terça-feira, 13 de dezembro de 2016
?! 30
Após o massacre deliberado da população de Kzana, eu tirei meu capacete de fibra, a fim de mostrar meu rosto aos sobreviventes, e o megafone transformou minhas palavras em nuvens, no meio de todos aqueles cadáveres e destroços de prédios na rua. Minhas nuvens de palavras, carregadas como nuvens de tempestade, deslizavam sobre o encapelado mar negro de rostos da multidão. Escolhi um, entre todos aqueles negros, para a expiação geral ; ele estava encostado nas ferragens de um de nossos tanques danificados, preguiçosamente, verificando aquelas unhas manicuradas de branco, aqueles colares de ouro de branco, e assobiando alguma melodia pop de branco, entre seus dentes brancos, numa tentativa de desviar de si minha atenção. Não conseguiu. ------O que vocês vêem aqui ao meu lado (berrei no megafone) é um negro vendido, vestido com roupas de branco e que foi ensinado a vociferar a astuta truqueologia dos brancos. Quem o confirma é a própria relação entre Estado e terrorismo, no nosso tempo, quando nulifica e esvazia de conteúdo toda identidade real e substitui O POVO e A VONTADE GERAL pelo PÚBLICO e a OPINIÃO PÚBLICA. E o que vocês vêem ali, do outro lado, é um demônio cor-de-rosa, aparentemente tão suave quanto um sorvo de leite de bebê no meio da madrugada, mas que na verdade é venenoso como a picada que o escorpião guarda para a víbora. E o que vêem atrás de mim, é a monstruosa fábrica de porcarias dos brancos, asquerosa em seu cheiro e finalidade, parasitando o solo africano e corrompendo a alma e o corpo do nosso povo como a peste. Destruam essa intrusão imunda. Como devem ter percebido, nossas balas e bombas foram todas muito bem endereçadas, e já começaram a fazê-lo. Mas a conflagração total, que começa a partir de agora, iluminará vossos corações para sempre com o fogo da guerra e o clarão das novas explosões, e se tornará o tema de uma grande e inesquecível canção sangrenta que poderão cantar por muitas e muitas gerações. O que estamos advogando aqui é pura violência. Violência contra violência. Contra a violência que produz massivamente, a partir do seio gordo e flácido da Grande Rameira Ocidental , a pestilência espiritual que destruiu a identidade africana, nos transformando num imenso rebanho bovino de pretos consumidores quaisquer. Pois o mundo dos brancos é assim, minha gente, eles destroem , com seus produtos inúteis, todas as identidades sociais, nos quais o esplendor e a miséria de gerações e gerações perde todo seu significado. E na pequena burguesia planetária em que se isolam do resto de um mundo arruinado por eles mesmos, realizam uma paródia repulsiva de ''sociedade comunista sem classes'' , onde as diferentes identidades que marcavam a tragi-comédia da história universal são expostas e recolhidas pela mídia liberal numa vacuidade colorida, acefalada e fantasmagórica. Não estou brincando (!!) Não sou o relações-públicas do Demônio. A Besta , pelo contrário, está justamente onde estão os brancos, bebendo o sangue negro e sagrado de nosso solo, vomitando fumaça e chamas azuis, enquanto defeca os subprodutos esverdeados do petróleo. Eles são criaturas mortais que devem ser mortas por nosso exército imortal que frequentemente se suicida atirando em suas jugulares. O conduto exposto que retira voláteis vapores de gasolina do alto da torre de fracionamento, sob a bola do condensador (.) -----, eu disse, interrompendo-me para acender um cigarro. Estava profundamente admirado de poder dizer tudo aquilo, após horas de bombardeios, tiroteios e assassinatos ; era como reter brasas vivas na boca, temperadas com saliva e café. Pensava que aquela não seria uma guerra de conquistas, dali por diante, ou pelo controle de um Estado por parte de novos sujeitos sociais, mas a luta da violência pura contra a violência batizada dos brancos ; a guerra xamânica dos negros contra os antigos e novos rigores tecnológicos da OTAN. Política e liberdade eram noções muito genéricas para constituírem um objeto real de conflito, naquela parte da África, e a minha única ''solicitação'' concreta, a reabilitação da guerra xamânica de extermínio, parecia estar sendo acolhida entre os sobreviventes. Para eles, por sinal , era isso ou a morte. Nosso soldados não precisaram atirar mais. Permaneceram de pé em seus uniformes verdes e negros no meio da multidão mosqueada que ainda respirava sob o sol escaldante. Havia, inclusive, inocentes rapazes Kzanj que se divertiam com o que estava acontecendo ; rapazes oriundos de tendas de curandeiros e cabanas de grama seca , esperando uma aparição sobrenatural, vinda do deserto, de quem pudessem receber um fuzil e uma ordem para matar
K.M.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário