quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

?! 19

Na manhã seguinte, depois de me olhar no espelho, não só me dei conta de que era negro mesmo, mas também africano. Assim que acendi o primeiro cigarro do dia, todo meu passado de homem negro invadiu-me as lembranças: ----- Não vou me contaminar mais (disse para Rosemary) associando-me à palhaçadas mestiças e lacaios da maldita raça branca.  Não tenho que me submeter à isso ; venho de uma linhagem tanzaniana ''quase real'', e já tive meu próprio país (lembra ?!) , minha própria ditadura. E é apenas para minha paz de espírito que prefiro fazer descrições no pretérito, pois a guerra civil continua por lá, toda hora meu exército de rebeldes me escreve de Konam dizendo que alguém conhecido morreu ou foi preso e torturado até a morte. Aquela terra de solidão delicada e deleitosa encravada num ponto esquecido da Mãe África.  A bandeira verde e preta tremulando ao vento, no ar do porto. Cores imaginárias, certamente, pois tudo em Konam é marrom: terra, rios e pessoas. Menos o mar, que por sinal não foi representado na nossa antiga bandeira. A única desgraça ali, além da guerra, da carnificina e das epidemias, é a seca. Há dez anos não chove em Konam, e o gado morto alimenta o povo, os ratos  , os porcos e os abutres com a mesma alegria miasmática de feder (.) -----, concluí. Não saberia dizer até que ponto Rosemary era minha psicoterapeuta ou minha amante, mas no Harlem, no palco daquela filial da Associação Cristã de Moços em que W.E.B. Du Bois combateu a imagem depreciativa dos negros nos palcos da Brodway, Rosemary me pareceu mais branca do que nunca. ----- Alguma coisa errada, K (? ----, ela me perguntou. ----- Não exatamente (eu disse) ; é que esse palco me lembra minha coroa de crânio de guepardo. Um objeto tão rosnante quanto a polícia de NY. Mas os ingleses já haviam me ensinado isso,  na África. Capturaram-me duas vezes, quando eu era líder dos guerrilheiros de Konam. Da primeira vez, eu fugi. Mas da segunda, dia sim dia não, eles marcavam um horário para executar-me e depois, quando a maré popular de liberdade cresceu e os forçou a retirarem-se, fui libertado e subitamente instalado no trono que me era ''quase de direito''. Aqui em Nova york, para mim, a polícia é como se fossem os ingleses. O senso comum americano vê nela apenas a função administrativa de executar o que manda a lei, mas para mim ela representa a troca entre violência e direito que na África encarnava-se na figura do ditador. No caso, eu (.) -----, disse. Nem diante da psicoanálise em si, nem diante das dificuldades intelectuais de Rosemary para formular os resultados do meu ''caso'', em particular, eu consentia tranquilidades suplementares para diminuir a confusão das minhas idéias. Acreditava firmemente que, na base da minha loucura, estava concentrado todo o poder que eu tinha para quebrar as cadeias de pensamento da sociedade. ------ O poder de polícia indica justamente o ponto em que os Estados modernos, seja por impotência, seja pelas conexões imanentes do ordenamento jurídico, não é mais capaz de garantir os objetivos empíricos que o estado de direito pretende a todo custo alcançar. Em Konam, tive que prometer aos ingleses não expulsar a comunidade branca que colonizou os poucos planaltos férteis e a estreita faixa litorânea do país. No nosso porto do Mar Vermelho, na noite do grande massacre de manifestantes, experimentei na própria pele essa contiguidade embaraçosa entre soberania e função de polícia. O caráter de sacralidade intangível que, na África totalitária, sempre uniu a figura do soberano à do algoz. Estava sendo acossado por populares enfurecidos em todo lugar onde ia ; por isso, naquela noite de protesto, enviei minhas tropas para ''manter a ordem'', o que resultou em algumas centenas de mortos. A Guarda Nacional, por incrível que pareça, ainda me obedecia, mas pela janela do Palácio Presidencial, ainda ouvíamos uma multidão irada reunida na praça, gritando na direção do meu gabinete: ------- VOLTE PARA TUA TERRA, MACACO (!!!) ------,  enquanto eu me cercava, introspectivamente, de pitorescos atavios de peles de felinos, debruns ornamentais e medalhas dos exércitos europeus menores, cortejando desesperada e incansavelmente a comunidade internacional: convidando americanos para construir uma usina de dessalinização e depois expulsando-os ; convidando os russos a treinar sua força aérea em Konam e depois mandando-os embora ; ordenhando até os australianos e os indonésios pós-Sukarno. Arrancado-lhes um naco de ajuda financeira aqui, um pedaço de rodovia ali, uma refinaria de fosfato, uma antena de rádio-difusão com um quilômetro e meio de altura. Minha situação política tornara-se tão crítica, de um momento para o outro, que fiz amizade até com os chineses. Eram eles que estavam construindo a estrada de ferro de Konam, agora. O novo regime decidiu  ficar com eles, para eles ''negros eram todos iguais''. Mais ou menos o que um africano pensa dos próprios chineses. A estrada ligaria nosso pequeno porto, onde fica o Palácio Presidencial, até a absurda nova capital de Konam, cuja construção fôra a verdadeira causa dos protestos que me derrubaram. A Konansburgo glorificadora de K seria financiada pelo dinheiro da ajuda humanitária internacional, a partir daquele plano de arruamento tirado do Barão Haussman ; e com todos aqueles edifícios públicos baseados em esquecidas fotografias de feiras de arquitetura alemã. E aquele inclassificável monumento central: uma estalagmite de bronze pseudo-heróico concebido por mim mesmo, retratando meus traços fisionômicos indecisos, numa imitação do Balzac de Rodin, e que não sobreviveu nem uma semana após minha deposição pelos rebeldes, que o fundiram  para fabricar balas de metralhadora (.) ------, eu disse. Como psico-terapeuta, durante nosso passeio pelo Harlem, Rosemary já tinha cumprido todas as obrigações possíveis e imagináveis para tolerar meus estímulos inconscientes à barbárie e a força da minha desrazão totalitária. Mas como amante, seu destino parecia ser exatamente o contrário de um cura freudiana: elevar minha irracionalidade à alturas cada vez mais sublimes, e foi aí que eu me apaixonei por ela. ------ Você é Maquiavel , K (ela disse) A quintessência da manipulação. A entrada da soberania na figura da polícia não tem nada de tranquilizadora, na minha opinião. O extermínio dos judeus, por exemplo, foi concebido do início ao fim como uma ''operação policial''. Os historiadores que estudam o Terceiro Reich nunca puderam atestá-lo como uma decisão de órgãos soberanos. O documento referente à isso é uma conferência verbal de funcionários de polícia de médio e baixo escalão, entre os quais destaca-se Adolf Eichmann , chefe da divisão B-4 da quarta seção da Gestapo. Somente porque foi concebido como um operação policial, o Holocausto pôde ser tão metódico e letal (.) ------, ela disse. Enquanto o prazer se apossava de mim, um fascinante jogo de oposições  ''in impuris naturalibus '' despertava no coração psico-terapêutico de Rosemary uma desolação quase infinita, que faria chorar até mesmo a alma de sua falecida mãe.Eu simplesmente não sabia o que fazer. Minha volúpia dependia daquele horror. 

K.M.

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