------ Hoje, a guerra não se faz, ''administra-se '' (.) -----, eu disse ao Sr. Kissinger. Ele sorriu educadamente. Agora, eu voltava contra mim mesmo toda minha discurseira enfezada. Tudo o que era sem nenhuma importância para mim, em contraste com o que de fato interessava ; tudo o que havia de periférico, menor e insignificante na minha vida; tudo contra o que o Sr. Kissinger havia me advertido : mulherzinhas, coquetéis, entrevistas longas demais e aquelas pequenas ladainhas de política externa que a mídia adora requentar. ----- De saída (disse-me ele) Vamos deixar de hipocrisia: Você tem toda razão. Acima de tudo, é importante retirar ao conceito moderno de guerra o odioso elemento racional dos militares de mentira. A verdade é que, nos últimos dez anos, as potências mundiais têm se banhado, como nunca desde a Segunda Guerra Mundial, naqueles velhos vapores que (não sei bem como) continuam a sair da goela do lobo germânico Fenris. Na atualidade, porém , esses ingredientes primitivos da magia germânica do ''Grande Destino''vem recobertos por uma espécie de brilho podre. Na época dos canhões Krupp, pelo menos, o idealismo dos soldados era fornecido pelo Estado e o Governo, e as tropas dependiam de sua requisição, assim como de sua ''narrativa oficial''. Mas o heroísmo de guerra foi se tornando cada vez mais sinistro, mortal, cinzento como o aço dos canhões ; cada vez mais distante e nebulosa a esfera de onde acenavam a glória e o ideal, cada vez mais hirta e andrógina a postura daqueles que se sentiam menos como tropas de uma guerra mundial do que como executores de um pós-guerra conflituoso, infinito e insolúvel. Eu associo, divertidamente, essa ''virada'' para pior no âmbito da postura militar mundial, ao momento em que Alfred Krupp von Bohlen und Halbach, então presidente da maior fabricante de armas do planeta, foi preso em 1948 como criminoso de guerra por utilizar prisioneiros de campos de concentração nazistas como escravos em suas fábricas (...) ------, Kissinger disse. Eu ria junto . Minhas recriminações haviam (momentaneamente) acossado sua perspicácia histórica adormecida pela idade. Naquela altura da vida (pensava comigo) o Velho Kissinger já não devia ter um apetite humano muito grande por experiências históricas ; nem uma capacidade muito atenta para ler ler o futuro da América, e nem, muito menos, nenhuma propensão política irresistível para cometer erros catastróficos. Olhando-o dentro dos olhos, repreendia a mim mesmo por ter saído em busca de objetivos políticos mundanos. -----Como pode minha desconfiança (disse-lhe eu) comparar-se à de nossos compatriotas, quando nosso Presidente eleito (e com razão) apresenta-lhes a guerra como um ''poderoso controlador'' para sentir o ''pulsar dos tempos '' . Com razão o Presidente eleito nos proíbe de rejeitar um ''desfecho comprovadamente conflituoso '' para qualquer assunto e nos anima a ''aguçar nosso olhar '' para as ruínas econômicas por trás do ''verniz resplandescente''da globalização. Outro dia, lendo uma de suas recentes entrevistas, maravilhei-me com a facilidade com que ele adquiriu '' o sólido sentimento da imortalidade''. Em sua voz, brilhava a certeza de que as atrocidades de qualquer guerra que ameaçasse a América poderiam ser transfiguradas em algo ''mil vezes mais terrível'' , se soubéssemos usar corretamente o simbolismo do ''sangue fervendo para dentro'' em nossa política externa (.) O que o mundo possa vir a enxergar nessas chamas, na minha opinião, não faz nenhuma diferença. Devem aprender a se adaptar ao Novo (.) ------, concluí. O acúmulo de humilhações que os países infligiam uns aos outros, essa era a chave da história moderna. Olhando-me de soslaio, com uma lâmpada de sessenta velas no olho, o Sr. Kissinger representava para mim, naquele momento , o apogeu diplomático ascético do qual, em poucos minutos de elocubração, eu havia caído diretamente para o fundo do Inferno. Era como se seu olhar tivesse jogado uma pilha de livros pesados em cima da minha voz. ----- O Presidente eleito é um tipo forte de homem (continuou ele) mas não é o tipo forte e calado de homem, que guarda tudo para si ; tem uma parte de seu pensamento institucional mergulhado, propositalmente, na sombra, mas apresenta-se em geral como um investigar escandaloso de tudo. Nem sempre é veraz em suas acusações, o que é inteligente de sua parte, pois a mentira jorra de todos os lados, da mídia aos governos dos outros países. Assim como você, ele não é tímido, nem modesto, não é exatamente gentil, nada disso, mas teve motivos inteiramente puros ao se declarar candidato à Presidência dos Estados Unidos. E foi realmente sincero, toda vez que apresentava suas dez obviedades favoritas para a nação, durante a campanha. Mas em relação aos ''nobres experimentos'' de guerra americanos, digo, por detrás do arco incessante do combate global, o Presidente parece disposto à tensioná-lo até o limite, se preciso for, até ele se partir ; sempre que o vejo na televisão, lembro-me daqueles antigos rostos históricos, moldados e movidos por uma poderosa explosão psíquica, , todas elas percorridas por um calvário que se estende de batalha a batalha, cada uma delas um sinal hieróglifo e violento de um contínuo trabalho de destruição. Como você disse há pouco, as guerras não são mais declaradas. E talvez aqui a profecia de Carl Schmitt tenha se cumprido: segundo a qual toda guerra, no futuro, se tornaria uma guerra civil. E a verdade é que, atualmente, até mesmo a invasão aberta de um Estado soberano apresenta-se aos olhos do mundo como um ato de jurisdição interna. Nenhum serviço secreto do mundo respeita soberanias nacionais ; e esse, meu filho, sempre me pareceu, há décadas , o verdadeiro modelo de organização e de ação política real (.) ------, ele disse. Acho que foi só naquele exato momento que, como um incorruptível piloto de provas, encontrei no rosto do Sr. Kissinger, como numa visão aérea, o rosto do soldado formado pela guerra mecânica da política externa : dura, insensível, sangrenta e incessante. A marca de seu rosto era a marca da dureza dos nervos de aço do combatente nato, a expressão da responsabilidade solitária e do auto-abandono intelectual anímico. Nessa luta ''diplomática'' mundial , que hoje seguia descendo a camadas cada vez mais profundas, se confirmava seu lugar na história. O caminho que o Sr. Kissinger seguira, em sua vida profissional , fôra um caminho polêmico, estreito e perigoso, mas era aquele o caminho que levava diretamente ao futuro. Digo: diretamente para o Inferno.
K.M.
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