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Vapores sobem do tapete. Fase intermediária do delírio. Começa a clarear no transe. ''Continuidade burocrática em crises políticas'' , ''Adjudicação de multas de tráfego e por contravenções durante a Revolução Francesa'' , ''Entrega de correspondências durante a Guerra de Secessão no U.S.A ''. Apenas qualquer coisa como um aceno ambíguo do delírio. Emergem, pouco a pouco, com contornos vagos, as alegrias da paz contemplativa, mundos idílios, o fim da história. O que resta do meu delírio africano é a mais exata medida da relação entre esses dois transes. A força do sorriso de Rosemary, irradiando a persistência de Ideal Faraônico dos Reinos Sudaneses, de 600 à 1.600 d. C. Sentado na poltrona, com minhas maneiras sinistras de intelectual americano, me torno incrivelmente mais bonito ao dizer: ------ A história americana teria sido praticamente a mesma se os adversários dos primeiros mandatários (de Filmore ao Segundo Harrison) tivessem sido eleitos pelo povo. O americano comum vivia melhor no tempo de Price e Grant do que na gestão de Lincoln (.) -----, concluí. Rosemary, agora, sentia-se ''protegida'' pelo meu delírio, embora aquilo não fosse dar mais do que num encontro com espíritos ancestrais sob a chuva. Minha figura, de um emaciado juvenil se avolumando sem deixar nunca de ser jovem, mantido cheio de tendões pelas artes marciais e bronzeado pelo surf, que praticava diariamente na superfície cerúlea e poluída da baía de Konam. Naquele momento, dava-me prazer também aquela atmosfera de chuva fina sobre o mar, nossos olhos à espera da repressão policial aos protestos contra mim, pela janela, em vão. ----- A necessidade corpórea (eu disse), até mesmo a náusea e a vergonha, ou ainda outras experiências marginais, podem transformar o corpo de um homem no lugar privilegiado da experiência do ser em estado puro ; do ser em seu aspecto mais desértico, obsessivo e horrendo. É preciso desocupar o porto para que o navio chegue, pois o simples fato de algo existir ''ali'' , sem nenhum refúgio, literalmente ''pregado'' ou ''esmagado'' dentro do próprio corpo, constitui já uma verdade divina. E assim também é uma verdadeira nação, quando a sentimos como nosso próprio corpo. Ela já não é apenas mais próxima ou familiar que o resto do mundo, não é apenas o fundo sociológico que determina nossa vida, nossas emoções, nosso humor e nossa atividade ; ela é antes o corpo da nossa mais completa identificação, sem o qual nos tornamos almas penadas. Não nos afirmamos nós nesse calor único de nosso corpo muito antes do florescimento do Eu (?) E não resistem a toda provação esses laços que, antes da eclosão da inteligência, o sangue estabelece (??) ----, indaguei a ela. Rosemary tinha consciência que, com o tempo, eu criara uma espécie de harém vertical de amantes versadas nos mais estranhos tipo de dualismo da Personalidade ; aparentemente, em algum ponto ou interstício desgastado de sua conturbada ligação comigo, ela se colocara nas fileiras das minhas mais desejadas concubinas, e renovava constantemente nosso relacionamento chamando-me de ''meu jovem ditador sanguinário'' durante nossas cópulas. Compreensivelmente, eu reagia devagar às suas exortações femininas, no sentido de um ''compromisso'' que sempre se traduzia em fuga, poligamia e, posteriormente, na minha prisão e encarceramento nos Estados Unidos por assédio sexual. Num daqueles dias quentes de Konam, no Palácio Presidencial, ela falara-me propositadamente com muitos floreios sobre o assunto, o que me deixara meio desconfiado : ----- Em um perigosa prática desportiva (ela disse) ou em um exercício em que os gestos atingem uma perfeição quase abstrata sob o sopro da morte, todo dualismo entre o Eu e o corpo realmente desaparece. E na situação do assédio sexual, igualmente. Na Mercado Livre de Konam, por exemplo, todos aqueles guias, carregadores, guardas, navegadores, ferreiros, seleiros, intérpretes, contadores e controladores da qualidade das mercadorias, ficam babando sempre que me vêem chegar. Sabendo disso, e por algum instinto de perversão meu, sempre disponho maliciosamente dedilhados de dois ou três trastos no pescoço do meu ''anzad'', expondo simultaneamente um pé nu ou um artelho enfeitado de braceletes. Aquele homens rudes de Konam, cujos rostos não passam de fatias de pele curtida pelo sol, atrás das dobras de seus ''galabiehs '' e ''keffiyehs'', cercam-me com espantosa rapidez quando apareço, e outro dia os guardas tiveram que empurrá-los aos montes para me tirar da tenda de água de seltzer (.) -----, ela disse. ''Certas coisas claramente tomam a palavra, entre nós, enquanto eu deliro, sem pedir nenhuma autorização '' (eu pensava) ''E isso vai até as mais altas esferas do pensamento filosófico, onde uma senha silenciosa, mágica, à força da mais pura poesia, credencia a passagem de conceitos maravilhosamente desconhecidos pelo ''portão'' do meu intelecto ''. Rosemary não ficara aturdida, de jeito nenhum, com minha resposta : ------- Nossa aderência ao Eu vale por si mesma (eu disse) Uma união cujo trágico sabor em definitivo nem mesmo um estupro poderia alterar. A essência do ser humano não está mais na liberdade burguesa, e sim nesse místico encadeamento do corpo: sermos nós próprios não é mais retomar um ilusório vôo individualista acima das contingências sócio-econômicas, como quer a tradição cristã e liberal do Ocidente; e sim tomar plena consciência desse encadeamento original e inelutável, único, ao nosso corpo. Encadeado ao próprio corpo, recusamos o poder de escaparmos de nós mesmos. Quando nossa energia psíquica está toda compactada no nosso próprio corpo, a verdade deixa instantaneamente de ser a mera contemplação pasmosa e auto-reflexiva de uma espetáculo estranho no espelho(.) -----, eu disse. Novamente, uma sensação forte de estar em alto mar, sob a chuva (como assim ?) formava uma redemoinho através do vidro da janela. Meu delírio, naquele momento, se ligava ao corpo de Rosemary sobre um fundo negro, como em uma gravura queimada. A flutuação das minhas vistas fazia de todo o espaço da sala uma tessitura. Uma situação-limite em que a inutilidade de todo e qualquer movimento era precisamente o índice do instante supremo em que eu a beijaria de novo ; à medida que o estrépito sibilante das balas de metralhadora se fazia mais longínquo, e que as violentas silhuetas do meu delírio-genocida deixavam de projetar-se através do impreciso volume prismático da sala, ela mordia meu ombro para mostrar-me que eu já podia movimentar a massa protetora do meu corpo por cima do seu. Então, ela sacudiu um pouco a areia de seu elaborado penteado em trancinhas, cujas parábolas eram armadas por alfinetes prateados, e, a fim de fortalecer seus quadris para a ''jornada'' que entraria noite adentro, meteu na boca uma noz de haxixe. Mascou maravilhosamente, enquanto eu beijava seu pescoço, a boca tingindo-se de um profundo tom cinzento em meio ao êxtase dos maxilares frouxos. Além de seu suprimento de nozes de haxixe liberianas, ela trazia consigo um embrulho de ''khat'' etíope. Com as vestes soltas, sua posição agachada no tapete, revelava-me, entre as torneadas rotundidades entreabertas de suas coxas, seu primoroso orgão genital, as partes inferiores recortadas em duas saliências rosadas, a fenda apenas dissimulada pela fina névoa de um milhar de pequeninos anéis encaracolados. Vendo-me a contemplá-la, ela riu e, sem abandonar o enlêvo de mascar sua noz de haxixe.
Tempo demais
Através do vidro da janela, eu via garrafas de vodka enfileiradas ao sol, com reflexos tão quentes quanto raios laser. Lá fora, ainda, a multidão enfurecida adivinhava o roçar lascivo da minha boca nos seios pendulares de Rosemary ; as preces da tarde de protestos políticos sangrentos , o reempacotamento dos novos carregamentos de fuzis AK-47, de nossa braçada de coisas estatais armazenadas nos nossos amplos ''khoorgs'' militares. Após o amarramento das roulas de couro das tendas de Fanta-Laranja perfumadas com gotas de anisete, as caravanas de camelos certamente receberiam sua carga de cincha com um resfolegar e um bater de pestanas totalmente disneyesco. Na metade alta do meu cérebro, subsistia ainda certo ritmo contínuo, tilintante e alucinatório, do dia de manifestações contra meu regime : uma sucessão de breves e ordenadas concussões letais, alvejamentos aleatórios, espancamentos e gritos de terror que enchiam a frente do Palácio Presidencial de horror, sendo a morte a penalidade certa para qualquer atividade subversiva contra a autoridade de K. O campo de batalha estava totalmente dividido entre minha Guarda Nacional Kojeviana, que defendia um Estado Africano Universal e Homogêneo, e progressistas liberais de matizes variados, a maior parte já morta no meio da rua com brutalidade. Vendo algumas dessas cenas de violência pela janela do Palácio, parecia-me impossível pensar num ''cumprimento da história africana '' sem a forma vazia da soberania estatal, totalmente concentrada na minha pessoa. Lembro de ter ido ao menos uma vez ao meu gabinete, naquela tarde, discutir o ataque em curso com meus comandantes. Quando voltei para a suíte presidencial, a doce Rosemary, apaziguada pelo haxixe, alegre em todos os pormenores de seu belo corpo , cantava maravilhosamente acompanhada pelo som rangente do seu ''anzad''.
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