quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
?! 24
Realmente, Konam era uma terra seca. Ao meio-dia, dirigi-me para a garagem do Quinto Batalhão com meu Camaru, tendo organizado uma expedição oficial para inspecionar o território da nova capital. ''Der Bau'' eu pensava ''O nunca nomeado protagonista do conto de Kafka, A Toca , estava o tempo todo obcecado em construir uma toca inexpugnável para si mesmo, que pouco a pouco, no entanto, revelara-se uma armadilha mortal'' . Cannabis indicae. Óculos escuros. Meu monólogo interior, ao longo da viagem, partia de trabalhos oficiosos, onde o líder da nação deveria exibir toda sua fé no futuro aos seus comandados, e chegava, naturalmente, ao erotismo e à patologia sexual da orgia noturna . A conversa oficial com militares e engenheiros estagnada num plano puramente científico. Digo: sem nada que operasse, ou que abrisse para um infinito de perspectivas moventes, numa palavra, sem que a ''comunicação'' se estabelecesse de fato. Uma parte do plano eu guardava só para mim. Os vastos campos de amendoim de Konam se transformando em pobres roçados esparsos de mandioca e milho ao longo da percurso, uma vida vegetal que nos machucavam os olhos com sua demonstração de esforço inútil sob o sol inclemente. Os cultivadores daqueles campos cemiteriais, raramente vistos na paisagem, erguiam ocasionalmente o braço ossudo à passagem do meu Camaru, levantando uma ilusória nuvem de pó. Logo que as favelas de zinco dos nômades redistribuídos de Konam ficaram para trás, no horizonte baixo e líquido, começaram as aparições soturnas de choças não numeradas e latas enferrujadas metidas em paus, anunciando a venenosa e proibida cerveja nativa. ''E não foi exatamente isso que aconteceu com o espaço político do Ocidente '' eu seguia pensando, ao volante '' As pátrias que os ocidentais construíram revelaram-se, para seus povos, que deveriam habitá-las cmo se habita uma linguagem, apenas armadilhas mortais de submissão. Kafka realmente antecipou lucidamente a coisa toda: após a anestesia cerebral do consumismo, e a falsa sensação de bem-estar, a indeterminação derivada entre espaço público e privado , ''Castelo'' e quarto de dormir, tribunal e sotão, inseto e toca. A situação de konam, guardadas todas as proporções, era idêntica à do mundo branco: coincidia com aquela situação de onde partia o ''nazismo'', de onde ele sempre estivera espreitando a aldeia global. Todos esses fatos, eu não só os percebia, naquele momento automobilístico, como um piloto frio e apressado dos próprios pensamentos, mas como o ditador de uma pátria da qual eu só conseguia tirar uma evidência política, econômica e militar muito penosa. Mais de uma vez, tive de contornar um esqueleto de girafa no meio da pista, que havia sido arrastado para ali em suas últimas pernas pelo tufo seco de capim que, na desolação da paisagem marrom, brotava em resposta ao líquido em ebulição que respingava dos radiadores que passavam na estrada. Quando o calor do sol à pino sobrepujou até o ar condicionado do Camaru, parei o carro junto à uma choupana de espinheiros sobre uma armação de galhos secos e compactados com lama. Aqueles canteiros de obra, no centro do novo plano diretor, tremulavam no horizonte há meses, no entorno exato onde ficava situado o monumento de bronze que me retratava heroicamente. Nenhuma outra vocação e consistência além de minha própria existência fática, a do poder encarnado, por tanto, tendo que assumir meus próprios modos de ser perante a adejante bandeira verde e preta no pára-choque do Camaru. Misericórdia era o que eu representava para o povo, quando estava de bom humor. O povo assisitia pasmo à construção da nova capital, Konasburgo. E minha visita aos canteiros de obra entrou noite adentro, por uma noite desértica e sem luzes, de um azul cremoso, no qual apenas os pontinhos distantes das fogueiras do acampamento brilhavam, com a mesma beleza aquosa das estrelas no céu. Segundo havíamos combinado, passaríamos a noite ali ; eu estava rodeado de seguranças e pela Guarda Nacional de Konam, que sempre me escoltava em peso. Embaixo de nós, alguns deles sabiam, dormia a velha instalação de armamentos do época da União Soviética. A própria terra daquela região era esquecidiça, nem túneis de ventilação, nem vigas de entrada traíam a presença das baterias de mísseis balísticos, todos equipados com ogivas múltiplas de reentrada independente . ''Que maldito nômade ''pensava comigo então '' Com seus camelos e bodes , se deteria em seu caminho para tentar compreender isso (?) '' Eu atribuía somente à mim a ''grande tarefa histórica'' de ''construir para mim mesmo'' uma ''armadilha de dimensões nacionais '' . Nacionalismo, imperialismo africano ... mas o que estava em jogo em Konam (agora) era diferente e ainda mais extremo: uma panela de pressão política da qual tudo o que era intelectualmente aproveitável ascendia rapidamente para a invisibilidade confidencial de um plano militar completamente louco. Nossos silos subterrâneos estavam todos apontados para as instalações norte-americanas, ao norte, e para o território fantoche de Kehel, a oeste, e ainda para os remotos portos de Kanq, no Mar Vermelho, a leste ; portos esses (eu pensava) que poderiam tornar-se importantes e perigosos, caso eu não viesse a bombardeá-los em breve ; do ponto de vista estratégico, era preciso pulverizá-los o quanto antes, expulsando a presença estrangeira e equipando o território anexado com armas de terceira onda. Mas os ''dados da observação sigilosa'' , comentava eu com meus oficiais '' Não estavam ainda afogados em observação confiável''. ----- Como jogadores de um torneio de xadrez reduzidos a poucas torres e peões e ao rei emblemático ( o Alto-comando de Konam ouvia-me atentamente) bocejamos sobre nosso conhaque em meio à desconexa partida-final, buscando determinar qual estilo de ''tarefa histórica'' difundiremos pelo deserto esférico e faminto que nos resta. Em todo caso, é divertido pensar que ela não será só sub-saariana em aspecto, como também dominada por uma idéia de África completamente devastada pela guerra. Nossa distante e vaga aliança com os russos, que jamais a reconhecerão oficialmente, serve apenas para obrigarmos a OTAN a instalar, com despesas onerosíssimas, mísseis idênticos no nosso vizinho Kehel (.) -----, eu disse. Como preparativo para a noite em ''campo'', todos nós já estávamos embriagados, pestanejando de assombro ante os abraços esfomeados e aidéticos de prostitutas nigerianas ; expletivos cirílicos e esparramadas ofertas de cocaína, que ninguém ali recusava . ----- Nós, Konangoleses (eu disse, em meio a fanfarra) adoramos De Gaulle. Ele nos lembra a girafa, aqueles deuses que já não nos visitam mais. Na época, lembro de ter dado à ele cinco anos, numa aposta com o Presidente do Senegal, para desistir da Argélia e, mediante o resíduo sujo de seu racionalismo francês, perder na sequências todos os outros pedaços menores de África Ocidental Francesa, até ser deixado de lado, como Robespierre, e se tornar um velho chato e perdedor a contar suas derrotas contra o Parlamento (.) -----, concluí, rindo. Ora, cada vez mais o dever patriótico se apresentava a meus olhos como a obrigação de consagrar meus pensamentos à massa acefalada e inoperosa de konam, que procurava em mim, por todos os lados de minha sombra, e às apalpadelas, uma herança cultural como missão. De uma certa maneira, o que eu fazia como Chefe Supremo da Nação era tentar conservar tal herança, que considerava guerreira em grau máximo, mais do que aprofundá-la.
K.M.
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