terça-feira, 6 de dezembro de 2016

?! 23

Quando a comitiva da imprensa etíope chegou ao Palácio Presidencial de Konam para me entrevistar, parei na frente do espelho do gabinete e percebi que havia algo de apaixonado, generoso e sagrado em mim , que excedia até as representações  de mim mesmo que eu fazia com mais inteligência: era um excesso de virtú maquiavélica sem nada de humano. Quando a reportagem ligou a câmera e os microfones, pensei que seria vão falar de Justiça e Verdade num mundo de autômatos africanos globalizados. ------ Como o Sr. tem visto a eleição do novo Presidente dos Estados Unidos (?) ------, uma repórter perguntou-me , com um quê de ironia.  Como se na realidade,  e não por disfarce, eu fosse um mero vendedor de laranjas sem nenhuma para vender no momento. ----- Ora , moça (!) A Justiça e  a Política exigem a calma, e, no entanto, só pertencem de fato aos homens violentos. Vejo a Casa Branca como qualquer africano , como um lugar habitado por velhas figuras de cera. Procuro colocar a América e a Europa por trás de um vidro, com o poder do meu sorriso reacionário. E, para eles, somos menos que manequins despidos numa caixa, esperando, com nossos sorrisos de melancia, pelos grandes planos do homem branco ; ficamos ali, esperando, enquanto tudo no mapa mundi vai se tornando gradativamente mais didático, à medida que aumenta a tensão geopolítica, como naqueles simulacros usados no ensino de medicina. Os erros e acertos vão ganhando um peso cada vez mais decisivo (.) ------, eu disse. ''Nossos lábios crestados doem / e os rios do meu coração correm para o alto / para soldar o sumo vívido da simetria ''', cantarolava Rosemary, subindo as escadas que levavam ao segundo andar do Palácio, onde ficava a suíte, como uma criança trajada com exagerado esmero ao lado de uma confabulação preocupada ; a porta do gabinete estava escancarada, e eu disfarçava meus verdadeiros pensamentos por trás de uma máscara de tolerância bondosa, enquanto os jornalistas etíopes ousavam discutir geopolítica e economia. ------ Dem in seinem Sein um dieses Sein selbst gehet (eu disse, acendendo meu charuto) A possibilidade de nazismo está inscrita no genoma humano, meus caros ; não necessariamente como  ''mal elemental'' , mas quando Hitler começou sua marcha sobre a Europa, ele não estava fazendo uma ''guerra de maluco'', mas atualizando uma virtualidade inscrita no genoma da História Universal há milênios. Ele fez um acordo com os russos. E manteve sua palavra?? Fez um acordo com Chamberlein, e logo estava bombardeando Londres dia e noite, matando centenas de civis inocentes. Tinha plena consciência de ser o maior anti-semita da história, e queria conquistar até mesmo os Estados Unidos.A impaciência é a quintessência do homem ; Marx tinha razão, quando dizia que era preciso ''movimentar-se''. O mundo é uma máquina. Mas o velho Marx pensava que só algumas peças, as peças apontadas por ele, é que se movimentavam, enquanto  as outras ficavam paradas. E como movimentar uma grande economia, nos dias atuais, com baixas taxas de juros (?) Consideremos que o cúmulo da ingenuidade seria responder: '' A queda no consumo mundial trará, como contra-partida, o consequente aumento da poupança, que será revertida em investimentos,sinalizando  um ''futuro próspero'' ''. Hélas (!) Na verdade, existem dois movimentos principais no mundo de hoje (... ---- , eu disse, interrompendo-me para abrir uma cerveja: sentia em mim a aproximação de uma cólera intelectual intuitiva que qualquer reflexão educadamente prolongada sufocaria. ''Se não fizesse a cólera  e a lucidez  da minha sabedoria coincidirem com álcool e a magia negra, como me reconheceria neste mundo (?) '', pensava então ''Se Marx pudesse ver seu '''proletariado inglês'' hoje, não reconheceria tanta moleza, tanta burrice, até a medula encharcado de cerveja e televisão ''. Mas, naquele momento, os fragmentos embriagados da minha digressão se encontravam no ápice: apreendia-os no ar, como a Verdade, de que os contrários, de que o Bem e o Mal, se compunham. ----- Digo (continuei: Existe essa infiltração global, para baixo e para fora, do consumismo euro-americano. E existe este tatear, para o alto, para Alá e para o suicídio, dos desprivilegiados de cor, do Terceiro Mundo ,do submundo e da África sub-saariana. Mas há ainda um terceiro movimento que abrange ambos os movimentos. Ao mesmo tempo que os pobres buscam se levantar, o chão do mundo globalizado afunda sob seus pés,  eles afundando em massas enormes de esquecidos, na pobreza que o liberalismo caga e espalha pelo mundo, e a humanidade fragmenta-se na exaustão constante desse mundo super-utilizado e super-povoado (.) -----,concluí, provando minha cerveja vermelha ; suas bolhas me lembravam Rosemary e o livro de sonhos egípicio. O livro dos mortos. Minha própria morte como uma zona brilhosa ''em volta ''do transe. ------ Todos esses gestos da ''economia de mercado'' (continuei) são como os gestos heróicos na pintura da jangada da Medusa,  de Géricault, gestos que jamais hão de apreender seus objetos, porque a jangada está afundando. O consumismo global é um desses gestos falhos, apostar as fichas de uma nação inteira nele, é como chorar brilhantes lágrimas de suco, à espera da explosão na boca do consumidor. A China, por exemplo, manipula o consumismo global com inteligência e grande sucesso desde 1980, mas agora se vê obrigada a manipular muitas outras coisas ao memso tempo, para manter um ritmo que se tornou insustentável. As inovações ''revolucionárias '' que alimentaram o crescimento do mundo no passado (energia elétrica, transporte aéreo, saneamento contemporâneo, etc) estão todas esgotadas.  Parcerias com a iniciativa privada, por parte de alguns governos, buscarão coordenar e promover inovações ''extras'', para buscar protagonismo na ''nova revolução industrial'', última forma  assumida pelo Apocalipse do capitalismo tardio. Eu, particularmente, confesso-lhes que não me encontro mais na fase africana do meu delírio autoritário, mas na CELTA. Cada vez mai claridade e apatia interior, de modo que, com quatro ou cinco cervejas, fica fácil para mim  ''passar por água '' o estado depressivo da economia mundial. Repare o contraste com a palavra ''ultrapassar'' : passar por água (.) ------, o silêncio dos jornalista etíopes, durante o qual a repórter que fazia as perguntas parecia incrivelmente concentrada no movimento dos meus lábios, incentivava-me a prosseguir ; e, desta vez, o fiz com palavras onde eu imaginava haver um clima  sem igual. 
Por trás do vidro maior da porta  do gabinete, vinte passos mais adiante, depois de uma mesa circular com exemplares de revistas cubanas e colombianas cujas  capas mostravam beldades morenas orvalhadas de respingos, nas praias de Cartagena e das Caraíbas, brilhava uma luz. Um riso gutural, fedendo a maconha e haxixe, como se proveniente do fundo de uma vala, veio lá de dentro. Sob o riso demoníaco de Rosemary, outra voz feminina, de um sonoro ''à-vontade'', tentava conter seus espasmos de hilaridade. As duas prostitutas estavam à minha espera, na suíte.

K.M.

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