sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
?! 20
Sob a orientação de Rosemary , eu apreendia simultaneamente a possibilidade de todas as coisas potencialmente acontecidas no espaço do Inconsciente Coletivo. O Incosnciente Coletivo, ardendo na ponta viva de seu cigarro, parecia-me um terceiro olho que a todo minuto piscava para mim. Minha reação à esse fenômeno era, naturalmente, o incremento do meu inventário africano. A coisa passava-se assim: eu imaginava uma fotografia antiga de Konam na parede da sala e, na parte baixa da moldura, uma faixa comprida. Por essa faixa passava uma fita e nela apareciam legendas que, recalcadas no meu inconsciente, iam sucedendo-se umas às outras: ''Ecologia de Kalak '' , ''Golpe de Estado'' , ''Refinaria de fosfato'', ''Assassinato do embaixador inglês '' , ''Minha Coroação'' , ''Minha Deposição'' , '' Konansburgo'' , etc etc. E via muitas vezes caramanchões com janelas de ogivas nucleares, o grande sonho do meu exército nacional, e também Veneza, mas de uma forma que me lembrava incrivelmente a piscina do Palácio Presidencial de Konam. ------ Havia comunistas envolvidos no levante popular (eu disse à Rosemary ) do início ao fim ; no começo, eles vinham até mesmo no meu gabinete, ameaçar-me com a divulgação de fotos das orgias no meu harém particular através da mídia internacional ; e estavam em todas as ''soirées'' de Konam, quando começaram os protestos para valer. Esse grupo reduzido de conspiradores tinha (de fato) todo o interesse em desestabilizar ao máximo minha situação. E havia o ''segredo sujo'' da mídia internacional ; o caráter conspiratório , a contratação sub-reptícia de gente nativa, com idéias semelhantes, para influenciar a tendência ideológica dos protestos, sempre que possível (.) -----, eu disse. Talvez aquilo explicasse porque razão a expressão facial de Rosemary ficara mais pobre, de um momento para o outro, apesar de haver agora uma ''vida interior'' mais intensa nela. ------ É preciso aprofundar mais (ela disse) a diferença entre as intenções dos dois campos alucinatórios rivais do seu delírio ; parece que, na sua fase satânica ditatorial, os ''inimigos do regime'' vem sempre excluídos de humanidade civil e carimbados como ''criminosos'', certo (??) Posteriormente, torna-se lícito para você e suas tropas aniquilá-los como uma perfeita ''operação policial'' de ''extermínio''. O ditador K, em momento algum, sente-se obrigado a respeitar qualquer regra jurídica e passa a confundir, com um acentuado retorno às condições mais selvagens de beligerância, população civil e soldados, povo e ditador-genocida. Mas, na minha opinião, esse deslizamento da soberania para as zonas mais obscuras do poder de polícia tem, ainda assim, um aspecto positivo e pedagógico: o de que, a qualquer momento, a partir do ponto em que o Poder Constituinte se dissolve, o empenho encarniçado na criminalização do inimigo pode voltar-se contra o pretenso ''soberano'' . Eis o triste ''redingote'' dos ditadores (.) -----, ela disse, baforando a fumaça de seu cigarro no meu rosto, enquanto tirava a calcinha do rego. Mas depois do que ela disse, seus pensamentos tornaram-se para mim uma espécie de livro ; naquilo que, nas mãos de um poeta da violência, se transforma em estátua do próprio poeta. Tudo o que ela dissera fora imediatamente incorporado na constituição plástica do meu ''delírio africano'', mas dominado e distorcido por mim de forma mais brutal e absoluta do que teria feito a crítica mais destrutiva. ------ Em todo caso (eu disse ) até alguns meses antes da sub-levação popular, a propaganda oficial do meu regime imitava à risca a propaganda de uma democracia americana. Apenas um pouco mais de agentes de espionagem estrangeiros, e agentes de publicidade, agências de notícias. Digo: nenhuma distinção aqui. Todos um bando de propagandistas baratos, espalhando a desinformação e a contra-informação. Eu era o líder carismático por excelência, em Konam. O Leviatã do Ancien Régime dos pretos mortos de fome da África. Diante de todos os olhos da nação, estava para ser realizada, com a construção da nova capital, a ''Grande Transformação'' que empurraria, um após outro, todos os reinos soberanos da África (repúblicas e monarquias, tiranias e democracias, federações e Estados nacionais ) na direção contrária do Estado midiático liberal de que fala Guy Debord, massacrando, em solo africano, todo e qualquer vestígio do ''capital-parlamentarismo '' de Badiou, esse estágio extremo da putrefação liberal do Ocidente. Sem que uma só dobra dos meus mantos patriarcais não estivessem enodoados pelo ganho pessoal, que eu extraía das empresas dos Kounaubs tão habilmente quanto seus antepassados, os chefes canibais que extraíam ''hongo'' dos escravizadores árabes ; e cortejando, ainda por cima, todos os elementos da nação, aparecendo vestido com minhas penas de avestruz nas aldeias dos Keldvtz, e de capacete metálico nas minas de magnésio, apaziguando a ansiedade africana nativa com a tributação dos lojistas indianos e apaziguando toda a desconfiança asiática com leituras públicas dos Upanishads. Palavras como ''direito'', ''nação'', ''povo'', ''democracia'' e ''vontade geral'' encobriam então, em Konam, uma realidade política mágica, que não tinha mais nada a ver com aquilo que tais conceitos designavam no Ocidente, e as agências de notícias internacionais, que seguiam servindo-se acriticamente desses termos, em suas matérias de primeira página, não sabiam mais do que estavam falando. Eu era o próprio Deus no Konam Athletic Club. Os corredores do nosso maior time de futebol estavam cheios de fotografias minhas abraçado com as animadoras de torcida e musas do campeonato ; ou apertando a mão de algum proprietário de terrenos imobiliários ou líder empresarial local, que patrocinavam o clube. Na verdade, uma parte da imprensa americana adorava em Konam o que chamavam de ''a total imparcialidade'' de ''nossa constituição equânime quanto à raça''. E alguns jornais franceses viviam se referindo à ''integridade tribal'' de ''nossas grandes massas negras'''. Em alguns suplementos de rotogravura antropológica, esses mesmos jornais me celebravam como um ''astuto macaco'' que parecia ''uma cópia em negativo do Papai Noel '' . Não era para menos : na época, eu estava inundando Konam com ônibus animalistas apinhados de gente de quinta categoria do mundo inteiro: china-paus, alemães maníacos por concursos de fotografia, solteironas inglesas , búlgaros regateadores, traficantes de diamantes da Lituânia, repórteres chifrudos, dinamarquesas perdidas nos labirintos do sexo anal, arqueólogos franceses e universitários yankees loucos por viagens exóticas ; lembro, inclusive, de ter dito a respeito, com meu Ministro do Turismo: ''Esses guris americanos subornam seus pais alcoólatras e vem beber sangue de mamba negra aqui em Konam enquanto o capitalismo da terra deles desmorona sob as extravagâncias de um queniano vaidoso ''. Eu engendrava mentalmente em minhas mãos, habitualmente pesadas, qualquer região de Konam de modo a semelhar aquelas miscelâneas de domos e parapeitos de concreto que falam de perto a qualquer coração bagunçado (.) ----, eu disse. ----- Filhos que não tem nenhuma semelhança com seu pai (Rosemary disse) consumam instantaneamente em seus rostos a profanação de sua mãe. E é preciso se deter aí ; abandonemos aqui o que merecia um capítulo a parte: o das Mães Profanadas. Os efeitos mais nefastos do Complexo de Édipo, a chave desse tipo de tragédia está justamente no episódio em que o filho, cuja má conduta vinha matando seu pai de desgosto, goza poucos dias depois, ainda vestido de luto, das carícias de uma amante homossexual que cospe na fotografia da mãe morta (.) -----, concluiu ela, enigmaticamente. ----- De fato (observei) A opinião pública e o consenso não tem nenhuma relação com a ''vontade geral'' ; talvez não haja ninguém no mundo, por maior que seja sua virtude, que a complexidade das circunstâncias não possa levar a viver um dia na familiaridade com os vícios que condena ; e sem que (aliás) o reconheça plenamente, sob o disfarce dos fatos particulares de que se reveste, apenas para entrar em contato com a amada e fazê-la sofrer. Palavras estranhas. Atitudes inexplicáveis. A política internacional também está cheia de magia negra: ela é esse ''experimento devastador'', que desarticula e esvazia, em todo o planeta, as instituições e as crenças, as ideologias e as religiões, as identidades e as comunidades, para voltar depois a ''repropor'' sua forma definitiva nulificada . Estados Unidos e Rússia: dois filhos extraviados do Iluminismo. Meu próximo artigo na imprensa será intitulado: ''De Platão à Pound : do Totalitarismo como Refúgio de Mentes Superiores '' (.) -----, eu disse.
K.M.
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