe devolvi um olhar de estátua. O ''agora'' daquele instante, o instante interior ao instante em que nosso pensamento veio a se tornar um só, não poderia ser identificado por nenhum cronômetro. ----- A rua onde moro (ela disse) chama-se Summit Avenue ; ponto mais alto de um promontório de altitude considerável, acima do pântano salgado a norte e a leste do perímetro urbano, e da baía profunda a leste do aeroporto, que contorna os tanques de óleo da península de Bayone, se confundindo com a baía de Nova York, passando pela Estátua da Liberdade e perdendo-se no mar (.) ------,concluiu ela. Num guardanapo sobre a mesa, revelou-me ter um talento assombroso para desenhar fisionomias ; mas disse que ganhava a vida como atriz... e se o fato de que todas as personagens desse livro são atrizes inquieta e horroriza profundamente a leitora, devo limitar-me a dizer, apenas, que sou alguém que se alimenta instintivamente só de ambrósia. Comparado aos outros, sou um homem de gosto. Não obstante, alguns jornais costumam dizer de mim : ''Não nos dá o suficiente para morder''. Talvez com certa razão, mas claramente em detrimento da minha pessoa. O fato que mais vinha irritando a mídia, no presente, era o de que eu misturava perigosamente na minha cabeça meu heroísmo com o heroísmo do Partido Republicano, conferindo à mim mesmo uma distinção quase divina, acompanhada, nada mais nada menos, que de uma gigantesca anunciação global . ------ Yo sucedo a mí mismo (.) ------, repeti no seu ouvido. Enquanto Anne desenvolvia seu desenho, não podia imaginar que eu era um colecionador profissional de estrelas ; alguém que, deliberadamente, as reunia à sua volta, que as caçava encarniçadamente por terra e mar, sabendo que só junto de mim, que só junto delas eu estaria a salvo. ----- Os gostos e as preferências estéticas são os principais meios de afirmação da nossa personalidade ( eu disse à ela) Além do mais, a adoração de estrelas não é uma ''droga de massa'', como alguns dizem; ela não se explica apenas pela ''miséria da carência'', da vida morna e anônima das cidades modernas. Tal adoração só pôde aparecer, no entanto, no universo democrático em que já se operou uma dissolução completa da ordem hierárquico-desigualadora e uma desagregação absoluta do tecido social. A desigualdade entre o fã e a estrela não é a mesma que liga o fiel à Deus, mas aquela que liga os dois ao sub-produto histórico das revoluções burguesas e democráticas, em que todos os seres, soltos, livres, podem reconhecer-se uns nos outros, em que se quer conhecer tudo da intimidade cotidiana do outro, em que se pode exprimir seu amor sem barreira nem reserva, para além de todas as diferenças de idade, posição social e celebridade. Mas é claro que, em tais circunstâncias, minha jovialidade, benévola e espirituosa, sempre acaba desencorajando toda seriedade. Simplesmente não sei quão velho já sou, nem quão jovem ainda virei a ser. Por isso ,digo: ''Yo me sucedo a mí mismo ''. Meu espírito sempre encontra razão para estar contente e mesmo agradecido. Constantemente, roço com os vôos do meu espírito a transcendência jovial de alguém que está sempre voltando de algum encontro amoroso (.) ------, concluí. Sem que eu me desse conta, Anne registrara todo meu percurso mental com aquele desenho, que representava (fisionomicamente) a justaposição perfeita de dois eventos magníficos. A máquina bélica do meu pensamento e sua afinidade rizomática com os cartazes da transição republicana. Durante o vôo, ela confessou-me que, enquanto desenhava, imaginara-me andando à esmo a alguns quarteirões de sua casa, em meio à uma multidão delirante que pedia minha cabeça, na esquina das ruas Broad com Market. ------ O momento em que o desenhista concebe o traço (ela disse) depende do deus sem rosto do Desenho. Um diretor de consciência, um amante desejado, em que o prestígio mítico não exclui o desejo de conhecer os detalhes de sua vida íntima. É muito mais do que uma necessidade antropológica de sonhos e identificação imaginária. Desenhar seu rosto para mim foi o mesmo que uma liturgia (.) -----, analisando o desenho dela, depois, um retrato da minha face em claro-escuro, percebi que nosso primeiro vôo transatlântico juntos já estava impregnado por um sentido trágico, que me transformava num herói viril e martirizado comparável somente a... Joana D´Árc.
K.M.
domingo, 20 de novembro de 2016
?! (11)
Ninguém poderia dizer então que o Sol reaparece com boas intenções. Esse não poder transformar as coisas em sua própria perfeição é reabsorvido em si mesmo até tornar-se a mais pura arte. Imagina-se então, por toda parte, um estado anti-artístico epidêmico carcomendo o mundo, contrário a todos os instintos da saúde, da beleza, da inteligência e da arte, que é a escuridão; o modo de ser da escuridão deixa todas as coisas esgotadas, pobres e rarefeitas. E, de fato, a história humana é rica em estados anti-artísticos: a necessidade de se apossar das coisas, consumi-las, envilecê-las, usá-las e matá-las deixando-as irreconhecíveis, é própria dos mais baixos atavismos humanos. Natural, portanto, que o poeta use os momentos totalmente sem nuvens de seu domínio de maneira absolutamente despótica. ''Durante dez meses aqui '' (ele diz) ''tudo será feito de trevas ''. Então, quando as trevas desse sol poético realmente chegam ao mundo, elas interpelam todas as coisas, arrancando-as à noite do mundo e mergulhando-as na sua própria; o rito do sol negro faz de todas as coisas propriedade sua, mas sem puxar as barbas duras do mundo. ------ No universo em expansão (eu disse à ela) as galáxias mais remotas distanciam-se de nós à uma velocidade tão grande que a luz não consegue nos alcançar (.) O que percebemos como a escuridão do céu é essa luz que viaja velocíssima em nossa direção e, entretanto, não pode nos alcançar, porque as galáxias das quais provém distanciam-se a uma velocidade superior à da luz(.) ------, concluí. A embriaguez apolínea mantém excitado sobretudo o olho do poeta, de modo que ele receba a força visionária. Mas no estado dionisíaco, por outro lado, o sistema inteiro de afetos é que é excitado e intensificado, de modo que ele descarrega todos os seus recursos expressivos de uma só vez sobre as pessoas, liberando ao mesmo tempo, como uma bofetada na cara, a força de representar, fingir, transfigurar e transformar, bem como toda espécie de mímica e teatralidade. ------ O essencial (continuei) é a facilidade da metamorfose, a incapacidade de não reagir, de modo muito semelhante a alguns histéricos, que também assumem qualquer papel a qualquer inclinação. É impossível ao homem dionisíaco não compreender à fundo qualquer sugestão, ele não ignora nem o mínimo sinal telepático de afeto, tem o grau mais alto de instinto compreensivo e divinatório, tal como possui o grau mais alto da arte de comunicar. Ele entra em qualquer pele, em qualquer afeto, obedecendo à princípios muito rígidos de espreita; ele se metamorfoseia sem cessar (.) ------, concluí. Uma questão de coragem: manter o olhar fixo na escuridão, mas também perceber nela sua luz dirigida à nós, pobres mortais, afastando-se infinitamente de nós. Esse estado de urgência no qual mergulho sempre que olho para você é intempestividade pura. E nada disso tem a ver com a idolatria das estrelas de cinema. Apenas a expressão empobrecida de personalidades dispersas; claro, com tudo o que o fenômeno comporta de fabricação , exigências subjetivas, fantasmas e delírios publicitários. Falando-se, mesmo agudamente, de alienação e dependência psicológica do público, só se vê ainda uma parte desse fenômeno de massas. Mas honestamente, acho que pelo caminho da adulação de estrelas ainda pode surgir alguma coisa de valor sociológico, .ter um ídolo é para os jovens de hoje demonstrar, na ambiguidade, sua própria individualidade, maneira mais econômica, em tempos de recessão mundial, de se chegar à uma forma de identidade de grupo (.) ------, ela disse. ''Eis uma mulher imponente mesmo de pijama '' (pensei : os opulentos peitos descobertos. Sobre uma base forte. Lábios cheios. Como ela, todas as outras figuras de mulher do meu pensamento nasciam de formas vagas, pouco articuladas e colhidas aleatoriamente, contra um fundo opaco de sensações extintas. Restos de claridade que pareciam tecer à minha frente, sem parar, uma série contínua e imprevisível de sinais, pensamentos, construções indescritíveis do inconsciente coletivo , todo um entrelaçamento de asas infinitamente mutável e fugaz que , de um instante para outro, tornava-se legível como uma revelação. Meu último passeio no pacto de Verona tinha sido para ir ao cinema, assistir, em segredo, o filme que ela protagonizara recentemente. Modéstia à parte, eu era um belo espetáculo para os olhos dela, com minha mala na mão, perto da porta. Mas pensava que, quanto antes estivesse no bar do aeroporto, com o segundo ou terceiro uísque descendo pela garganta, tanto melhor. Ela quis saber o que eu tinha feito na rua e lhe contei sobre o filme. ----- E o que você achou (??) -----, perguntou-me, aflita. ------- Hanhãn (respondi) muito interessante (.) -----, depois caminhei lentamente até a porta e disse ''ciao''.
K.M.
sábado, 19 de novembro de 2016
?! (10)
Que talvez sim. Naquele momento era talvez o que eu esperava que acontecesse, mas mesmo para esperar era preciso ainda outra coisa, um abandono total das expectativas, livrar-me da sujeição da imagem dela e ambicionar apenas o abismo da consciência no qual eu vivia e sua poderosa luz. Verona by night e ponte Risorgimento: minha mão pularia do seu joelho para os seus seios, mergulharia nas suas coxas, voltaria para seu pescoço e seu rosto e sua boca encontraria nela, ainda, o emblema do mais profundo respeito encharcada das babas proibidas. Não seria a primeira vez que eu içaria minha mão à um volume feminino dançante, menos pela alegria de ler nela o último refúgio do meu pensamento do que pela sensação indefinida de estar fazendo algo que agradava aos deuses. ----- As estrelas de cinema não são mais seres completamente superficiais (eu disse , rindo) como todo mundo agora, nestes tempos de redes sociais, elas também aspiram `a exprimir-se com ''profundidade'' ; à testemunhar, relatar, ''pensar'', passar mensagens de auto-ajuda para a ralé e dicas ''super-legais'' de sucesso... essa avalanche residual de sub-mercadorias do estrelato é legião nas autobiografias das estrelas (.) O sucesso delas abre uma porta para a diversificação mercantil, a Caixa de Pandora dos sub-produtos do sucesso pessoal pede a utilização do nome consagrado em todas as direções . O melhor trabalho da publicidade atual se encontra nesses ''restos'', espécie de vibrante carniça do sucesso que fulmina o público aficcionado, fechando o círculo da alienação total. A celebridade aqui induz uma probabilidade de sucesso ali. Ahhaaaa (!) ''Via estrelas de cinema'' pode-se ampliar a audiência em qualquer meio , e colocar qualquer desconhecido nas melhores condições para o sucesso imediato (.) ------, eu disse. Meu desejo por ela, naquele momento, se balançava na fumaçadas minhas palavras, de mansa, mas desesperada esperança ; eu pedia à ela apenas para ir além, pedia como um cavalheiro, explicando que, caso contrário, eu daria meia volta imediatamente. Que eu não gostava de jogos que não sabia jogar direito e que preferia ficar sozinho para sempre do que à mercê dos seus altos e baixos estéreis, que só me empurravam para o final da lista. O dinheiro e a posição social certamente lhe davam um direito absoluto para brincar com meu coração, o que me incomodava. Conhecendo a fundo o país dos sonhos, eu conhecia também todas as consequências das provas e dos perigos míticos que continuavam a recomendar-me mais prudência e distância das brincadeiras de mau gosto dos outros, e pelo próprio bem deles. A fuga imprevisível das barreiras espaço-temporais que eu atravessava começava no famoso ''tarde demais'' do atrasado, arquétipo de todos os fracassos sociais, e ia até a solidão absoluta do último compartimento da intuição intelectual, onde a luz da consciência fazia de qualquer um rei dos homens. O medo de perder a ligação com o mundo dos vivos era substituído pelo aconchegante horror das regiões desconhecidas da consciência. ----- Similia Similibus (eu disse) A anestesia de um medo pelo outro é a salvação do andarilho das estrelas. Sem perceber bem como, sinto-me subitamente envolvido numa luta de gigantes muito maior que o mundo; e reconhecendo dessa luta a luz da minha própria consciência, testemunho mudamente o combate entre os deuses da anestesia e do pânico. Os enigmas não resolvidos são facilmente deixados para trás, quando se acelera a vibração da consciência. E a incerteza do futuro é um copo cheio de ácido, onde o pensamento ferve até se dissolver. Só me pergunto como alguém ainda pode dar conta disso numa sociedade com inclinação científica e tecnológica. Como explicar esses transportes diabólicos (?) E se sou eu quem responde minha própria pergunta, é justamente porque a chave de toda a modernidade está oculta no imemorial e no pré-histórico. A permanência do sentimento mágico no seio do mundo racionalista é a arqueologia de um presente que nunca regride ao passado remoto, restando dele em nós uma vaga intuição de estados não vividos, incessantemente tragados em direção à origem do universo (.) ------, eu disse. Ela me ouvia calada, na margem oposta do que deveria ser um verdadeiro encontro amoroso. Ainda não era de forma alguma o que eu esperava. Era, antes disso, algo que eu temia e não desejava vivenciar. E se naquele segundo eu não era capaz de saber se suas mãos e sua boca cairiam sobre mim de repente como uma violadora diante de sua presa, ou se ela estava apenas me torturando gratuitamente como uma idiota, também não seria eu quem faria faria o primeiro gesto de entrega. Tampouco cuspiria em sua cara e passaria a enumerar seus defeitos e fraquezas. Naquele silêncio em que tudo ameaçava afundar de uma hora para outra, eu não ouvia nem sua recusa nem seu coração. Só via rostos desconhecidos dizendo que não me entendiam, e que mais uma vez tudo era culpa minha. Eram os mesmos rostos do passado, da minha infância, da minha vida inteira. Os mesmos rostos que eu retorcera, agora ressurgidos. ----- Indigestão de confidências, entrevistas, indiscrições relacionadas ao deus da escrita. O que impede o acesso ao presente imediato é exatamente a massa daquilo que, por alguma razão, nele não conseguimos viver. O que transporta os amantes mais fervorosos não são as qualidades humanas, físicas ou psicológicas, longe disso, nem uma mensagem de salvação, e sim o charme de uma imagem sublimada e estetizado, fabricada pelo próprio amante, e que o tempo todo ameaça não existir (.) E não será essa imagem tão amada a lançadeira do tear que perfura incansavelmente , ao ritmo de suas rodas mentais, a urdidura, o livro do herói (??) Mas querendo dar graças aos pequenos altares das palavras móveis e coloridas que, oficiando minha curiosidade, faço passar do devaneio fantasmagórico ao delírio das sensações, envolvidas na terra que voa como um cachecol flutuante, sinto por algumas horas percorrer minha espinha o frêmito do suspense e o ritmo elétrico da kundalini -----, eu disse.
K.M.
?! (9)
Só tendo encontrado na auto-observação (até hoje) um ''mau olhado'' meu voltado para mim mesmo, concentrei toda minha atenção no terceiro olho. Mesmo assim, tais quimeras ainda viciam o pensamento de muita gente : destaco psicanalistas freudianos e budistas ocidentais de segunda mão. Só os verdadeiros psicólogos da humanidade, um Dostoiéviski, um Charles Baudelaire, assim como grandes pintores como Cézanne e Van Gogh, eram capazes de deixarem aos próprios instintos, à sua ''câmera obscura'' , a filtragem e a expressão do ''caso'', da ''natureza'', do ''vivido''. À essas consciências chegava apenas o UNIVERSAL, a CONCLUSÃO, o RESULTADO. Livres de todas as abstrações arbitrárias do ''caso individual''. Eternos. SOBRENATURAIS. Mas o espírito igualitário e democrático, ao agir sobre o show-business de maneira diametralmente oposta, alcançou outro resultado: toaletes, fotos, medidas ideais, generosidade mamária, enfim, a idade de ouro de Hollywood não abandonou imediatamente o esplendor dos excessos e a magia dos ideais , mas estruturou progressivamente uma formação de compromisso com o povo que paga pelos ingressos. E, presentemente, tudo indica que o processo de ''humanização'' das estrelas de cinema, de erosão da dessemelhança, de desencantamento mítico, foi um erro publicitário grosseiro da indústria cultural (.) ------, eu disse. À isso, veio juntar-se, naquele instante, qualquer coisa de muito diferente de nossa fome. Talvez uma disponibilidade crescente de nossos nervos, tenha feito ela dizer: ----- Não há dúvida de que esse é o tempo das estrelas de físico ''insignificante'' ; seduzem, ainda, mas não mais porque são divindades extraordinárias, e sim porque são iguais às pessoas comuns. Não é mais o povo que se parece com elas, elas é que se parecem com gente do povo (.) Aparências normais, sem particularidades ostensivas ; antes as estrelas eram super-modelos, agora são só reflexos de meninas bonitas num shopping. O povo agora quer estrelas ''gente boa'', ''acessíveis'', que namoram homens feios e engordam na cintura, que irritam-se com familiares e cultivam pequenos hábitos sujos. Querem estrelas plebéias (.) -----, ela disse. Súbito, passou-me um calafrio pela espinha. Comecei a sentir-me só ao lado dela, ao perceber que ela não era nada daquilo que descrevia. Talvez fosse até mesmo um dos últimos exemplares de uma espécie em extinção. E não era por estar sonhando com fantasmagorias das mais requintadas que me dei por satisfeito, ao envolver-me numa profusão de palavras. Senti que, de um instante para o outro, tinha agora a oportunidade de mandar os meus sentidos, todos presos à rédea como cavalos bravos, para as valas e os abismos dos mais elementares divertimentos crus da minha mente. Com o nome dela no meio de tudo aquilo, que agora misturava o perfume da minha solidão de escritor com aquele que vinha do seu pescoço, dos seus seios, das suas pernas, eu me perdia numa tempestade mental de letras de fogo: nomes, vozes, perfumes, músicas, temas e vinhos. Apenas cerca de uma hora depois foi que um sussurro dela nos meus ouvidos me fez levantar os olhos. Pus-me imediatamente a observá-la com atenção, enquanto ela falava: ------ O código da proximidade comunicacional, a descontração, o contato, o psicologismo midiático. Todos esses valores ''psi '' nos quais as massas estão mergulhadas prenderam também as estrelas de cinema na grande rede de monotonia terrestre (.) ----- ela disse: ----- Restaurants du Coeur (continuou, quase sem ar) O fenômeno não exprime apenas um apelo ideológico coletivo, mas traduz também a irreprimível democratização do estrelato. A massificação do estrelato. A vulgarização do estrelato. Os ídolos de Hollywood não se contentam mais em associar-se exteriormente às grandes escolhas das eleições democráticas; agora eles também coletam fundos participativos, criam associações ecológicas, associações de caridade, associações de auxílio mútuo (risos), engajam-se pelos mais deserdados dos homens (!!) Os semideuses do super holofote hollywoodiano apanharam seus bastões de peregrinos na lata do lixo da história e voltaram para o meio dos homens comuns, mais sensíveis aos flagelos da humanidade que um filhote encharcado de cão (. ) ------, ela disse. Ao perceber isso, senti-me orgulhoso, e apoderou-se de mim uma grande felicidade. Não havia nada em mim, para ela, que me assemelhasse à multidão. Então, saciado, guardei minha caneta e senti um ruído de papel no bolso. Era uma página do Impero, um jornal fascista dos anos 1920, que eu havia comprado de um colecionador, um dia antes. Estava escrito na coluna: ''A psicologia barata apenas estreita a realidade; ela traz para casa um punhado de coisas curiosas todas as noites, mas veja-se o resultado: um monte de borrões sentimentais; no melhor dos casos, coisas compostas de sentimentos berrantes. Estimada artisticamente, a natureza nunca é um ''modelo''. Ela deforma tudo. E o ''estudo segundo a natureza'' é um péssimo sinal: revela submissão, fraqueza e fatalismo diante do Fogo. Ficar deitado na poeira dos pequenos fatos da natureza é indigno de um ''artista inteiro'', de um ''Mestre do Fogo''.
K.M.
?! (8)
Um sonho afinal de contas, os cortes arbitrários em que tudo oscila sem motivo aparente, tesouras manipuladas por manobras mentais, e de repente veio às nossas bocas o abismo do paladar. Após vencidos o fastio e a falta de apetite, as últimas curvas, nossa vista se abriu sobre uma inesperada paisagem de palato: uma maré revolta de gula contínua e esverdeada, que só conhecia as ondas fibrosas e pastosas da polpa das frutas abertas à faca no prato. ----- Quem sempre foi comedido no comer (eu disse à ela) nunca soube o que é uma refeição à sério; o prazer de comer não é a gula, esse desvio da estrada plana do apetite que conduz à selva da gulodice. Ah, a desmedida do desejo e a uniformidade daquilo que o sacia. Comer sem deixar resto (!) Assim se chega mais ao fundo da coisa devorada do que pelo prazer de comer (.) ------, concluí. Estávamos em Verona, no presente e em San Zeno, mas era um hotel à espanhola, uma vasto pastiche com enormes esculturas goyescas no pórtico de entrada ; e sem transição estávamos de novo numa cama cheia de pecado e traições, onde profanávamos três altares ao mesmo tempo. Deitáramos na diagonal, sem sapatos, numa espécie de abandono satisfeito que pouco tinha a ver comigo. A estrela dela, mais próxima do real e de seu maior espectador, expandia-se ao meu lado combinando o sex-appeal contemporâneo com o de Brigitte Bardot e M. Monroe, des-sublimando a imagem da diva inacessível por um erotismo natural. Olhando para uma vela à minha frente, eu sorvia um gole de café para mim e outro para ela, até que os restos de chantilly viessem dar à borda espessa da xícara, amplo promontório onde repousavam meus lábios. ------ Prometi à mim mesmo nunca mais praticar psicologia barata (eu disse) Nunca mais observar só por observar. Isso resulta numa ótica falsa, estrábica, em algo forçado e exagerado. Em todo caso, o trabalho da democracia no Ocidente retirou as estrelas de cinema daquele universo sagrado e distante das décadas passadas, e suas vidas privadas agora estão em todas as revistas; seus atributos eróticos, nas telas e nas fotos; vemos todas elas tranquilas e sorridentes, mergulhadas em situações mundanas, atrás das câmeras, em família, na cidade, de férias (.) corrente de dessacralização democrática que ainda não chegou ao fim, inventando estrelas cada vez mais realistas e palpáveis.
K.M.
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
?! (7)
----- Tenho de confessar à você que vi a coisa chegando como uma visão bíblica do Antigo Testamento (ela disse) Primeiro, aos poucos; o combustível que alimentava seu fogo no começo era a mais pura vaidade. Você e aquela eterna máscara mortuária fotografando-se incansavelmente no espelho. Mas em pouco tempo a coisa evolui para um mar de chamas tão turbulento, que já não fazia mais sentido falar em vaidade. Subjacente àquele rosto imutável, foi espantoso para mim constatar que não havia absolutamente nada, nem vaidade, nem caráter, nem história, nem honra, nem mesmo infelicidade. Não havia absolutamente nada. A exposição dos seus textos, por si só, tornou-se um dos mais fortes efeitos que se fizeram sentir sobre quem os lia desde o começo. Os americanos (em especial) colocaram em prática toda sua estupefação, interpelando seus pseudônimos a partir dos mesmos anúncios luminosos de Hollywood, o que te tornou famosíssimo (.) ------, ela disse. Ela relacionava minha pessoa, obviamente, ao conteúdo de um sem número de profecias recentes. Mas o que se passava então era o seguinte: a imagem interior do meu ser, que trago comigo o tempo todo, revelou-se para ela o que de fato era: de minuto a minuto, uma pura improvisação. Isso fazia de mim alguém mais atento e vivo, quando o assunto era a consciência intensificada. Permitia-me orientar as reações dos outros com clarividência, totalmente pelas máscaras que lhes apresentava em cada ocasião. ------ Compreendo o que você quer dizer (eu disse) Minha condição difere da sua por não estar fundada no princípio de identidade permanente de uma estrela de cinema. Não busco a encenação midiática de uma personalidade, usando o sistema de pequenas variações tópicas da moda para sofisticar a encenação do próprio corpo. Absolutamente ! Ao transformarem suas personalidades numa grife de sedução, a personalização das aparências de uma estrela não chega a constituir nenhum arsenal de máscaras. As estrelas apenas redefinem, reinventam, de quando em quando, aqui e ali, o perfil e os traços de sua personalidade. E é da natureza de seu meio essa ambição liberal de re-fabricar, remodelar sem modelo preestabelecido para maior glória de uma personalidade radiante. Por isso, nada alegra mais uma atriz do que ver alguém inusitado se aproximar dela com uma caixa cheia de máscaras exóticas, mostrando à elas os exemplares mais raros, a máscara do assassino, do magnata das finanças, do comunista, do Presidente da República, do navegador de longo curso ; máscaras reais, não apenas cinematográficas. Máscaras que fazem rizoma com a realidade concreta, sem a intermediação da tela. E ver através de tais máscaras deixa a todas elas encantadas, como se estivessem diante do deus Dioniso em pessoa. Nessas ocasiões, elas relembram as constelações e momentos mais marcantes em que de fato foram outras nos filmes que protagonizaram. Na verdade, todos os seres humanos aspiram ao êxtase privilegiado desse jogo de máscaras caleidoscópico, mas só quem sabe viver integralmente através disso é o iniciado nos mistérios da consciência (.) ----, eu disse. ----- E porquê (?) -----, perguntou-me ela. ----- Porque (?) Responder à isso seria mostrar-te uma máscara a mais. Uma máscara de olhos inescrutáveis, como uma sonda insaciada que volta novamente à luz saída de toda profundidade da consciência, esse mar de imagens indescritíveis. Mas, digamos que o iniciado saiba como transportar instantaneamente qualquer pessoa para uma daquelas pausas silenciosas supremas do destino, em relação às quais só mais tarde alguém percebe que elas continham o germe de um destino muito diferente daquele que nos coube de fato. As pessoas, e as atrizes em especial, apressam-se a dar-me razão quanto mais avidamente eu as faço sentir subindo de suas entranhas aquelas sombras falantes de vidas não vividas.
K.M.
?! (6)
Quando as palavras chegam e batem seus pequenos martelos no verdadeiro amor até arrancarem dele a imagem perfeita, tal imagem geralmente nos aparece como que saída de vivências demasiado ofuscantes, num relevo duro de sombras profundas. E certamente havia muita coisa ali , mas protegida e na sombra. Era-me penoso furtar-me ao presente excessivo da tarde, tendo diante de mim a manhã ao anoitecer e o dia durante a noite. Tudo isso num quarto de hotel que, sem ter qualquer inclinação, era o mais bem acabado exemplo da mansarda do poeta germânico exilado nos trópicos que se pode imaginar. Eu vivia sentado ali à medida em que as horas me transformavam, com seu suor de segundos, num grande bibliófilo e bibliômano, num explosivo no qual se ia acumulando uma quantidade cada vez mais formidável de energia. Assim também ''ela'' tinha, na sua personalidade, mais que na sua beleza, o imperativo soberano de uma estrela. Conquistara-me facilmente pelo tipo raro de mulher que conseguia impôr na tela. Greta Garbo (eu pensava) encarnava a mulher inacessível e altiva; Catherine Deneuve, a sensualidade glacial. E eu era certamente a combinação perfeita entre Clark Gable e Clint Eastwood: o tipo exemplar de homem viril, cúmplice e impudente daquele, com o homem cínico, eficaz, duro deste. Mas ''ela'' era mais, muito mais que uma mera identificação clássica. Sua estrela jorrava a luz de uma personalidade construída a partir de dotes físicos e ''papéis'' psicológicos tão estratégicos, que o arquétipo primordial de sua personalidade , muitas vezes, aparecia por cima desta, uma super-personalidade que se tornara a grife ou imagem de marca da divindade cinematográfica por excelência. Aquela não era a primeira vez que ela vinha me visitar naquele hotel à beira-mar; na primeira vez , quando ainda não nos conhecíamos pessoalmente, eu entrara no táxi com ela e, no banco de trás, colocara minha mão sobre a dela sem pronunciar palavra. Depois levara a outra mão por baixo da estola de seu vestido, e em pouco tempo estava acariciando a parte interna das suas coxas enquanto ela admirava as praias pela janela. Uma experiência, para mim, apenas comparável à daquela tarde em que a voz de Hofmansthal desceu de repente sobre meus escritos e a brisa de diamantes do Lógos, vinda dos confins do universo, passou através de mim como um cometa. ----- Foi assim que uma voz verdadeiramente hermética passara a escoltar cada uma de minhas palavras (expliquei à ela ) Subindo o rio de Lenau para conduzir minha mente àquelas alturas intransitáveis onde, à sombra de Holderlin, Jean Paul, Bachofen, Nietzsche e Artaud,renovei totalmente a comunicação humana (.) ------, eu disse. Que agora meu destino sobre a terra fosse o de um deus que à muito se emancipara de qualquer mitologia, isso eu já o demonstrara nos meus últimos trabalhos. ------ De qualquer forma (continuei) ''Hermes'' é, no sentido mais rigoroso e mítico, não só o deus da comunicação, o grande mensageiro, mas,mais precisamente, aquele que como nenhum outro se equiparou aos maiores arquétipos do universo, à eles se ligando de uma forma nova, insuspeitada e radiosa, mais efêmera e mais pairante. Que mais não fosse pela inquietação que me faz estar sempre em movimento, e pelas muitas intuições e impulsos que, do mundo antigo dos Germanos ao dos judeus, me prepararam para acolher em mim mesmo toda a tradição primordial de sabedoria e toda a experiência acumulada dos séculos. Acumulada, poupada e guardada com vistas ao caso de, tendo a tensão nas massas humanas se tornado grande o bastante, o mais acidental dos estímulos chamasse ao mundo o o Gênio, o Lógos, a ação, o grande destino (.) ------, eu disse. Ora, que me importavam, então, o ambiente, a época, o ''espírito da época'', a ''opinião pública'' (?) Nessas ocasiões, eu só conseguia pensar em Napoleão Bonaparte. A França revolucionária (eu pensava), e mais ainda a pré-revolucionária, teria certamente produzido o tipo oposto à Napoleão, e também produziu em larga escala tais tipos. Mas porque Napoleão era diferente, herdeiro de uma civilização mais forte, mais prolongada, mais antiga e mais gloriosa que aquela que caía aos pedaços na França, ele se tornou seu senhor, e seu ''único '' senhor. ------ Para se chegar alguma vez à isso (eu disse à ela) é sempre necessário uma abundância muito grande de grandiosas abreviaturas. E a maior parte das que eu tornei conhecidas, nos últimos tempos, apenas puderam alcançar um grau tão elevado de predomínio e universalidade graças às fórmulas espantosas do meu espírito irônico, caracterizando o mundo dos meus pensamentos tão bem quanto o da minha escrita, da qual um velho grafólogo porteño da internet, disse outro dia que ela precisava ''de uma chave para poder ser lida na sua inteireza''. Ele disse ainda : ''Ela se assemelha à quem a escreve por ser um incomparável esconderijo de imagens ''. E ele tinha razão, pois nela vivem, habitam, alojam-se, imagens, sabedorias , palavras e poderes que não se pode dizer se teriam se afirmado com tanta força nos nossos dias sem a força correspondente da minha pessoa (.) ------, eu disse. Quando descemos na portaria do hotel, eu já havia me transformado na versão ninja shaolin de D. João, o felizardo do amor. Meu segredo era o modo como eu, em todas as minhas aventuras, convocava fulminantemente e em convergência absoluta a decisão e a arte de bem fazer a corte ; a forma como eu representava instantaneamente a esperança no êxtase e antecipava a decisão ao fazer a corte. Aquele ''de-uma-vez-por-todas'' do prazer e a imbricação do tempo dela com o meu só podia ganhar mesmo uma expressão musical muito grandiosa dentro daquele quarto, quando batemos a porta atrás de nós. Nenhum hotel de gala do terceiro mundo tinha um preço tão exorbitante que não pudesse oferecer por uma mixaria o bilhete de entrada na natureza criada por Deus, sabiamente enfeitada pelas mãos dos homens de negócio. Ao penetrarmos na sombra fresca daqueles vítreos e amplos salões, olhando pelas janelas grandes e baixas, a implacável verdade da vila marítima nos ensinava à deitar um olhar mais ameno ao mar.
K.M.
?! (5)
Quando eu me perguntava por que ela resistia em vir me visitar onde eu estava, sentia-me subitamente tomado pela insondável umidade gotejante do calor à minha volta, pelo aguaceiro sujo correndo sobre vigas verrugosas de mariscos rosados no píer; por cúpulas amarelas de limões descendo até caixotes de verduras e borbulhando através de condimentos de animais esfacelados no próprio sangue. Tudo aquilo estava à venda na rua. Era inacreditável. No meu último e-mail para ela, escrevi: ----- O egoísmo vale tanto quanto vale aquele que o possui ; pode valer muito ou pode ser vil e desprezível. Por mais pobre que seja a cidade onde eu esteja, dentro do hotel aqui em frente todas essas porcarias da feira são cortadas, coadas, agrupadas por nomes na geladeira, contadas e recontadas, abertas, lavadas, congeladas e descongeladas, rejeitadas, selecionadas, preparadas e finalmente servidas para os turistas saborearem extasiados. Trabalhei como garçom nesse hotel quando era menino. Achava incrível trabalhar num hotel cinco estrelas. Eu me sentia chique. Preferi trabalhar ali do que como office-boy da universidade. Mas voltando ao assunto, se formos capazes de encontrar um cânone comum para o nosso egoísmo, é o todo de nossa vida que dará um passo adiante. Além do mais, nosso amor vai muito além de um problema de dieta. Basta lembrar os expedientes com que o Imperador Júlio César se defendia de suas pequenas dores de cabeça: marchas longuíssimas, um modo de vida dos mais simples e rústicos, permanência ininterrupta ao ar livre, fadigas constantes e saturação sensorial. Mas estes são, num cálculo grosseiro, as medidas gerais de proteção e conservação contra a extrema vulnerabilidade dessa máquina sutil e que trabalha sob pressão máxima chamada gênio (.) -----, escrevi. Meu e-mail era certamente de uma indolência sem vergonha, mas na ressaca dos meus lábios espumejantes batia sem parar a lembrança dos seus seios. A pressão de mil atmosferas sob as quais eu me comprimia naquele quarto de hotel, onde eu me erguia e me empilhava à sua espera , tinha força suficiente para me pôr mais uma vez à prova entre suas coxas e seios; e a volúpia que, nas cascas das minhas histórias inacabadas, arrancava ao meu mundo de pedra um coração de veludo roxo, entremeava meu pensamento com agulhas e pregadores de roupa íntima. O e-mail continuava assim: ----- Não estou te convidando para conhecer a cidade. Eu mesmo já não ando livremente por aqui. Sou monitorado vinte e quatro horas por dia por todos os serviços de segurança pública da cidade e pelos militares, daqui e de outros estados. Onde eu vou, eles mandam gente atrás. Portanto, sugiro que você desça no aeroporto internacional daqui, entre num táxi e vá direto para o hotel. Não converse com ninguém, não sorria para ninguém. Ficaremos presos dentro do hotel por quantos dias seja necessário. Não há de nos faltar nada lá dentro. Depois, é só fazer o percurso de volta. Sem grandes emoções. Eu prometo. Entenda apenas que o trabalhador cansado, que respira lentamente após feitos e proezas inimagináveis, e cujo olhar pode ter se tornado momentaneamente estúpido e vazio, deixa as coisas andarem como andam por considerar os frutos do seu egoísmo mais cômodos e saudáveis para nós dois. Com isso, eu fortaleço incrivelmente a valoração do meu amor por você. Não tenho dúvidas de que o instinto mais básico dos meus sentimentos por você são uma aspiração de vida. E considero admirável (apesar de tudo) a disciplina a que me submeti para sobreviver nessa cidade. Ao anoitecer, abro todo tipo de livros em que se mobilizam os feitiços perigosos da arte política, e raramente deixo de escrever coisas que despertam os maus instintos de todos os ''envolvidos''. Apetece-me, nesses momentos, saber mais sobre cada infortúnio sem nome causado por certos rituais de magia negra do que sobre qualquer imagem de catástrofe política espontânea que tais livros possam oferecer. Mas como disse minha voz interior, na ocasião da minha morte iniciática: ''Quanto mais afastados do centro irradiante da consciência, mais política se torna a atmosfera de nossos cérebros ''. Depois, olhando-me no espelho, pergunto-me a que ponto pode ter chegado alguém para despejar assim no asfalto virtual anônimo o que lhe restou de seus livros e escritos. Esperar o quê agora, em nome de Deus (?!) Que alguém (preferivelmente você) passe por aqui a horas tardias e seja subitamente assaltada por um irreprimível desejo de leitura (?) E após isto, por um desejo sexual avassalador (?) Ou será qualquer coisa de muito diferente uma alma que aqui está de guarda, alimentando esperanças com as migalhas que você me atira (?) O certo é que, independente das suas reais intenções, cada palavra que eu escrevo eu as escrevo de uma maneira que o destino do mundo me olha a partir delas com mil olhos. Mas isso (já lhe dei a entender) não é a ótica de um pessimista diante do ''mau olhado''do mundo. É (isso sim) exatamente aquilo que o artista trágico comunica de si. Não só o fato de que a pobreza sempre perde, mas justamente o ''estado sem medo'' diante do terrível e do questionável. Para ele, esse estado (e para aflição geral) é altamente desejável. ''Quem o conhece '', pensa o trágico ''honra-o com honras supremas ''. E eu certamente também o comunico , tanto com meus escritos quanto com minha vida. Pressuponho obviamente que sou um artista, ou antes um gênio da comunicação. Minha valentia e a liberdade dos meus sentimentos diante de situações tão desfavoráveis quanto absurdas; diante de infortúnios sublimes dos quais não tenho nenhuma chance de escapar; diante de problemas e situações que despertam horror nas pessoas comuns ------ é esse estado triunfante que o trágico escolhe para si. É esse estado que ele glorifica e, glorificando-o, glorifica-se. O que há de valentia em nossas almas festeja seus melhores e mais raros frutos diante da tragédia. A bebida dessa dulcíssima crueldade consigo mesmo substitui qualquer sofrimento ocasional pela exaltação sem limites das próprias forças. Mas, para muita gente, encontrar palavras exatas para aquilo que elas têm diante dos olhos pode ser algo de muito, muito difícil. Por cima de tudo isso, no entanto, logo estará uma quantidade satisfatória de pó, que aqui, em particular, é composto de sal marinho, calcário e mica.
K.M.
?! (4)
------ Não gosto desses ruídos de comunicação, K (.) Mortifica-me um pouco a perfeição das suas certezas. Tudo em você, às vezes, parece excessivamente claro, e a claridade que você demonstra em certos assuntos esconde seu desejo de evasão para dentro da Sombra. Quando estou com você, após uma ou duas noites perfeitas, sempre acabo acordando de repente, com necessidade de defender-me de alguma coisa sem nome. Depois, tento despojar, pelo pensamento, o disfarce que tal necessidade me impõe e não consigo. Ouço batendo nos meus tímpanos seu último resto de ambiguidade e ela parece-me uma pequena chama em extinção que, no entanto, não se extingue nunca (.) ------, ela disse. Eu ainda não tinha segurança nenhuma, para dizer de que lado dos seus próprios sentimentos ela estava. Por que é que a realidade última das coisas tinha que pôr sua cabecinha oca para fora da toca logo agora ??, eu me perguntava. ----- Muitas vezes (eu disse) explorar o estado em que se encontra alguém que apela aos poderes obscuros da mente é um dos caminhos mais curtos para o conhecimento crítico de tais poderes (.) Cada um desses prodígios, obviamente, tem dois lados ; um voltado para quem o faz, e outro para quem o recebe. O segundo é mais elucidativo que o primeiro, porque já contém em si o segredo deste . Não que se deva temer a imagem grafológica ou quiromântica de alguém, produzida por acaso na própria mente. E é natural se perguntar: ''O que se passa com ele (?)''. Comparar e testar, e tentar tornar as coisas menos confusas. Só poderei desempenhar um certo papel na sua vida se não tiver minha posição constantemente explorada. Estou constantemente sendo atacado e se não é para ter algo diferente de uma guerra ou um inimigo à paisana o amor não vale à pena. Já dei mostras suficientes de que paro em pé sozinho por tempo indeterminado. Mas posso servir em alguma coisa para você. Vejo que todo choque nas suas relações te faz perder a percepção de si e te torna vacilante. Não posso dizer se isso te causa sofrimento ou não, mas me parece natural que todo mundo a quem alguma coisa não correu bem tente guardar para si as consequências disso. E para se proteger dessa possibilidade, muitos calam seus planos mais queridos. Trata-se de um verniz banal, inútil, que esconde nossas verdadeiras motivações. Por baixo disso, há uma segunda camada, sob a forma de um vago enfraquecimento de energia por ação das descargas emocionais inconscientes; o homem iniciado nos mistérios conhece de perto tais condicionamentos, porque não tem mais corpo emocional. Sabe , inclusive , que a essa segunda camada se segue uma terceira, em que a idéia de subir, como se fossem degraus para um trono, de volta para superfície maculada, substitui nossas emoções por superstições. Bem outra é a situação de alguém após uma série de derrotas, o que não é o seu caso. Quando o iniciado aprende todos os truques para se pôr novamente de pé, se banhando e logo se lavando do sangue de dragão de suas lembranças; quando alguém conhece a fundo sua própria força, não conhece honra, preocupações sociais, auto-importância, nem medo do ridículo, nem postura; nem tem nome, nem pátria, círculo de amigos, consolo ou ilusões; tem sua morada apenas na sua força vital , amplificada pela expansão da consciência. Quando moramos dentro de nossa própria consciência, podemos, muitas vezes, parecer estúpidos ou inacessíveis, vulneráveis ao jogo de aparências do mundo, que procura se vingar de nossa indestrutibilidade nos apresentando como trapos autistas abandonados dentro de um fosso. Procuram nos apresentar acuados, quando na verdade estamos saltando por cima de todos os obstáculos, revolvendo e desinfetando um monte de porcarias do passado e profanando o mundo com nossa língua venenosa. Mas quando estamos assim, aparentemente sujos dos pés a cabeça, é que somos invencíveis (.) -----, eu disse.
K.M.
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
?! (3)
O invejável e compacto coração inequívoco, obrigando-me a refazer o exame que em outros planos eu só tinha sido capaz de fazer diante do espelho. Arrancar-me a máscara do convencional e armar o cerco estrategicamente, pronto para o aceno onde se alinhariam em ganchos todos os emblemas da virilidade, passando através de várias noites vazias, até desembocar no mar. Lá em cima , nas ruas desertas do bairro do porto, meus pensamentos eram tão densos e voláteis como as borboletas dos canteiros, nesses climas quentes. Nesses tórridos e solitários recantos, todos os sons e todas as coisas têm ainda seu silêncio próprio, como aquele que é próprio das alturas, onde se ouve ao meio dia o silêncio dos facões ao sol e o bater de roupa molhada, tudo acompanhado do choro de bebês. A caçada aos pensamentos, no entanto, não é livre de riscos por aqui e eu já podia imaginar que, de agora em diante, ela me trataria não como alguém superior, muito menos como alguém destinado à grandeza histórica, mas sim como o espírito vulgar mais fútil e cômico que jamais, e escandalosamente, fora admitido em sua vida. E nada que dissesse ou escrevesse agora, nada em minhas compridas cartas explicando, me desculpando e assinalando que eu não deixara de pensar nela para ir me unir à ninguém, conseguiria dissuadi-la. ----- Como é que você pode ter relação de amizade (ela disse) num espaço de transação de tão impalpáveis e insondáveis mercadorias ?? Quando você mente, suas mentiras não são de criança. São mentiras motivadas, de adulto. Mentiras cabais. Você quer me intimidar com certas idéias, doutrinando a mim e os nossos filhos todos os dias, durante o almoço e o jantar, esbravejando e fazendo o possível para executar uma lavagem cerebral impossível nas mulheres à nossa volta, só para induzi-las a trabalharem pela sua ''causa'' (.) ------,concluiu ela. Seus brincos eram correntinhas de vapores e veleiros, e de seus olhos líquidos saíam dois ornamentos prateados que eu era obrigado a colocar em exame de dois em dois minutos, para não me perder. Eu estava simplesmente sendo esperto, achando que podia contornar o problema com sutileza. Mas não: ao procurar fazer as coisas ao gosto dela, queria apenas minimizar o atrito e garantir que ela me protegesse das ''listas negras''. A cabana onde eu me encontrava era a única coisa remanescente de uma antiga vida de espreitas e, para ela, uma parte descartável do meu charme rude. Mas meu histrionismo, até então, nunca lhe dera impressão ou convicção de amor. Ela me acusava de ocultar-me atrás de uma capa de amor, a fantasia do amor, fraca e vulnerável demais para não se encher de recordações de viagem de uma hora para outra. ----- Não é fácil para mim praticar isso (ela disse) Nas paredes do seu crânio estão afixados extratos de um milhão de cartas pastorais, regulamentando o nível de indulgência permitido para as viagens especiais no trem de luxo de Satã. E é difícil para mim manter-me operacional, na forma de confessionário, para amar um homem determinado a utilizar a cultura de massa para demolir o sistema americano. Se eu me casar com você, será só por amor de mulher, não porque recebi uma ordem do Alto Comando da sua roleta russa panfletária . Ao tentar se infiltrar no mundo do entretenimento americano, para transformá-lo numa função do seu consenso nacional e mundial particular, você se tornou um homem degenerado e astucioso. No entanto, só conseguiu até aqui uma mera circulação temporária de personagens e seu próprio transporte para lugar nenhum; talvez um pouco mais, não muito (.) -----, ela disse. Ouvindo-a, eu me perguntava a quanto tempo ela vinha aturando minhas maluquices com serenidade, quando não havia nenhuma razão para fazê-lo. ------ Mesmo que você leve uma vida ''quádrupla'' (continuou ela) ninguém vai poder te proteger do que quer que já lhe esteja reservado nesse espetáculo. Com a sua língua solta e o seu passado de imagens aceleradas para nada, dificilmente será poupado (.) -----, ela disse. Minha honra é que estava em jogo, essa era a questão. A integridade e sinceridade dos meus sentimentos, e a capacidade de tê-los. ----- Sua exploração cínica, seu parasitismo oportunista, isso tudo é muito degradante em você. Por outro lado, há imensas rachaduras nos papéis que você representa. Outro dia você disse ''Desejo você, venha '' de uma maneira muito franca, impulsiva e direta. Depois parecia ter reduzido todos os seus sonhos à uma caótica tarde de domingo. Você mesmo não se esforça para compreender que me ama. Gentil ou estúpido, nunca expressa seus verdadeiros sentimentos. Passam dias e nuvens sobre você enquanto escreve esse diário de leitura improvável; e então eu venho aqui, leio e releio todas essas páginas e, em seguida, obrigo-me a ver-me de outra maneira, encarando um espelho que me mostra fria e decidida ante suas esperanças. Hoje, em especial, não estou lhe dando uma máscara para beijar. Sei que domino o seu coração, venha (.) ------, ela disse.
K.M.
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