Certamente, naquele momento, talvez pelo pijama preto que Marina usava, e porque minha atração por ela estava momentaneamente toda tingida de preto, fosse necessária uma injeção de morfina no meu braço, para acalmar meus pensamentos na véspera daquela invasão, que prometia uma pilhagem sem precedentes ao país vizinho. Era sempre ela quem aplicava morfina em mim, como uma espécie de Medéia, ou feiticeira da Cólquida. ''Ganhar ou perder uma guerra (seguia pensando comigo ) é qualquer coisa que, a acreditar no espírito de minha linguagem e pensamentos, penetra tão fundo na trama de nossas existências, que nos torna para sempre mais ricos ou mais pobres em quadros, imagens e descobertas''. E como nós havíamos vencido um número incontável de batalhas, nos últimos meses, à qual estava hipotecada toda a substância material e espiritual de Konam, pode-se avaliar o efeito da morfina nos meus abundantes fluxos mentais, há poucas horas de iniciar um operação bélica suicida. A noite com Marina, no entanto, havia sido notável. Ela insistira tanto no meu ''infantilismo '' guerreiro que percebi que o que ela queria dizer com essa palavra era o contrário de um homem de bem, o que me empurrou ainda mais para minha esfera de calamidades mentais. Voltando a fitar o deserto, pela janela daquele entreposto, na entrada do país vizinho, pensava que em todo o mundo, naquele instante, estava em curso o mesmo tipo de exacerbação, que em Konam, porém, era mais crua que nas outras nações. Uma dissecação e morte de paradigmas que, entre nós, já constituía uma verdadeira e nova religião da guerra. Presente nos corações indistintos dos konangoleses, como a Morte, aquela era uma religião sem Deus, sem proibições e asseverações compensatórias de espécie alguma ; uma religião cujo único rito era o exercício infinito da energia vital, e na qual formas exaustas como a ''busca'' , o voto, a propriedade, a expiação, a lei civil e a consecução de objetivos pessoais não existiam ; uma religião posta à serviço de um dispêndio físico e espiritual cujo único propósito era a entropia, cuja única recompensa era o êxtase, a morte e a pilhagem, uma explosão psíquica caótica e contínua, sem culpa e sem sono. Milhões de pessoas, na África inteira, vinham encenando as provas de uma tal religião. ''O mundo com certeza a importará, se tudo der certo (!) '', pensava comigo. ''Sem lhe dar um nome, obviamente, nem atribuindo a si próprios quaisquer virtudes derivada dela ''. Kzana, sem dúvida, era uma cidade importante para nossos planos, além daquele deserto ; um objetivo oblíquo da minha estratégia que, sem morfina, certamente eu teria evitado, por prometer-nos uma cilada da OTAN. Mas naquela tarde, por aquela janela,meu capricho de Conquistador Sanguinário, meu dever de Chefe de uma Armada que só entendia a língua dos bombardeios perigosos, obrigava-me a marchar até lá e destruí-la. ''Pois não têm se tornado os tiranos africanos (pensei finalmente) estranhos e covardes em relação a seus próprios domínios, nas últimas duas décadas (??) E não deveria o portador de uma nova religião da Guerra, um nova religião da Morte, tentar, através do genocídio, harmonizar não só os poderes, as forças e as facções dentro das fronteiras, assim como também os vazios, as alucinações, a psicose e a megalomania, as esperanças perdidas e o horror através da pilhagem de povos pouco conhecidos (???) .
domingo, 11 de dezembro de 2016
?! 27
'' LÁ (!) '' (eu pensava, fitando o deserto na linha do horizonte ) ''Onde nem mesmo o National Geographic jamais esteve, é que minha imaginação de conquistador de terras se torna realmente civilizacional ''. No estado de espírito em que me encontrava, naquela tarde, as imagens não precisavam da minha atenção para surgirem diante de mim. Sem pretender diminuir as causas econômicas da guerra em Konam, naquilo que ela tinha de mais duro e fatídico, pensava que ela era determinada por discrepâncias entre os gigantescos meios das transnacionais e a total falta de esclarecimento moral de tais meios. Atendendo à sua natureza econômica, o mundo dos brancos colonizadores separava a técnica do espírito. A guerra em Konam era uma insurreição de escravos contra os governos de fachada financiados pelos industriais brancos. Olhando para o deserto, a impressionante velocidade com que brotavam imagens do meu pensamento levava-me para uma longa viagem dentro de mim mesmo. O quadrante oriental sem trilhos que fazia limite com a Líbia e Kanj. Nem escorpiões nem cactos viviam ali, nem mesmo a tenaz Hedysarum alhagi louvada por Caillié . Amplos ''wadis'' recordando águas antigas, planaltos estranhos ganhando forma à força de ventos perversos e sem testemunhas. E o que se encontrava por trás da minha atitude e a do meu exército, era, no fundo, bem parecido com aqueles ventos (não tanto os lugares comuns de doutrinas nacionalistas, mas um arraigado misticismo guerreiro que, analisado à luz da virilidade pára-militar e, logo, oficialmente militar de konam, se apresentava como estranhamento perverso ). De dia, o deserto era cegante, quente e puro, de modo que em alguns declives a areia se transformava em vidro fundido; e de noite a geada estalava as rochas com um barulho de máquina de escrever. Planuras alcalinas geometricamente perfeitas terminando abruptamente como soalhos de base de muralhas metamórficas que se lançavam, impelidas por uma corrente de lava invertida, até as cristas serrilhadas onde até neve já tinha sido vista por exploradores vitorianos, em séculos mais úmidos que o atual. O uniforme de guerra, para mim e meu exército, era nosso objetivo supremo, que desejávamos com todas as fibras do nosso coração. De fato, a mais marcante característica estratégica de nossa guerra, era a de ser uma pura guerra de agressão na sua forma mais radical, incluindo a ''química'' . Nossos boletins estavam todos baseados em recordes de extermínio e níveis de riscos mortais elevados ao absurdo. A vontade mais elevada que conhecíamos era a de proceder nascendo, morrendo e renascendo no deserto tão tenuemente quanto uma violenta tempestade de areia. Para servirmos à pátria, caçávamos até mesmo seus fantasmas mais antigos pelo país ; marchávamos sobre todas as convenções de Direito Internacional, sem nem ao menos termos declarado guerra oficialmente. Certamente, algumas de nossas provocações eram mais dignas que outras, mas todas sintomas de um visionarismo pubertário que desembocava no culto e na apoteose da carnificina, cujo arauto maior era eu. ----- Oficialmente ---- declarava aos países vizinhos, pela minha assessoria de imprensa ----- Minha posição é simplesmente servir ao meu país (.) -----, e o que mais eu poderia fazer (?)O fato era que a criação de uma massa de consumidores acefalados, que a injeção de sangue inferior, de óleo transnacional nas veias do povo de Konam, e a consequente mentalidade burguesa que resultara disso, acabara por separar o exército do povo, que passara a ameaçar, com sua moleza e submissão, os elementos mais aguerridos do ofício de soldado, dentro da Guarda Nacional. Foi como uma doença que tivemos que combater implacavelmente. Um vírus presente na pressa , tão pouco tribal, tão pouco ''aristocrática'', e totalmente jornalística, com que o Homem Branco apropriara-se de nossas virtualidades patrióticas sem antes terem apreendido e compreendido nosso passado. Na nossa guerra havia qualquer coisa que escapava à economia da racionalidade técnica ; na razão de nossa guerra havia qualquer coisa de inumano, xamânico,desmedido, gigantesco e cósmico , algo que fazia lembrar um processo vulcânico, uma irrupção elementar. Uma colossal onda de vida orientada por uma força dolorosamente profunda, compulsiva e uniforme. Aquela era a guerra eterna, a Jihad de que tanto se falava por ali, mas com vestes um pouco diferentes ; e também a última guerra, a guerra total, de destruição de tudo, da supressão e da morte dos mundos. Em uma palavra: A GUERRA PERDIDA ! Mas, ao mesmo tempo, a forma como lidávamos com a impossibilidade da vitória total, dentro de nós, permanecia o tempo todo em progressão. Começava sempre pelo fato de que transmutávamos qualquer derrota ocasional, em meio à insanidades de todo tipo, numa violenta vitória interna, por meio de uma confissão de culpa e horror que estendíamos histericamente à humanidade inteira. Nossa política, que nunca deixara, até então, de fornecer-nos sanguinolentos manifestos à decadência do Ocidente, era o reflexo mais fiel de nossa insurreição.
Certamente, naquele momento, talvez pelo pijama preto que Marina usava, e porque minha atração por ela estava momentaneamente toda tingida de preto, fosse necessária uma injeção de morfina no meu braço, para acalmar meus pensamentos na véspera daquela invasão, que prometia uma pilhagem sem precedentes ao país vizinho. Era sempre ela quem aplicava morfina em mim, como uma espécie de Medéia, ou feiticeira da Cólquida. ''Ganhar ou perder uma guerra (seguia pensando comigo ) é qualquer coisa que, a acreditar no espírito de minha linguagem e pensamentos, penetra tão fundo na trama de nossas existências, que nos torna para sempre mais ricos ou mais pobres em quadros, imagens e descobertas''. E como nós havíamos vencido um número incontável de batalhas, nos últimos meses, à qual estava hipotecada toda a substância material e espiritual de Konam, pode-se avaliar o efeito da morfina nos meus abundantes fluxos mentais, há poucas horas de iniciar um operação bélica suicida. A noite com Marina, no entanto, havia sido notável. Ela insistira tanto no meu ''infantilismo '' guerreiro que percebi que o que ela queria dizer com essa palavra era o contrário de um homem de bem, o que me empurrou ainda mais para minha esfera de calamidades mentais. Voltando a fitar o deserto, pela janela daquele entreposto, na entrada do país vizinho, pensava que em todo o mundo, naquele instante, estava em curso o mesmo tipo de exacerbação, que em Konam, porém, era mais crua que nas outras nações. Uma dissecação e morte de paradigmas que, entre nós, já constituía uma verdadeira e nova religião da guerra. Presente nos corações indistintos dos konangoleses, como a Morte, aquela era uma religião sem Deus, sem proibições e asseverações compensatórias de espécie alguma ; uma religião cujo único rito era o exercício infinito da energia vital, e na qual formas exaustas como a ''busca'' , o voto, a propriedade, a expiação, a lei civil e a consecução de objetivos pessoais não existiam ; uma religião posta à serviço de um dispêndio físico e espiritual cujo único propósito era a entropia, cuja única recompensa era o êxtase, a morte e a pilhagem, uma explosão psíquica caótica e contínua, sem culpa e sem sono. Milhões de pessoas, na África inteira, vinham encenando as provas de uma tal religião. ''O mundo com certeza a importará, se tudo der certo (!) '', pensava comigo. ''Sem lhe dar um nome, obviamente, nem atribuindo a si próprios quaisquer virtudes derivada dela ''. Kzana, sem dúvida, era uma cidade importante para nossos planos, além daquele deserto ; um objetivo oblíquo da minha estratégia que, sem morfina, certamente eu teria evitado, por prometer-nos uma cilada da OTAN. Mas naquela tarde, por aquela janela,meu capricho de Conquistador Sanguinário, meu dever de Chefe de uma Armada que só entendia a língua dos bombardeios perigosos, obrigava-me a marchar até lá e destruí-la. ''Pois não têm se tornado os tiranos africanos (pensei finalmente) estranhos e covardes em relação a seus próprios domínios, nas últimas duas décadas (??) E não deveria o portador de uma nova religião da Guerra, um nova religião da Morte, tentar, através do genocídio, harmonizar não só os poderes, as forças e as facções dentro das fronteiras, assim como também os vazios, as alucinações, a psicose e a megalomania, as esperanças perdidas e o horror através da pilhagem de povos pouco conhecidos (???) .
K.M.
Certamente, naquele momento, talvez pelo pijama preto que Marina usava, e porque minha atração por ela estava momentaneamente toda tingida de preto, fosse necessária uma injeção de morfina no meu braço, para acalmar meus pensamentos na véspera daquela invasão, que prometia uma pilhagem sem precedentes ao país vizinho. Era sempre ela quem aplicava morfina em mim, como uma espécie de Medéia, ou feiticeira da Cólquida. ''Ganhar ou perder uma guerra (seguia pensando comigo ) é qualquer coisa que, a acreditar no espírito de minha linguagem e pensamentos, penetra tão fundo na trama de nossas existências, que nos torna para sempre mais ricos ou mais pobres em quadros, imagens e descobertas''. E como nós havíamos vencido um número incontável de batalhas, nos últimos meses, à qual estava hipotecada toda a substância material e espiritual de Konam, pode-se avaliar o efeito da morfina nos meus abundantes fluxos mentais, há poucas horas de iniciar um operação bélica suicida. A noite com Marina, no entanto, havia sido notável. Ela insistira tanto no meu ''infantilismo '' guerreiro que percebi que o que ela queria dizer com essa palavra era o contrário de um homem de bem, o que me empurrou ainda mais para minha esfera de calamidades mentais. Voltando a fitar o deserto, pela janela daquele entreposto, na entrada do país vizinho, pensava que em todo o mundo, naquele instante, estava em curso o mesmo tipo de exacerbação, que em Konam, porém, era mais crua que nas outras nações. Uma dissecação e morte de paradigmas que, entre nós, já constituía uma verdadeira e nova religião da guerra. Presente nos corações indistintos dos konangoleses, como a Morte, aquela era uma religião sem Deus, sem proibições e asseverações compensatórias de espécie alguma ; uma religião cujo único rito era o exercício infinito da energia vital, e na qual formas exaustas como a ''busca'' , o voto, a propriedade, a expiação, a lei civil e a consecução de objetivos pessoais não existiam ; uma religião posta à serviço de um dispêndio físico e espiritual cujo único propósito era a entropia, cuja única recompensa era o êxtase, a morte e a pilhagem, uma explosão psíquica caótica e contínua, sem culpa e sem sono. Milhões de pessoas, na África inteira, vinham encenando as provas de uma tal religião. ''O mundo com certeza a importará, se tudo der certo (!) '', pensava comigo. ''Sem lhe dar um nome, obviamente, nem atribuindo a si próprios quaisquer virtudes derivada dela ''. Kzana, sem dúvida, era uma cidade importante para nossos planos, além daquele deserto ; um objetivo oblíquo da minha estratégia que, sem morfina, certamente eu teria evitado, por prometer-nos uma cilada da OTAN. Mas naquela tarde, por aquela janela,meu capricho de Conquistador Sanguinário, meu dever de Chefe de uma Armada que só entendia a língua dos bombardeios perigosos, obrigava-me a marchar até lá e destruí-la. ''Pois não têm se tornado os tiranos africanos (pensei finalmente) estranhos e covardes em relação a seus próprios domínios, nas últimas duas décadas (??) E não deveria o portador de uma nova religião da Guerra, um nova religião da Morte, tentar, através do genocídio, harmonizar não só os poderes, as forças e as facções dentro das fronteiras, assim como também os vazios, as alucinações, a psicose e a megalomania, as esperanças perdidas e o horror através da pilhagem de povos pouco conhecidos (???) .
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