domingo, 11 de dezembro de 2016

?! 28

----- Mas tudo não passa (eu disse à Nancy) da ''manifestação do vital sobre o racional'', o que , sem rigor nenhum, tem servido para fundamentar um embate político sério entre esquerda e direita que é intelectualmente desnaturado. A milenária luta entre o córtex cerebral e o diencéfalo termina, aparentemente, com a vitória do córtex, e o vital é suplantado pela racionalidade mecânica: os relógios, as matemáticas, o hedonismo, o mercado financeiro, os plásticos , a televisão e a súbita intervenção de uma canção boba que é o tema de encerramento do processo. Desejam ainda uma ironia autêntica aqui ? Estou usando a literatura para me converter num produto televisivo de primeira grandeza, um gênero com limitações próprias do gênero ( meu auditório dividido entre os vencedores e os perdedores da globalização, onde um painel eletrônico cheio de itens coloridos evidenciaria que o diencéfalo subjugado não renunciara de todo e se retraíra estrategicamente na escuridão cheio de furor e ressentimento, preparando para atacar a elite triunfante com enfermidades psico-somáticas, psicoses sociais, rebeliões de massas, insurreições de oprimidos, enquanto as empresas seguem fazendo uso da concorrência com outros países para baixar os salários e buscar trabalhadores mais dóceis. Os vencedores da globalização, à minha esquerda, demonstram, em suas relações de gráficos, aquele senso de responsabilidade com o próprio dinheiro tão típico dos judeus, enquanto algum perdedor do outro lado os ataca dizendo que, quando se é perseguido há mais de dois mil anos, uma tática suja de sobrevivência é desenvolver aquele tipo duvidoso de consenso. ------ São os judeus de sempre quem contam as piadas e têm as novas idéias (!) ----, protestarão (eu disse). ------- Eles são mesmo especiais (observou Nancy) Nesse ponto a Bíblia tem razão. Até quando eram realmente de esquerda, nunca pareciam tocados pela eletricidade humana. Nunca chegaram a se impressionar com a imposição de cores aberrantes dos anos 1960, nem com a arte irracionalista, ou a moda, ou a feminilização do mundo inferior presente nos discos de rock, ou com os hippies e os cigarros nas bocas das mulheres, nem mesmo o sufrágio universal lhes pareceu algo apaixonante; sempre tiveram na conta de algo totalmente ilusório a esperança de um crescimento econômico compartilhado entre nações amigas; miragens eram o que viam nas promessas do território sem fronteiras no seio luminoso da Aldeia Global. Certamente continuam sendo os indivíduos de maior inteligência, o que não é muito delicado da parte deles. Muitos deles fazem vistas grossas ao Deus Pai-Urso luterano como uma forma de astúcia para nos fazer crer que se aproximam de nós com boas intenções e fraternidade de pensamento, mas a única idéia de progresso que conhecem é o liberalismo (.) ------, alguma dimensão da mente dela se prolongava no espaço da sala, propondo uma série de curvas à minha, e ambas as mentes estavam agora acrescidas também dos problemas de nossa vida doméstica: catálogo de remédios no armário, combinações de consciência alterada, amabilidades negadas a parentes distantes, vulgaridades entre eu e a arte. Eu poderia perfeitamente ter baixado a crista naquele instante, e tê-la confortado com certa passividade acrítica da minha parte, convidando-a para passear num daqueles lugares silenciosos que tanto a atraíam: parques, jardins ou restaurantes com música ambiente de regatos no meio da floresta. O conceito de Paraíso de Nancy tinha a ver com copa de árvores altas a se balançar ao vento, exibindo os dorsos escuros como se houvessem espíritos dentro deles. Mas a ilha paradisíaca do meu pensamento havia desregulamentado a legislação econômica e pressionado o salário do povo para baixo à pedido dos Estados Unidos. O litoral fora ocupado pelo setor imobiliário e estaleiros agora poluíam as águas costeiras com dejetos industriais e tráfico marítimo intenso. A escassez de peixes transformara pacíficos pescadores artesanais em piratas sanguinários cooptados por organizações criminosas que se alimentavam do tráfico de drogas e da prostituição. A Autoridade de Desenvolvimento Industrial mudara o nome da ilha para Sanyo, Panasonic, Siemens, Sony, Toshiba e Epson. ---- É um pouco o que se passa com o Oriente, que no sentido profundo também flertara com o diencéfalo, um dia, para resistir à civilização ocidental, destrificada pela tecnologia, as armas atômicas, os transístores , os plásticos, as doenças e o cálculo infinitesimal. Mas foi-se o tempo em que os amarelos se jogavam contra nós (.) -------, dizia isso tudo para simular, apanhá-la desprevenida : zen-budismo, yoga, muay-tay. Anotações automáticas sempre davam resultado, mas minhas novas histórias não eram literatura, e sim televisão. Era preciso, agora, que eu voltasse meus olhos para as metrópoles e sujasse as mãos em alguns casos de corrupção no sistema financeiro, para que meus próprios assuntos voltassem a refluir sobre mim. A comunicação de massas e o mercado despertavam em mim o gosto literário de algo profundamente narcisista, auto-absorvente em minha longa contemplação de um umbigo despelado. ------- Mas não confundamos as questões ( disse à Nancy ) Em fases de grandes mudanças globais a dimensão dramática do mundo se sobrepõe à dimensão sociológica , e as fronteiras entre realidade e ficção tornam-se menos nítidas: as jovens atrizes falam de uma maneira nova e misteriosa ao interpretarem um texto meu, algo que não acontece com o texto dos meus contemporâneos. As hollywoodianas, particularmente, modelam indescritíveis arabescos com o final prolongado das minhas frases de diálogo, devolvendo-as para dentro da boca como se fossem fazer um gargarejo, e isso é inédito na história do cinema. Além disso, são mais naturais, ou menos artificiais e plásticas quando atuam sob minha direção. Parecem menos ser atrizes do que as atrizes dos outros filmes(.) -----, Nancy ficava fascinada acreditando ligeiramente que eu via na vida apenas isso: disputas acirradas que culminavam em intervalos comerciais. Ela se levantava do sofá e procurava localizar livros nas prateleiras, fazia pesquisas na internet, folheava jornais velhos durante horas em busca daquele mundo inventado que eu descrevia. Seriados policiais, comédias, filmes de terror, canais de arte, noticiários conservadores com equipes de quatro jornalistas a trocar pilhérias... novelas vespertinas contra um pano de fundo de silêncio espesso e pululante. ----- Quando você chegar a ler minhas novas histórias (continuei) espero que não sinta o mesmo interesse preconcebido dos críticos do terceiro mundo em manter um escritor incômodo e nocivo banido no limbo, pois eu sinto que, mesmo sem as ter lido, você já começou uma avaliação negativa a meu respeito: mas saiba logo que meu alter-ego literário é sempre um personagem excepcional, quase à altura do Gulliver de Swift: um gigante americano lendário, um bilionário excêntrico de duzentos metros de altura, com uma enorme cara robótica, vastíssimo tórax, um ventre prodigioso cheio de vírus de computador letais, um gosto furioso pela vida espiritual extra-terrestre e um impulso pueril para falar tudo que pensa. Um mágico produto híbrido de Jim Thorpe e Dwight MacDonald completamente atormentado por vozes dentro da cabeça, que envenenam seus casamentos e o impelem para diante como um rolo compressor. O estilo do herói galopa como Henderson, cheio de excessos de violência política, cheio de uma luz insuportável, carregada de efusões intelectuais irritantes, num estilo ágil e devastador. Encarado em sua menor dimensão, digamos, em meio a algum fracasso ocasional, uma pequena batalha perdida por capricho, ainda assim ele aparece vestido numa roupagem clássica: uma bela curiosidade literária fora da principal corrente das letras americanas, mas, apesar disso, um clássico, nos sentido em que The Informer ou A High Wind in Jamaica são clássicos. Há no personagem um silêncio misterioso que nem todas as declarações eróticas, confissões tensas, grampos telefônicos, mentiras tranquilizadoras e explosões de ódio mercadológicas ultra-liberais conseguem dissolver: um silêncio hipnótico e apavorante que é o que mantém os investidores atentos a todos os seus passos, jogando com a própria apreensão, à espera de que um ajuste de contas de proporções épicas venha apanhá-los de surpresa no meio do livro e fazê-los todos em pedaços.

K.M.

Nenhum comentário:

Postar um comentário