sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
?! 25
Eu costumava me fechar no Gabinete Presidencial com dois ou três Ministros de Guerra (todos os ministros do meu regime eram Ministros de Guerra ) para tentar meter à força no ''script legislativo'' do Congresso de Konam todos os clichês rasteiros daquele resto agonizante de partido de oposição, todos os pontos de vista cosméticos, ditos ''progressistas'', que eu pudesse passar adiante, pela minha assessoria de imprensa, sem ter meu despotismo esclarecido desmascarado na imprensa internacional. Manipulava o script legislativo para enfiar ali qualquer refugo ideológico que julgasse ter algum conteúdo útil para a sociedade, em qualquer contexto que fosse. Imaginava, assim, poder influenciar o pensamento do povo e ''envernizar'' minha ditadura com patéticos filtros democráticos. Acreditava em tudo isso: Doutrinação, Propaganda Institucional, Apertos de Mão e Tapinhas nas costas. E aquele meu estilo peculiar, nos meus fragmentos de prosa reproduzidos no site oficial do Governo. Mais a sintaxe militar. A polícia secreta. E a sensibilidade constrangida e intimidada de uma ou outra jornalista, que antes, no entanto, procurávamos afagar com subornos. Meu dom de observador político crescia na mesma medida que meu poder, único termo de comparação p tal. O Gabinete Presidencial tinha passagens cheias de quadros com exemplos da minha caligrafia. A fonte daquela ''luz intelectual'', à frente do meu ''balão despótico'', era visto por todos os departamentos do Estado, no seu interior violeta, como o que designávamos de ''o total aparelhamento do regime''. ----- Total desorientação do sentido do tempo, em primeiro lugar (eu disse) Em outras palavras: rejeição de quaisquer conversas mediúnicas entre intelectuais estrangeiros, e sobretudo, nenhum discurso malthusiano sobre isso. Oponência. Alimentência. Divagação reducionista sobre nossos ''homens selvagens ''. O resultado, no estrangeiro, era nossa total simetria com os vilões das histórias em quadrinhos deles. Kaisers e Kautskys. Deliberadamente construídos por um jogo de acontecimentos, como um momento privilegiado de esteticismo liberal. ----- Só conseguimos compreender isso (continuava eu) se nos colocarmos historicamente no lugar que nos compete: depois, muito depois do fim e da autodestruição da arte ocidental, e depois do trânsito da vida democrática do Ocidente através da prova da desilusão política e do total desencantamento do mundo liberal. A ''passagem a noroeste na geografia da verdadeira vida'' , ponto de indiferença entre a arte e a vida, na qual ambas transformam-se decisivamente numa POLÍTICA à altura de suas tarefas, através de gestos hostis à comercialização do pensamento que precipita na situação de cada país os ''cristais'' da substância social comum (.) ------, concluí. Depois que saí para andar nas ruas de Konam, sob um disfarce civil cômico, a vacuidade da sesta tomava conta da Avenida do Fim da Inflação. Na intersecção em que a Avenida do Fim da Tributação se encontrava com ela, uma ilha de tráfego,retangular, exibia uma estátua em minha homenagem, semelhante à da nova capital. Até meus óculos escuros e botas, maior que o K. natural, o rosto metido em sombras, meu quépi e minhas dragonas embranquecidas por guano ---- tudo dentro de uma fonte cujos borrifos rítmicos atiravam para o alto véus e espectros de borrifos. Em torno da bacia de pedra, as oito línguas de Konam expunham sua palavra para a ''Liberdade''. Parado ali, com um cigarro na boca, eu pensava que aquela fonte simbolizava à perfeição nosso país e o próprio Universo,despejando continuamente alguma coisa dentro do nada. Uma sinuosa vegetação bege, de densidade semi-árida, florecia à sombra da fonte, com um hálito bafejante que lambia meu rosto como uma língua, enquanto eu cruzava a interseção tremeluzente rumo ao bairro industrial. A zona comercial de Konam (cidade) raleava, surgindo barbearias e papelarias de vitrinas sujas com as caixas de seus alfabetos juntando poeira ao lado dos prelos imóveis. Cafés e bares esperavam pela onda vespertina de fregueses proletários. Ventiladores de teto, de pá única, giravam dentro deles ; havia serragem no chão e grandes garrafas verdes mantidas frescas debaixo da aniagem molhada. Naquele momento, minhas narinas já captavam o odor sulfúrico, cáustico e complexo com o cheiro das fábricas estrangeiras à margem da rodovia. Também ali tinha existido, ao longo dos acessos do coração industrial de Konam ----- sua satânica ''raison d´ être '' transnacional ----- essa multiplicação de traillers e furgões de moradia nômade, onde hoje alojávamos nossos agentes secretos, misturados à paisagem de edifícios baixos e esboroados, em seu nu anonimato, fechados dentro de quilômetros de cerca de mourões dos quais pendiam tabuletas vermelhas advertindo quanto à alta tensão, materiais explosivos e gases tóxicos. Aquela, para mim, equivalia à mísera cenografia na qual Nietzsche colocava o ''experimentum crucis'' de seu maior pensamento . A Konam que eu construíra era a instância com a aranha e a luz da lua, entre os ramos , no momento em que à questão do Demônio ''Queres tu que este instante retorne infinitas vezes (?) '' era pronunciada minha resposta : ''Sim, eu quero ''. Decisivo, para mim, era meu deslocamento messiânico pelas ruas e avenidas de Konam, naquele meio-dia que, através de todos os meus sentidos, mudava integralmente a imagem do mundo, deixando Konam, como país, quase intacto. Mais alguns passos, no entanto, e eu já voltara a reagir de forma extremamente agressiva ao objeto dos meus sentidos, o que era uma ''contradicttio in adjecto ''. Depois, ecolalias da percepção sensorial. Contato, ato, gesto, pelo tato, com o tato esfacelado sobre toda a cidade. E por meio daquela ''coisa'', que deveriam ser meus passos, aproximei-me das cercas e olhei, acreditando estar seguro ainda o bastante para fazer piada de tudo aquilo. Do outro lado de uma ampla margem de deserto macadaminzado, um escuro conjunto de galpões de tetos inclinados, inescrutáveis calhas de transporte, barracões de janelas pretas, chaminés cônicas, torres com extremidades flamejantes e estruturas para bombas, vomitava um estardalhaço multifacetário e o oceânico fedor químico do refino de hidro-carbonetos. As torres de fracionamento terminadas em bolas e os baixos tanques de armazenamento ligados à sua fonte subterrânea de suprimentos por um espaguete prateado de tubulações paralelas. Pequenos pavilhões de chamas adornavam o complexo como a um castelo de filme de terror. Tudo o que interessava ao proprietário daquela usina era de que modo o Governo de Konam poderia servir à sua causa. E o que era a causa dele ?? Exportar, pilhar Konam com seus licenciamentos em favor da democracia fajuta dos brancos. Ouvi, de repente, um tinir. Progressivo clarear da percepção. Toda a monstruosa geringonça estava em movimento, devorando alguma coisa do solo , e, digerindo-a, transformava-a num enorme excremento em camadas, aprazível aos demônios brancos que, a mundos de distância dali, ganhariam um monte de dinheiro sujo com aquilo. Além e acima do fedorento, fumegante, agitado e palpitante emissário do consumismo, a muralha fétida, precipitosa demais para qualquer estrada, estéril demais para qualquer vida, pendia como uma cortina diáfana de fumaça tóxica por trás da qual esperava-me, como uma prostituta cara, o plano nacional de desenvolvimento de Konam. O cheiro era o de um deserto químico ; tudo na terra que meu coração patriótico conhecia havia sido removido com a chegada das transnacionais, exceto o céu vazio, escaldante, de azul tão intenso que raiava o violeta, no alto. Depois disso, longa divagação sobre a palavra ''ameaçar'', e ainda outros infantilismos instantâneos: ao capitalismo, que organizava concreta e deliberadamente ambientes e eventos para despontencializar a vida nos países do Terceiro Mundo, eu respondia com um projeto nacionalista igualmente truculento,mas de signo oposto. Minha ''utopia autoritária'' era perfeitamente tópica, pois tinha lugar exatamente naquilo que desejava reverter. Segui caminhando, disfarçadamente, ao longo da cerca elétrica, seguindo o lixo de latas e envelopes de pagamento marrons , até chegar a um posto de guarda, uma guarita de compensação não mais larga que uma cabine telefônica. Para minha surpresa, havia uma garota ali dentro, a quem, imediatamente, pedi autorização para entrar. Não revelei minha identidade. ------ Sou avaliador de prejuízos. Houve um acidente com mortes aí dentro (. ) -----, eu disse. Ela era uma jovem alta da estirpe dos Kundang, cujo sorriso proclamava abertamente sua sensualidade. Relâmpago nos olhos verdes ; boca ávida e suculenta ; olhar provocante e insondável. Mas parecia um pouco tímida,por dentro. Da minha parte, eu não tinha dúvidas quanto a ser um exímio ator , capaz de colocar em ato situações nas quais meus gestos humanos, subtraídos das potências do mito e do destino nacional, que eu encarnava à frente do Governo de Konam, podiam facilmente acontecer sob quaisquer disfarces, devido à vasta experiência que tinha da força de sustentação identitária da Commedia dell´arte. ----- De onde vem o capital dessa empresa (??) Quem fornece assistência técnica para eles (??) -----, perguntei à ela. Mas não se compreenderia nada da minha máscara cômica, naquele momento, se a entendêssemos simplesmente como um personagem despotencializado e indeterminado. O Ditador de Konam faiscava perigosamente sob meu disfarce, a mão afagando o revólver na cintura. Acho que foi nesse momento preciso que passei a ordem pelo rádio. ----- Máscaras não são personagens, moça (eu disse à ela) E sim gestos figurados num tipo. Constelações de gestos. Numa situação em ato, a destruição da identidade do papel se dá juntamente com a destruição da identidade do ator. É entre o texto e a ''execução'' que se insinua a máscara, como misto indistinguível de potência e ato. ''GESTO'' é precisamente o nome desse cruzamento entre vida e arte, ato e potência, geral e particular, texto e ''execução''. Uma questão prática. Capiche (??) -----, eu disse, enquanto uma centelha cruelmente feliz, a perspectiva de um velho ajuste de contas, acendeu para fora o meu rosto rabugento. ----- O QUE FOI (?!) ------, ela perguntou, assustada, assim que um Mercedez cinzento, no silêncio de seu mecanismo perfeito, deslizou sobre o cascalho estalante e sujo ao lado da cerca e baixou o vidro. Aproximei-me do carro e, com um ''gesto'' quase imperceptível, acertei seis tiros seguidos na cabeça do motorista. Tendo concebido um plano mais visionário que o assassinato à sangue frio do diretor-geral, não surpreendi-me quando olhei para o alto e avistei os quatro helicópteros chegando em linha para bombardear as instalações da fábrica.
K.M.
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