KM
sábado, 31 de dezembro de 2016
(?!) 38
----- O velho mundo agonizava, o novo tardava a nascer (.) ----, eu disse à ela, citando os Cadernos do Cárcere de Gramsci. Sereia fria subindo da água negra. A areia cinza diante da ressaca como Geryon ---- eu encantado ali, no esplendor do conhaque Veritas, a profundeza do mar noturno pela vidraça do hotel ... Se aquela era mesmo a Riviera Francesa, eu não saberia dizer, mas Alice certamente não estava mais apreciando a vista da batalha. A classe financeira mundial, a Matrix, conseguira finalmente subjugar a humanidade inteira através do Estado, e não importava mais se as novas oligarquias eram neoliberais ou socialistas : 53 pessoas possuíam mais do que 4 bilhões de indivíduos. No claro-escuro da globalização, o único monstro que ela via irromper do debate político mundial era eu. Um monstro que, no entanto, tinha um lado sensível.. ''mais ou menos como o antigo Banque de France'', parecia pensar Alice, sorrindo com os lábios rente ao conhaque. ----- O que mais você esperava que eu escrevesse, Alice (?) Qualquer gota de auto-controle que restava nas minhas veias se evaporou durante as eleições americanas. Ao ampliar meu império de influências, minhas forças diminuíram. Ah, poxa vida (!) Quando vem me falar dos novos projetos de emancipação política e social dos franceses, e de soberania e política fiscal , só consigo pensar nas lições de Talleyrand. Numa nota dele, de 22 de abril * , lê-se: ''há muito poucos homens aqui... interessados em ... CIVILIZAÇÃO '' -----, eu disse. Sereia linda saindo do conhaque dourado. ------ Isso não está bom, K (.) -----, ela disse. Olhos inquietos. Luz inquieta. Nenhuma simulação. Mas ela sempre fôra uma atriz inteligente, delicada, serena, e agora vivia dando encontrões nos outros no meio da rua. Privada dos meus roteiros, angustiava-se, representando papéis cada vez mais parecidos consigo mesma. E no bar daquele hotel estava em obra , entre nós , um jogo de olhares que era já uma profecia política : Um novo mundo que podia amedrontar não só os ricos, mas também os ''movimentos sociais'' aparelhados pelo PS, ao redefinir as relações entre a espécie humana e a natureza, transformando a crise do neoliberalismo numa crise generalizada da própria civilização, através de um leitura completamente desconhecida do budismo tibetano. Ela certamente me repreendia em alguns pontos, mas naquele momento eu precisava saber dizer não à insensibilidade e à frieza. Ao observá-la se levantar do banco, minha alma praticamente dissolveu-se no ar. ----- Quando Alexander perguntava à Talleyrand o que fazer com a França (eu disse) , ele só conseguia responder alterando imperceptivelmente o significado das próprias palavras de uma conferência para outra. Eles consideravam aquilo política só porque dava certo. Enquanto Orange sustentava que o básico era a piedade (KARUNA, em sânscrito). Amor. Ouro chumbado 'ex-profundis'' ; desigualdade social ; destruição dos ecossistemas ; guerras descentralizadas e onerosas ; questionamento ideológico da democracia; e a fusão da política com o mercado financeiro reunindo forças para uma última ofensiva (tiques , impulsos espasmódicos e maneirismos católicos) , o que não podemos definir de nenhum outro modo, senão como uma ampla catástrofe da esfera da gestualidade francesa. Digo: da política francesa. Relendo o ''Éttude sur une affection nerveuse caracterisée par de l´incordination motrice acompagné d´echolalie et de coprolalie '', citado por Gilles de la Tourette em seu ''Études cliniques et physiologiques sur la marche'' , percebemos que os ''pacientes políticos'' do mercado financeiro, muitos deles hoje candidatos à Presidência de suas nações, durante seus atos de campanha não são capazes de ''iniciar nem de finalizar os gestos mais simples'' , como aconteceu há pouco com Hillary Clinton, na América ; quando conseguem iniciar um movimento intelectual minimamente coerente, esté é logo interrompido e desarranjado por sobressaltos desprovidos de coordenação e frêmitos nos quais parece que a musculatura facial dança (chorea) de modo totalmente independente das faculdades intelectuais (.) -----, eu disse. Quando saímos para andar na praia, recordei ou imaginei tais cenas de campanha. Comparadas a tais fantasmagorias, ''o homem que caminhava com segurança na rua '', ''o policial que corria com um fuzil '', ''a mulher que caminhava e colhia uma flor '' , ''a mulher que andava e mandava um beijo'' , eram os gêmeos felizes de nossa visibilidade apaixonada sob o luar. Eu era simplesmente obcecado pela beleza dos gestos de Alice, pela política de seus gestos, que, como numa mímica, mantinham-se em suspensão '' entre le désir et l ´accomplissement, la perpétracion et son souvenir '', naquilo que Mallarmé chamou de ''milieu pur '' . E a política (eu pensava) era a esfera dos ''puros meios'' par excellence ; da mais absoluta e integral gestualidade.
KM
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
(?!) 37
O que eu ouvia em meu foro íntimo era o nome Khan , para este Khan, o dourado barco do Sol , bem nítido. Eu mascarava a força deste nome com a mesma simplicidade que os diários liberais usavam na América para dissimular seu apelo incessante ao consenso e sua predisposição genética para a cortesia de classe, que desarmara a classe operária americana a partir da social -democracia. Assim , enquanto cidadãos de boa vontade eram chamados a vigiar à espera de ataques fantasmagóricos, com uma quietude incrível nos meus papiros, eu passava pela brecha que o próprio Partido Democrata deixara aberta na imprensa . Comportava-me então como um ''jornal de referência'' do Pentágono, fazendo as vezes de ''gazeta'' para todo tipo de empresas, e afagando a elite meritocrática americana com a frieza dos meus cristais mais caros, minhas águas clareadas no fluir livre de torpores , ali onde minha mente se movia mais cuidadosamente, na zona de tiroteio entre governo e imprensa. ----- Bichos para o corpo e para o saber (.) -----, dizia Richardus. Meus ''rilievi '', nessa ou naquela cerimônia pública, só para aparecer nas páginas importantes de cada edição, como uma pedra colossal encaracolada na margem dos assuntos. Faunus e sirenes do status quo: a pedra angular tomando forma no ar , em alta velocidade. Rapidamente converti-me numa máquina de produzir impressões fortes, importada à off-sets chinesas e subornada para colaborar . Eu transformara Nova York numa arena privativa para minha práticas meditativas. Experiências que até então eram consideradas ''meramente políticas'', de repente haviam sido confinadas no corpo biológico do s americanos e esses, por sua vez, foram projetados para fora de si mesmos, como numa reação química violenta do corpo à própria alma. Um corpo político tomou forma, como consequência de tais processos. As almas que eu via agora, caminhando na Harrison Street , cercadas por arranha-céus, pendiam meio metro para fora do corpo, imaginando o que teriam os levado a um tal estado , e também de que maneira, abandonados aos próprios recursos, conseguiriam dar-lhe um fim . Mas à essa altura eu já me habituara a pensar e escrever nessa confusão de corpos e lugares novaiorquinos, separando exterior de interior , aquilo que é mudo daquilo que tem palavra , o que é escravo do que é livre , o que é necessidade do que é desejo . O desejo agora era pura ensamblagem de peles, e nos arranha-céus haviam agora vozes e asas; asas cinzentas, asas negras e asas matizadas de carmim. Guarda-sóis em ascensão na TriBeca. Aquelas casas tinham sido projetas por John McComb Jr. , o primeiro arquiteto importante nascido nos Estados Unidos. Do outro lado daquele complexo de edifícios, o Washington Market Park ... ofegante , seguia decidido para a loja de vimes na White Street, dispondo de pouco espaço no meu pensamento para os lofts do SoHo, enquanto meu tablóide escandaloso era acusado pela opinião pública de se cevar em pornografia de monstros produzidos pela talidomina, as forças da natureza e a astrologia das ''starlets'' ; meu pseudônimo elegantemente reproduzido num prelo por franceses que, trabalhando com fontes Didot e desprezando toda e qualquer pictografia, imprimiam incessantemente as mesmas portarias hermeticamente abrangentes e simétricas, juntamente com meditações sobre a prática do ocultismo e da elaboração alquímica da prosa poética. Na loja de vimes do N³³³ eu tinha também meu tempo contado. Ali , jovens viciados de faces encovadas saíam segurando seu contrabando de heroína embrulhado em ráfia, enquanto que , no segundo andar, os colarinhos-brancos ligados ao Partido Democrata, em surdina , dirigiam-se, invisíveis e fielmente , à bancos e patrões
Meus ombros metidos num terno cinzento parecido com os do FBI, fazendo uma inspeção de segurança naquele posto avançado dos ''trabalhadores racionais da Costa Leste '', aqueles frutos ainda frescos de Princeton e Harvard que eu tratava como pares jornalísticos dos economistas do MIT e analistas do Credit Suisse e da Brookings Institute. ----- Acima de tudo (dizia-lhes) vocês são um meio social protegido da insegurança econômica, observando as massas americanas com patéticos óculos de aristocratas . O pensamento de vocês acostumou-se à dominar um público intelectualmente indefeso com leviandades liberais e egoísmo cru (.) -----, eu disse.
----- Suba (!) -----, disse uma voz de mulher, de repente. Ora, como um prisioneiro da audição, precipitei-me não sei mais quantos andares para cima, enchendo-me de ofegos e pressentimentos. Rodava a cabeça a cada lance de escadas, proferindo palavras tão ininteligíveis quanto aquela voz. Investia para cima, mais do que subia as escadas , parando e lançando em torno olhares furiosos e desconfiados. Era assim geralmente, que eu A visitava, antes de ser informado de cada visita. Em intervalos espaçados, que produziam estrépitos, pesadume, cólera, esforço incessante e transformador do vitalismo .Olhando-me no espelho, nessas ocasiões , via-me desaparecer, numa espécie de urro do corpo inteiro , quase contra minha vontade. Súbito ,um pesado molho de chaves deslizou através das persianas e caiu como uma estrela aos meus pés. Um espaço limpo esperava pelos meus olhos, lá dentro. A porta abrira-se revelando um cubo de luz cujo centro retinha um sombra, cautelosa e indescritível, de mulher jovem , que com alguma relutância apontava o dedo na minha direção. ----- Feche a porta (!) ----, ela disse, encarnando uma altivez esguia e elegante que , no entanto, só sabia dar ordens . ----- Suas máscaras se esgotaram , K (disse ela) Essa última simplesmente não foi uma boa canção (.) -----, mas, como especialista no que fazia, eu não levava nada para o lado pessoal .---- Toda idéia grandiosa possui uma escala inorgânica que dificulta um pouco seu manejo, é preciso alguma paciência
K.M.
Meus ombros metidos num terno cinzento parecido com os do FBI, fazendo uma inspeção de segurança naquele posto avançado dos ''trabalhadores racionais da Costa Leste '', aqueles frutos ainda frescos de Princeton e Harvard que eu tratava como pares jornalísticos dos economistas do MIT e analistas do Credit Suisse e da Brookings Institute. ----- Acima de tudo (dizia-lhes) vocês são um meio social protegido da insegurança econômica, observando as massas americanas com patéticos óculos de aristocratas . O pensamento de vocês acostumou-se à dominar um público intelectualmente indefeso com leviandades liberais e egoísmo cru (.) -----, eu disse.
----- Suba (!) -----, disse uma voz de mulher, de repente. Ora, como um prisioneiro da audição, precipitei-me não sei mais quantos andares para cima, enchendo-me de ofegos e pressentimentos. Rodava a cabeça a cada lance de escadas, proferindo palavras tão ininteligíveis quanto aquela voz. Investia para cima, mais do que subia as escadas , parando e lançando em torno olhares furiosos e desconfiados. Era assim geralmente, que eu A visitava, antes de ser informado de cada visita. Em intervalos espaçados, que produziam estrépitos, pesadume, cólera, esforço incessante e transformador do vitalismo .Olhando-me no espelho, nessas ocasiões , via-me desaparecer, numa espécie de urro do corpo inteiro , quase contra minha vontade. Súbito ,um pesado molho de chaves deslizou através das persianas e caiu como uma estrela aos meus pés. Um espaço limpo esperava pelos meus olhos, lá dentro. A porta abrira-se revelando um cubo de luz cujo centro retinha um sombra, cautelosa e indescritível, de mulher jovem , que com alguma relutância apontava o dedo na minha direção. ----- Feche a porta (!) ----, ela disse, encarnando uma altivez esguia e elegante que , no entanto, só sabia dar ordens . ----- Suas máscaras se esgotaram , K (disse ela) Essa última simplesmente não foi uma boa canção (.) -----, mas, como especialista no que fazia, eu não levava nada para o lado pessoal .---- Toda idéia grandiosa possui uma escala inorgânica que dificulta um pouco seu manejo, é preciso alguma paciência
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
domingo, 25 de dezembro de 2016
(?!) 36
Materiais de Psamênite utilizados na redação do contador de histórias , encontrando fortes semelhanças presumíveis ''em detalhes de estilo'' com outros documentos e fotografias. Nenhuma explicação dela porém, calma e sociável como sempre. Já eu, não sabia se tinha sonhado ou sido de fato interrogado por um agente na Chancellor Avenue . Voltei de lá tonto, evitando o choque se ... e assim por diante . Jogando com algumas peças intelectuais fora de circulação . Mas não lemos romances para multiplicar nossas experiências, apenas para multiplicarmos a nós próprios, entre nossas condições de vida há muita coisa que só quem lê entende .Os livros de um erudito são sua serenidade (wainagium), mas ele não se prende de modo algum aos livros, devora-os e nada mais, com a serenidade de um vilão. Ou chutze , sob o céu o monopólio é uma prática comum, mas é evidente que sou o único a fazer o que faço . Sim , nos momentos de maior lucidez considero-o perfeitamente possível . Minha lucidez alcança tamanha acuidade que até meus escritos, no começo da minha carreira política, me parecem críveis. Eu fôra tão esquerdista no começo que atuara até como porta-voz dos sindicalistas radicais. Uma pequena lâmpada e uma grande paciência, para conduzir minha torrente de pensamentos no vazio do materialismo histórico , nessa época , como uma corrente sanguínea purificada. Depois, vendo que ela permaneceria irredutível com o passar dos anos , cedi . Ela me seguia com os olhos e eu não fazia outra coisa além de ir e vir, às suas ordens . E não maquinava, ao me aproximar dela. SHIH , no primeiro tom. Da alimentação diária à leitura compulsiva de romances havia uma escala contínua , até as praias do amor . E escrever é o ato de vampirizar as coisas, extraindo delas seu sabor vital . Operação psíquica que investiga e recolhe os graus materiais dessa escala, até o sabor último das coisas , pessoas e acontecimentos. Classificação gastronômica da prosa : os modos narrativos do povo , todo um cânone de procedimentos, , da prosa que circula como dinheiro difícil, como alimento raro, sem a duração desnecessária daquilo que é incompatível com independência do pensamento . Arrancado ao domínio mágico e hierático do que foi assimilado , e com isso sua intenção antropológica, nos remeteremos mais uma vez à esfera profana, para destacar o elemento carnívoro do ato de escrever . Há tanta tensão na carne daquilo que é do puro âmbito da matéria, quanto em sua carnação conceitual , que também é diferente do que é determinado na carne pela ''tensão'' narrativa. O afeto fundamental da leitura, por sua vez, é a fome de matéria.
sábado, 24 de dezembro de 2016
sexta-feira, 23 de dezembro de 2016
(?!) 35
Espantava-me ela chamar isso de refletir , pelo fato de eu não ousar parar , ainda que a história fosse ficando comida pelas bordas, eu gostava de tê-las até despedaçadas. Certas histórias que nos ajudavam a identificar nomes embandeirados , levando diretamente aos cachos de estrelas, à configuração de grandes constelações , aquilo era o que mais interessava ao mundo olhar, aquele uso transmutado da astronomia midiática , destacando-se invariavelmente do bolo massudo de jornais e fotografias do dia na imprensa. Quis erudiet sem documenta. Um quilo e meio de jornais por dia, depois um texto esclarecedor , o rascunho, vindo a falar sobre ele em tres ocasiões por dia. Então, de que se tratava, afinal (?) , não para falsificar a historia da economia e impor um ponto de vista liberal devido a relações de negócios privados. Moça. Qualquer que seja nossa crença , os governos não são mais representativos. Posso não conhecer bem todos os ''cavalos de batalha'', mas quem cavalga o anima l se enche de dever depois . O próprio cavalo vê a diferença. Jahowl ! Em pouco tempo , jogam fora tudo aquilo que não querem mais combater , tudo , menos o necessário para trabalhar no mesmo raio de onda que o anterior . Mais impenetrável ainda é a declaração do secretário de um grande partido democrático da Itália , segundo o qual os juízes que o acusaram de corrupção estavam conspirando contra si mesmos. Calculo mal a distância que nos separado outro mundo, por sinal ? Por isso resolvi buscar toda minha substância naquilo que em outros tempos podia ter parecido, até para mim , não ser suficiente , para habitar com paixão apenas certas partes especiais do discurso. Por isso eu te pegava pela mão e te segurava comigo vinte ou quinze minutos naquela varanda , olhando para o céu ou abrindo caminho até a lagoa , sob o inventário estrelado da noite . E sem ir ao ponto de dizer que via o mundo de cabeça para baixo (isso seria muito simples ) , é certo que o via agora de modo exageradamente formal , nem um pouquinho esteta, um mínimo de artista dentro de mim, nessas ocasiões políticas. Você deve ter percebido, no entanto , que algumas de minhas afirmações fizeram sentido ontem à noite, empanturramo-nos com aquela história . Todas as pessoas com algum papel no relato terminando suas aparições com a moeda corrente das citações livrescas . Uma vergonha termos de lutar contra eles. Mais le prussien (!) Estamos sob a Fortuna enquanto trabalhamos numa tradução pesada : ---- '' Você chegaria fatalmente a essa conclusão, moça '' ----, eu dise `ela : ''Nem as idéias do nosso tempo nem as ambições políticas de nossa época estão determinando o destino do mundo. Os eixos do carro foram tirados. Não existem pás suficientes ,chamo isso de processo de empilhamento das políticas industriais . Novas políticas não reveem ou levam em consideração políticas pre-existentes. Desprovidos de memória temporal , o resultado é uma estrutura amorfa. Sem ser nem um pouquinho esteta. Esses esforços partem de uma observação de introspecção tão minuciosa quanto a circulação sanguínea. De todo modo, a imagem que estimula a atenção deve ter força de atração. Nisso consiste a magia do ato de meditar. Ao contrário do folclore , a não ser pela constelação de Lira ----- que calhou de estar pousada no alto do céu oriental , um pouco a oeste da Via Láctea e a sudeste da Ursa Maior e Menor ---- não há nenhuma harpa melhor que o horizonte aberto . Vemos no céu o inconcebível , o espetáculo colossal de não existir nenhum antagonismo . Les mystéres du gout , fechando todos os alçapões que tinha armado para o jogo selvagem da inovação . Dos paradigmas culturais e sociais à inovação dos processo de produção . Algo como um nirvana numérico esperando reduzir custos . Atenção total à saída do assunto , mas nenhuma para sua verdadeira fonte, atrás dos óculos escuros. O problema da edição . Lâmpada de Min para Nippon . Entre o mero usuário do coração e o homem que faz um bom trabalho, sem apegar-se à estimativas , aos custos pelo uso do dinheiro ou crédito . Por que assim como eu , você também tem suas ideias em ordem. Perché sivual mettere .Calma na superfície do seu sorriso , falando mais da antiga ''razão de Estado'' , que Bottero definia, sem dúvida, como a ''notícia de meios-atos que fundam , conservam e ampliam o domínio sobre os povos '' . Deslizamento da razão para o sentido , do racional para o irracional, onde só pode ser bem sucedida a intuição. Mas falar de razão de Estado hoje é indecente. É sempre apenas alguém querendo fatos que chega a essas conclusões. DE Roanoke , 18-31 : ''Nação tola querendo tomar emprestado o seu próprio '' . Cogitatio . Meditatio. Contemplatio. Dante tbm leu o que Richardus escreveu ; e as diversas janelas que se abrem na minha cabeça ,quando me curvo sobre aquele período , talvez existam ainda hoje. Centrum circuli . Graças a não sei que mecanismo de compensação. O poder sempre procura uma possibilidade extrema de saúde em um ''sentido''' que não entendemos bem onde reside e que me lembra (risos) o sentido de honra do Ancien Régime. Por isso busco , em contrapartida, remover ou trocar constantemente as mitologias antes que elas estabeleçam valores puros . Todas as mitologias são luzes intelectuais procurando alguma prática comum para ajudar a pressionar o poder . CHIH , um instrumento de política avançado , mais ainda que uma medida. Desttut ou seja quem for , todo nosso metal precioso como permuta do desejo . Mas ao invés de satisfazer aquele desejo, ele me enfeitiçou , perdi um tempo enorme apenas contemplando- o , e acabei desaparecendo dentro de um sonho . Um erro grosseiro me encarquilhou ,naquele momento , como a famosa pele de onagra , apenas muito mais rapidamente. Custou-me esforço endireitar minha lentidão até extrair dela novamente alguma beleza. AS seções, as proporções de uma lentidão imóvel deslocando para fora do tempo e do espaço . Podendo, no entanto , abri-la e fecha-la com facilidade .Salta sin barra, mas as folhas todas legíveis. Uma interação e tanto, Tê, e um honra . Bombeando minha sombra de novo, faço ela reaparecer de novo , enquanto ela se mostra cada vez mais cheia de detalhes para me impressionar . Há muito que não sou mais mera epistemologia para os jornais. Os cômodos em que fazíamos aquelas fotografias e onde as entrevistas tinham sido gravadas pareciam réplicas de dançarinas órficas num altar raro. No comentário de Neruda alguma crítica do meu foco nas edições autênticas, ou mesmo do meu uso do processo , e dos montantes de coerência, resistência e duração .As observações dela sobre a ''visão dissolvente'' ficaram registradas no meu pensamento para sempre , infiltraram -no .O elán ,o bloco foi infiltrado . Aquela sala era o próprio mundo ---- o mundo tornara-se uma bola de salas , ao passo que antes fôra um vasto descampado marcado por mínimos bolsões de abrigo . Nossos crânios , agora, eram salas completas . Um mosaico de privacidades inescapáveis. Nas ocultas adegas e apartamentos em que as jovens celebridades dessas páginas chocavam-se com algum fervor literário meu , a palavra SALA parecia conter algum enigma sem cuja solução o giro do mundo não poderia ser detido , nem sua plataforma mitigada. Quando a noite encheu todos os cantos da cidade , sua voz recuperou a sala e reviveu a curiosa captura e libertação química do sono . A cidade liquefazia-se, as luzes úmidas do distante campo de pouso dos pensamentos tremeluziam nos olhos dela, ampliadas . Quinze minutos nesse ritmo , pela manhã , depois a visita de sua beleza, sua marca, seus olhos e seus acessórios. Harmoniosas indumentárias. Belos vestígios do verão .
K.M.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2016
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
(?!) 34
---- Olhe (eu disse à ela) não sei mais como sair dessa história. Quando me desvencilho de um capítulo ,como acabei de fazer , todas as ilusões óbvias, da ideologia ao amor , se aglutinam num ponto do meu cérebro e formam um novo sistema narrativo . O delirante caso privado em que a experiência comum do pensamento é liquidada e eu sou obrigado a recomeçar . É como tocar o corpo de uma estrela exatamente ali , onde mais ela brilha (.) Porque qualquer idéia de pureza aqui é petrificação. Nossa dinastia chegou na terra devido à uma grande sensibilidade , instigada por quinhentas mil coisas diferentes . Todas da época de I Yin, a ciência de ver sombras (hsien) ; pulando para o lado vencedor muito antes dos desígnios do início. Sem a estaca de ferro da retidão (no entanto ) com que calçamos nossa estrada para o sucesso , sem a grande mentira da retidão , para nos dizer porque fazemos o que fazemos, teríamos de nos perguntar porque fazemos o que fazemos, teríamos de nos perguntar o tempo todo : ''PORQUÊ (?) ''. O sol queimando sob todas as nossas respostas : Justice , d´urbanité , de prudence ... não um mero epítome sem organização, isso não é filológico, não se guia pela lascívia ou o desrespeito , em absoluto, nem pela trama e os gostos insidiosos, são como árvores e água sobre rochas. OS QUATRO TUAN OU FUNDAÇÕES. Do tempo de T ´ang até hoje. Perspicax qui excolit se ipsum. De fato: um pateta espetado no poste da ágora. Mas seguindo esse processo é que transformei a GUERRA TOTAL em CONTEMPLATIO . Sem perturbar ninguém com armadilhas de peixe, e com voce não será diferente agora. Profissionais de alto nível criam modelos econométricos para projetar câmbios de equilíbrio, MAS EU NÃO (!) Então, os diferentes clãs dizem: ''OBA (!) , ele disse isso ou aquilo '' ; não somente fluxos de entrada e saída de reservas, mas também antecipação de expectativas futuras de movimentação de divisas. A pressão emocional do mercado, certo (??) Olhando para você (linda como é ) -- me pergunto de onde encontro forças para falar assim (essa é talvez a sexta hora seguida em que entro falando sem parar nos seus ouvidos, e você continua me olhando desconfiada... me ouvindo, mas quem está hipnotizado (nao se engane) sou eu . Tudo aquilo que imponho a mim mesmo, os pensamentos e os sonhos, não passam de um projeto de ''romance'' que explodiu nas minhas mãos. Inicialmente, era um drama radiofônico , mas a agitação política das massas transformou-o em selvageria poética e, depois , num tipo de vida pequeno burguesa completamente desconhecida , dominada pelo controle telepático sobre as finanças mundiais e a cosmogonia extra-terrestre e seus mitos . K ´o , tchog ( eu pensava comigo : Vamos K, ponha algum trabalho difícil nisso ; não por vãs disputas, e nem para descansar depois sobre um grande trabalho feito ; mas pelo que, no correr do tempo , ''reddidit gubernium imperatori '' , capiche (?) O que é o quê (?) Algum isolamento, por vezes , o sino chamando para a meditação ; VOCÊ RI , mas é verdade ... seu riso me permite sentir-me forte, e retempera minha independência em relação à tudo .... ----- Espera aí, moça, aonde você vai (??!) -----, Ah, bem (....................................................Não sabia que você fumava...novas risadas, hein (??) Pelo menos você não repeliu completamente minha primeira abordagem. Seu olhar de esguelha , tão provocante quanto seus óculos escuros . Relacionamentos sociais potencialmente ... como direi isso (?) comprometedores, não ?? Veja essa variedade de cachoeiras que temos aqui: são seis da tarde e a vela de erva-cidreira ainda está ardendo na cuia de alumínio ; esse pequeno pote de fogo será nossa única luz daqui a alguns minutos (mas a lua tornará a cabana discernível ; a única coisa que não quero perder de vista, de jeito nenhum, é VOCÊ . Olhe.. lá se vai a luz. Eis-me : pronto para recomeçar a falar .Devo continuar ?? Pergunto-me apenas porque no fim da minha fala, havendo alguma transferência real de estímulos entre nós, me parece claro que se restabelecerá a situação inicial ; digo de novo : que terei de novo um monte de anotações no bolso, sem saber direito onde estou, nem com quem estou falando. Exceto pelo pálido fulgor que vem da lua alaranjada , desenhando os contornos do seu corpo na varanda, a alongada oscilação das minhas frases só faz pulsar as palavras na minha boca, como se eu estivesse cheio de pedras debaixo da língua. Estou tranquilo, pelo menos. Tão tranquilo quanto se pode estar nesse tipo de atividade. Por baixo dos meus pequenos algarismo negros, isso é tudo que veremos do quarto escuro, quando a luz se for totalmente. Então , falarei o mais baixo que puder . Embora com volume suficiente para atuar em seus ouvidos como um ímã. E sabe Deus quanto isso me importa ! Contra a cultura como areia movediça. Deixarei essas palavras quatro anos fora do mercado, passeando pelo Balneário Camburiú, incompreendidas... Nada de clássicos, nem história americana, nenhum centro , nenhum raíz geral. Nenhum PREZZO GIUSTO como núcleo. UBI JUSVAGUM . Permitirei trazerem de volta o estado de consciência de T ´ang, e então todos se perguntarão, assustados, de onde saíram tantos confucianos alertas . KAO. Até então puro kung-fu, nem eu tinha entendido direito .. A política fiscal mais relaxada, com defict controlado , investimentos em infra-estrutura e redução de impostos . Imperator : a taxa de Treasuries de dez anos caminhando para 3% ao ano , com dólar forte e petróleo em alta. Prepare esta directio, TCHÉO , fermentum et germina. .. todos estudando nossos cálculos misteriosos com a mente de um netinho . Vigiarei o tempo como um gavião. Pesquisa - observação - treinamento - meditação oculta. Antes de exibir em público certos ditados apenas pela comodidade do corpo , inventarei as regras fundamentais de uma teoria razoável. Verás como Wall Street aprecia essas fantasmagorias, MOÇA (!) Cenário externo e inflação . Se você quiser, agora, pode se retirar. Quanto a mim, NUNQUAM EGO , sou um alimento temperado em menta de recipiente envenenado . Céu e Terra são quem geram o Perceptor. O processo do Céu é mais coerente que o da Terra. Sem dúvida. Por Deus, como nossa audição vai longe, no escuro (!) Quando olho para você , sinto que minha voz como que vem do vazio, no fundo da paisagem , e domina tudo em seu raio de alcance : as circunvoluções de uma história flutuando no ar e entrando nos seus ouvidos , de modo que , se você imaginasse estar na China , nesse momento , a China se tornasse nitidamente visualizada por trás dos seus belos olhos ; a xícara de café na sua mão convertida no crânio ritual de um globo ilimitado. Que PODER DIVINO é ter um ouvido (!) Ch ´e ´ ditta dentro. Os pontos principais perfeitamente claros. Não é um fenômeno no mínimo ''semi-divino'' (pergunto-lhe) ser arrojado no mais profundo paroxismo da existência humana por nenhum outro motivo além de ficar sentada no escuro me ouvindo falar (?) HSIEN ... esteja ali nosso espelho. Nossa Dinastia veio por causa do Grande Ling : sensibilidade, p´i , nada além da justa contribuição . Decompor nossos sentimentos em minúsculo pedacinhos também é viver, eu sei , Mas sobre o ''outro mundo'' terei talvez a bondade de falar com você outro dia, sobre a paixão sem forma nem substância que ama sua carne mais ou menos com força, mais ou menos abertamente. Obrigado.
K.M.
terça-feira, 20 de dezembro de 2016
?! 33
''Ela é uma atriz, pelo amor de Deus (.) '' , pensava comigo, ausente de casa em missão de verificação de fatos. Tudo o que Alice falara na televisão na noite passada tinha a ver com seus sentimentos por mim, de como fôramos felizes e de como nosso casamento balançara por causa do meu ''pérfido comunismo''. Uma atriz : quando ela chegou a chorar, não acreditei no que meus olhos viam. Anônimo pelo centro de arquitetura de ferro fundido do SoHo. Cinquenta edifícios de ferro do século XIX em cinco ruas de paralelepípedos . Entre Broone e Spring Street , a mais longa sequência do mundo nesse sentido. Andando anônimo na pólis estuante que absorvera meu nome na iminência dos novos atos governamentais, eu procurava nos jornais notícias a respeito da desaprovação generalizada à minha pessoa . Nos cadernos de dentro, haviam às vezes boletins da capital ---- tão distantes quanto Roma de Amsterdã, quanto a Cratera Copérnico do Locus Somniorum. Na única entrevista que concedi, após deixar a prisão, deixei claro que entre eu e Alice, agora, corria tudo às mil maravilhas. Amor e aprovação mútuos restaurados sem arranhões. Mas toda vez que eu tentava sorrir para Alice com aquele sorriso adesivo colado na cara, olhava para ela com a mais penosa expressão hesitante do mundo , um olhar que simplesmente não a convencia, e até a irritava um pouco. ------ Sempre se referindo à um vago ''Governo Popular'' (ela dizia ) ; emitindo uma vigorosa barragem de novos incentivos salariais, moratórias fiscais para investidores domésticos, tarifas de importação e supressão de vistos para turistas. Boas-vindas, só para os especialistas israelenses em irrigação e segurança mundial e outras promiscuidades políticas altamente necessárias. Mas nem uma deixa conciliatória sequer. Não sou criança, K. Não estou falando só de amor . Esses conceitos que a mente humana alcançou tão vagamente quanto um registro em braille. Estou falando de uma leve luz suspensa na treva de seu palimpsesto , rescendendo à sua natureza confiante e à sua ímpia energia. A visão de uma Madonna sob guimbas de charuto cubano ; Quem mais, afinal, pode levar a bola de cristal para fora desse maldito enredo de obras inacabadas que dominou o mundo (??) ------, ela disse. Mas Alice não me parecia ter tanta imaginação para isso. Para outras coisas certamente, não para isso. ''Se o amor ainda não estava na casa (eu pensava) a história então se arrastava . Nada existia. A Beleza nadava nas trevas, com nadadeiras de Dragão ,para ser julgado , em breve . Por mais inteligente que ela fosse, precisava de um ponto de partida que eu mantinha em segredo, por considerar de interesse do Governo . Disneylândia contra Metafísica . Sem aquilo ,todas as minhas notas continuariam, indefinidamente, sem muita coerência para ela. Hic mali medium est .Uma leve luz, como a de uma vela , para levá-la de volta ao esplendor de meus pensamentos. Ela sentia (no entanto ) que havia em tudo aquilo um prazer sexual da minha parte. Algo que, quando eu falava com ela, praticamente esguichava da minha boca . -
K.M.
domingo, 18 de dezembro de 2016
?! 32
----- O velho mundo agonizava, o novo tardava a nascer (.) ----, eu disse à ela, citando os Cadernos do Cárcere de Gramsci. Sereia fria subindo da água negra. A areia cinza diante da ressaca como Geryon ---- eu encantado ali, no esplendor do conhaque Veritas, a profundeza do mar noturno pela vidraça do hotel ... Se aquela era mesmo a Riviera Francesa, eu não saberia dizer, mas Alice certamente não estava mais apreciando a vista da batalha. A classe financeira mundial, a Matrix, conseguira finalmente subjugar a humanidade inteira através do Estado, e não importava mais se as novas oligarquias eram neoliberais ou socialistas : 53 pessoas possuíam mais do que 4 bilhões de indivíduos. No claro-escuro da globalização, o único monstro que ela via irromper do debate político mundial era eu. Um monstro que, no entanto, tinha um lado sensível.. ''mais ou menos como o antigo Banque de France'', parecia pensar Alice, sorrindo com os lábios rente ao conhaque. ----- O que mais você esperava que eu escrevesse, Alice (?) Qualquer gota de auto-controle que restava nas minhas veias se evaporou durante as eleições americanas. Ao ampliar meu império de influências, minhas forças diminuíram. Ah, poxa vida (!) Quando vem me falar dos novos projetos de emancipação política e social dos franceses, e de soberania e política fiscal , só consigo pensar nas lições de Talleyrand. Numa nota dele, de 22 de abril * , lê-se: ''há muito poucos homens aqui... interessados em ... CIVILIZAÇÃO '' -----, eu disse. Sereia linda saindo do conhaque dourado. ------ Isso não está bom, K (.) -----, ela disse. Olhos inquietos. Luz inquieta. Nenhuma simulação. Mas ela sempre fôra uma atriz inteligente, delicada, serena, e agora vivia dando encontrões nos outros no meio da rua. Privada dos meus roteiros, angustiava-se, representando papéis cada vez mais parecidos consigo mesma. E no bar daquele hotel estava em obra , entre nós , um jogo de olhares que era já uma profecia política : Um novo mundo que podia amedrontar não só os ricos, mas também os ''movimentos sociais'' aparelhados pelo PS, ao redefinir as relações entre a espécie humana e a natureza, transformando a crise do neoliberalismo numa crise generalizada da própria civilização, através de um leitura completamente desconhecida do budismo tibetano. Ela certamente me repreendia em alguns pontos, mas naquele momento eu precisava saber dizer não à insensibilidade e à frieza. Ao observá-la se levantar do banco, minha alma praticamente dissolveu-se no ar. ----- Quando Alexander perguntava à Talleyrand o que fazer com a França (eu disse) , ele só conseguia responder alterando imperceptivelmente o significado das próprias palavras de uma conferência para outra. Eles consideravam aquilo política só porque dava certo. Enquanto Orange sustentava que o básico era a piedade (KARUNA, em sânscrito). Amor. Ouro chumbado 'ex-profundis'' ; desigualdade social ; destruição dos ecossistemas ; guerras descentralizadas e onerosas ; questionamento ideológico da democracia; e a fusão da política com o mercado financeiro reunindo forças para uma última ofensiva (tiques , impulsos espasmódicos e maneirismos católicos) , o que não podemos definir de nenhum outro modo, senão como uma ampla catástrofe da esfera da gestualidade francesa. Digo: da política francesa. Relendo o ''Éttude sur une affection nerveuse caracterisée par de l´incordination motrice acompagné d´echolalie et de coprolalie '', citado por Gilles de la Tourette em seu ''Études cliniques et physiologiques sur la marche'' , percebemos que os ''pacientes políticos'' do mercado financeiro, muitos deles hoje candidatos à Presidência de suas nações, durante seus atos de campanha não são capazes de ''iniciar nem de finalizar os gestos mais simples'' , como aconteceu há pouco com Hillary Clinton, na América ; quando conseguem iniciar um movimento intelectual minimamente coerente, esté é logo interrompido e desarranjado por sobressaltos desprovidos de coordenação e frêmitos nos quais parece que a musculatura facial dança (chorea) de modo totalmente independente das faculdades intelectuais (.) -----, eu disse. Quando saímos para andar na praia, recordei ou imaginei tais cenas de campanha. Comparadas a tais fantasmagorias, ''o homem que caminhava com segurança na rua '', ''o policial que corria com um fuzil '', ''a mulher que caminhava e colhia uma flor '' , ''a mulher que andava e mandava um beijo'' , eram os gêmeos felizes de nossa visibilidade apaixonada sob o luar. Eu era simplesmente obcecado pela beleza dos gestos de Alice, pela política de seus gestos, que, como numa mímica, mantinham-se em suspensão '' entre le désir et l ´accomplissement, la perpétracion et son souvenir '', naquilo que Mallarmé chamou de ''milieu pur '' . E a política (eu pensava) era a esfera dos ''puros meios'' par excellence ; da mais absoluta e integral gestualidade.
K.M.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
?! 31
''Numa prisão '' (eu pensava) ''um homem não tem personalidade. Ele é apenas um problema a ser resolvido e algumas anotações num relatório semanal. Ninguém se importa com quem gosta dele ou o odeia , como é sua aparência , ou o que ele fez com sua própria vida. Ninguém reage à ele a não ser que ele cause problemas . Ninguém o maltrata . Tudo o que pedem é que ele fique quieto, siga tranquilamente para sua cela e permaneça quieto depois de entrar nela . Não existe nada com o que lutar, nenhuma razão para ficar zangado. Todas essas histórias que lemos sobre homens gritando e batendo com ferros nas grades e guardas correndo com armas de efeito moral, é a penitenciária, não a prisão. Sem dúvida , ali eu apenas lutava pela vida da minha mente ; se fosse verdade que Alice me denunciara, então ela era uma gênia da manipulação. Tivera inclusive tempo de escolher entre as pessoas que podia trair, com sua simulação de impotência e timidez, e escolhera a mim . As pessoas estão destinadas a serem elas mesmas, e ninguém, provavelmente , o estava mais do que Alice, nos dias que precederam minha prisão. Mas o fato de se mostrar durante tanto tempo ''igual ''' sobre tantas matérias diferentes, muitas delas segredo de Estado, tornava-a a intermediária privilegiada dos domínios mais espinhosos de cada matéria. Ela fôra controlada pelo governo como uma verdadeira agente. E eu vim a registrar aquele momento com um desenho obstinado. Um par de olhos no escuro, olhando para coisa alguma. E após alguma reflexão, talvez eu tenha alcançado apenas a antiga lucidez da sobrevivência taoísta que possuía quando usava o ''Modo Asiático'' na espionagem dupla para ''proteger o orgulho alheio '' das autoridades estrangeiras. Quando as Filipinas iniciaram o arbitramento no Mar do Sul da China , todos os países envolvidos começaram a se provocar até destruírem completamente a atmosfera benigna que antecedia a disputa . E antes que eu fosse preso , quando todos os andaimes da política americana, da fama, da celebridade , do sucesso e do dinheiro estavam ainda erguidos à minha volta, para o meu deleite, a mentalidade farisaica que me levara à atuar como ''ator de mim mesmo'' se manifestava, livre de inibições, na minha voz rouca. A eliminação de tais mecanismos, no entanto, retirara de mim , e depois da política externa dos Estados Unidos, aquele domínio surpreendente, preciso e gratificante da própria voz. Desde sua fundação, em 1949, a República Popular da China assinara tratados de fronteira com 12 dos 14 de seus vizinhos, e também demarcara inúmeras fronteiras marítimas, como o Golfo de Beibu , com o Vietnã. Lavadas no mar do tempo, a China, porém , jamais, em toda sua história , fez quaisquer concessões territoriais a partir de pressões externas, e agora não seria diferente. Entre o pathos contencioso da defesa e a simetria sedutora da retaliação, nunca houve muita escolha para eles '' . Lembro-me de, em suspensão, na noite da cadeia, passar horas a fio estalando vagarosamente as juntas, dizendo-me que ia ferrar com todo mundo, ao sair dali. A luz mortiça do teto agia de forma catártica sobre mim. Estava me degradando, me transformando no inimigo mortal da América, por uns dólares a mais... fechando os olhos, matinha-os fixos em Alice , como sobre um desenho que a gente acaba por não ver mais de tanto olhar. Ela se escondia bem do meu terceiro olho. Via-a sempre alegre, em sociedade. Obras femininas : orlar, dar, dar nós , entrançar pensamentos, chupar, foder. Mas eu achava que as vezes ela parecia um espírito um pouco monótono, por trás de tanta agitação. Minhas horas na prisão foram se transformando num esforço contínuo para desarmar o detonador do meu impulso violento. No quinto dia, um cara da carceragem abriu minha cela no meio da manhã . Susto : a sombra das grades sobre meu corpo , a pele criando uma rede de pensamentos sombrios, onde o mundo inteiro estava enredado. ------ Seu advogado está aqui (o carcereiro disse ) Apague o cigarro. Não no chão, estúpido. Venha (.) -----, joguei o cigarro na privada e puxei a descarga . Ele me levou até a sala de visitas. Um velho alto, pálido, de cabelos pretos e olhos puxados estava me esperando. ------ Fui designado pela embaixada da China para tirá-lo daqui. Sinceramente , não é uma posição adequada para meu temperamento. Creio que não possuo uma alma de tigre. A confusão que você causou é assustadora (.) -----, ele disse, enigmático. -----Só um expediente de rotina para você, Imperador Amarelo (.) Não existe lei que impeça uma pessoa de mentir para o FBI . Eles chegam a esperar por isso. Se você pressionar o botão certo por tempo suficiente, a Justiça americana, mais cedo ou mais tarde, aparece nos noticiários da tv cheia de respostas inacreditáveis (!) ----- , eu disse. Primeiro, a experiência do susto , a impressão de que eu era um arquivo a ser queimado depressa, como se minha vida estivesse fechada num frasco , e o sono da manhã fosse o líquido em que ela boiava , e que agora , permeada por todos os cheiros da vida política, meu advogado chinês a estivesse escorrendo para fora da prisão, como um veneno difícil de manipular . Só depois veio o momento do desleixo, trazendo consigo , obviamente, grandes perigos . .. Voltei para Manhattan completamente estupidificado, pensando ter resolvido alguma coisa grande apenas com a força da mente.
K.M.
K.M.
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
?! 30
Após o massacre deliberado da população de Kzana, eu tirei meu capacete de fibra, a fim de mostrar meu rosto aos sobreviventes, e o megafone transformou minhas palavras em nuvens, no meio de todos aqueles cadáveres e destroços de prédios na rua. Minhas nuvens de palavras, carregadas como nuvens de tempestade, deslizavam sobre o encapelado mar negro de rostos da multidão. Escolhi um, entre todos aqueles negros, para a expiação geral ; ele estava encostado nas ferragens de um de nossos tanques danificados, preguiçosamente, verificando aquelas unhas manicuradas de branco, aqueles colares de ouro de branco, e assobiando alguma melodia pop de branco, entre seus dentes brancos, numa tentativa de desviar de si minha atenção. Não conseguiu. ------O que vocês vêem aqui ao meu lado (berrei no megafone) é um negro vendido, vestido com roupas de branco e que foi ensinado a vociferar a astuta truqueologia dos brancos. Quem o confirma é a própria relação entre Estado e terrorismo, no nosso tempo, quando nulifica e esvazia de conteúdo toda identidade real e substitui O POVO e A VONTADE GERAL pelo PÚBLICO e a OPINIÃO PÚBLICA. E o que vocês vêem ali, do outro lado, é um demônio cor-de-rosa, aparentemente tão suave quanto um sorvo de leite de bebê no meio da madrugada, mas que na verdade é venenoso como a picada que o escorpião guarda para a víbora. E o que vêem atrás de mim, é a monstruosa fábrica de porcarias dos brancos, asquerosa em seu cheiro e finalidade, parasitando o solo africano e corrompendo a alma e o corpo do nosso povo como a peste. Destruam essa intrusão imunda. Como devem ter percebido, nossas balas e bombas foram todas muito bem endereçadas, e já começaram a fazê-lo. Mas a conflagração total, que começa a partir de agora, iluminará vossos corações para sempre com o fogo da guerra e o clarão das novas explosões, e se tornará o tema de uma grande e inesquecível canção sangrenta que poderão cantar por muitas e muitas gerações. O que estamos advogando aqui é pura violência. Violência contra violência. Contra a violência que produz massivamente, a partir do seio gordo e flácido da Grande Rameira Ocidental , a pestilência espiritual que destruiu a identidade africana, nos transformando num imenso rebanho bovino de pretos consumidores quaisquer. Pois o mundo dos brancos é assim, minha gente, eles destroem , com seus produtos inúteis, todas as identidades sociais, nos quais o esplendor e a miséria de gerações e gerações perde todo seu significado. E na pequena burguesia planetária em que se isolam do resto de um mundo arruinado por eles mesmos, realizam uma paródia repulsiva de ''sociedade comunista sem classes'' , onde as diferentes identidades que marcavam a tragi-comédia da história universal são expostas e recolhidas pela mídia liberal numa vacuidade colorida, acefalada e fantasmagórica. Não estou brincando (!!) Não sou o relações-públicas do Demônio. A Besta , pelo contrário, está justamente onde estão os brancos, bebendo o sangue negro e sagrado de nosso solo, vomitando fumaça e chamas azuis, enquanto defeca os subprodutos esverdeados do petróleo. Eles são criaturas mortais que devem ser mortas por nosso exército imortal que frequentemente se suicida atirando em suas jugulares. O conduto exposto que retira voláteis vapores de gasolina do alto da torre de fracionamento, sob a bola do condensador (.) -----, eu disse, interrompendo-me para acender um cigarro. Estava profundamente admirado de poder dizer tudo aquilo, após horas de bombardeios, tiroteios e assassinatos ; era como reter brasas vivas na boca, temperadas com saliva e café. Pensava que aquela não seria uma guerra de conquistas, dali por diante, ou pelo controle de um Estado por parte de novos sujeitos sociais, mas a luta da violência pura contra a violência batizada dos brancos ; a guerra xamânica dos negros contra os antigos e novos rigores tecnológicos da OTAN. Política e liberdade eram noções muito genéricas para constituírem um objeto real de conflito, naquela parte da África, e a minha única ''solicitação'' concreta, a reabilitação da guerra xamânica de extermínio, parecia estar sendo acolhida entre os sobreviventes. Para eles, por sinal , era isso ou a morte. Nosso soldados não precisaram atirar mais. Permaneceram de pé em seus uniformes verdes e negros no meio da multidão mosqueada que ainda respirava sob o sol escaldante. Havia, inclusive, inocentes rapazes Kzanj que se divertiam com o que estava acontecendo ; rapazes oriundos de tendas de curandeiros e cabanas de grama seca , esperando uma aparição sobrenatural, vinda do deserto, de quem pudessem receber um fuzil e uma ordem para matar
K.M.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
?! 29
------ Hoje, a guerra não se faz, ''administra-se '' (.) -----, eu disse ao Sr. Kissinger. Ele sorriu educadamente. Agora, eu voltava contra mim mesmo toda minha discurseira enfezada. Tudo o que era sem nenhuma importância para mim, em contraste com o que de fato interessava ; tudo o que havia de periférico, menor e insignificante na minha vida; tudo contra o que o Sr. Kissinger havia me advertido : mulherzinhas, coquetéis, entrevistas longas demais e aquelas pequenas ladainhas de política externa que a mídia adora requentar. ----- De saída (disse-me ele) Vamos deixar de hipocrisia: Você tem toda razão. Acima de tudo, é importante retirar ao conceito moderno de guerra o odioso elemento racional dos militares de mentira. A verdade é que, nos últimos dez anos, as potências mundiais têm se banhado, como nunca desde a Segunda Guerra Mundial, naqueles velhos vapores que (não sei bem como) continuam a sair da goela do lobo germânico Fenris. Na atualidade, porém , esses ingredientes primitivos da magia germânica do ''Grande Destino''vem recobertos por uma espécie de brilho podre. Na época dos canhões Krupp, pelo menos, o idealismo dos soldados era fornecido pelo Estado e o Governo, e as tropas dependiam de sua requisição, assim como de sua ''narrativa oficial''. Mas o heroísmo de guerra foi se tornando cada vez mais sinistro, mortal, cinzento como o aço dos canhões ; cada vez mais distante e nebulosa a esfera de onde acenavam a glória e o ideal, cada vez mais hirta e andrógina a postura daqueles que se sentiam menos como tropas de uma guerra mundial do que como executores de um pós-guerra conflituoso, infinito e insolúvel. Eu associo, divertidamente, essa ''virada'' para pior no âmbito da postura militar mundial, ao momento em que Alfred Krupp von Bohlen und Halbach, então presidente da maior fabricante de armas do planeta, foi preso em 1948 como criminoso de guerra por utilizar prisioneiros de campos de concentração nazistas como escravos em suas fábricas (...) ------, Kissinger disse. Eu ria junto . Minhas recriminações haviam (momentaneamente) acossado sua perspicácia histórica adormecida pela idade. Naquela altura da vida (pensava comigo) o Velho Kissinger já não devia ter um apetite humano muito grande por experiências históricas ; nem uma capacidade muito atenta para ler ler o futuro da América, e nem, muito menos, nenhuma propensão política irresistível para cometer erros catastróficos. Olhando-o dentro dos olhos, repreendia a mim mesmo por ter saído em busca de objetivos políticos mundanos. -----Como pode minha desconfiança (disse-lhe eu) comparar-se à de nossos compatriotas, quando nosso Presidente eleito (e com razão) apresenta-lhes a guerra como um ''poderoso controlador'' para sentir o ''pulsar dos tempos '' . Com razão o Presidente eleito nos proíbe de rejeitar um ''desfecho comprovadamente conflituoso '' para qualquer assunto e nos anima a ''aguçar nosso olhar '' para as ruínas econômicas por trás do ''verniz resplandescente''da globalização. Outro dia, lendo uma de suas recentes entrevistas, maravilhei-me com a facilidade com que ele adquiriu '' o sólido sentimento da imortalidade''. Em sua voz, brilhava a certeza de que as atrocidades de qualquer guerra que ameaçasse a América poderiam ser transfiguradas em algo ''mil vezes mais terrível'' , se soubéssemos usar corretamente o simbolismo do ''sangue fervendo para dentro'' em nossa política externa (.) O que o mundo possa vir a enxergar nessas chamas, na minha opinião, não faz nenhuma diferença. Devem aprender a se adaptar ao Novo (.) ------, concluí. O acúmulo de humilhações que os países infligiam uns aos outros, essa era a chave da história moderna. Olhando-me de soslaio, com uma lâmpada de sessenta velas no olho, o Sr. Kissinger representava para mim, naquele momento , o apogeu diplomático ascético do qual, em poucos minutos de elocubração, eu havia caído diretamente para o fundo do Inferno. Era como se seu olhar tivesse jogado uma pilha de livros pesados em cima da minha voz. ----- O Presidente eleito é um tipo forte de homem (continuou ele) mas não é o tipo forte e calado de homem, que guarda tudo para si ; tem uma parte de seu pensamento institucional mergulhado, propositalmente, na sombra, mas apresenta-se em geral como um investigar escandaloso de tudo. Nem sempre é veraz em suas acusações, o que é inteligente de sua parte, pois a mentira jorra de todos os lados, da mídia aos governos dos outros países. Assim como você, ele não é tímido, nem modesto, não é exatamente gentil, nada disso, mas teve motivos inteiramente puros ao se declarar candidato à Presidência dos Estados Unidos. E foi realmente sincero, toda vez que apresentava suas dez obviedades favoritas para a nação, durante a campanha. Mas em relação aos ''nobres experimentos'' de guerra americanos, digo, por detrás do arco incessante do combate global, o Presidente parece disposto à tensioná-lo até o limite, se preciso for, até ele se partir ; sempre que o vejo na televisão, lembro-me daqueles antigos rostos históricos, moldados e movidos por uma poderosa explosão psíquica, , todas elas percorridas por um calvário que se estende de batalha a batalha, cada uma delas um sinal hieróglifo e violento de um contínuo trabalho de destruição. Como você disse há pouco, as guerras não são mais declaradas. E talvez aqui a profecia de Carl Schmitt tenha se cumprido: segundo a qual toda guerra, no futuro, se tornaria uma guerra civil. E a verdade é que, atualmente, até mesmo a invasão aberta de um Estado soberano apresenta-se aos olhos do mundo como um ato de jurisdição interna. Nenhum serviço secreto do mundo respeita soberanias nacionais ; e esse, meu filho, sempre me pareceu, há décadas , o verdadeiro modelo de organização e de ação política real (.) ------, ele disse. Acho que foi só naquele exato momento que, como um incorruptível piloto de provas, encontrei no rosto do Sr. Kissinger, como numa visão aérea, o rosto do soldado formado pela guerra mecânica da política externa : dura, insensível, sangrenta e incessante. A marca de seu rosto era a marca da dureza dos nervos de aço do combatente nato, a expressão da responsabilidade solitária e do auto-abandono intelectual anímico. Nessa luta ''diplomática'' mundial , que hoje seguia descendo a camadas cada vez mais profundas, se confirmava seu lugar na história. O caminho que o Sr. Kissinger seguira, em sua vida profissional , fôra um caminho polêmico, estreito e perigoso, mas era aquele o caminho que levava diretamente ao futuro. Digo: diretamente para o Inferno.
K.M.
domingo, 11 de dezembro de 2016
?! 28
----- Mas tudo não passa (eu disse à Nancy) da ''manifestação do vital sobre o racional'', o que , sem rigor nenhum, tem servido para fundamentar um embate político sério entre esquerda e direita que é intelectualmente desnaturado. A milenária luta entre o córtex cerebral e o diencéfalo termina, aparentemente, com a vitória do córtex, e o vital é suplantado pela racionalidade mecânica: os relógios, as matemáticas, o hedonismo, o mercado financeiro, os plásticos , a televisão e a súbita intervenção de uma canção boba que é o tema de encerramento do processo. Desejam ainda uma ironia autêntica aqui ? Estou usando a literatura para me converter num produto televisivo de primeira grandeza, um gênero com limitações próprias do gênero ( meu auditório dividido entre os vencedores e os perdedores da globalização, onde um painel eletrônico cheio de itens coloridos evidenciaria que o diencéfalo subjugado não renunciara de todo e se retraíra estrategicamente na escuridão cheio de furor e ressentimento, preparando para atacar a elite triunfante com enfermidades psico-somáticas, psicoses sociais, rebeliões de massas, insurreições de oprimidos, enquanto as empresas seguem fazendo uso da concorrência com outros países para baixar os salários e buscar trabalhadores mais dóceis. Os vencedores da globalização, à minha esquerda, demonstram, em suas relações de gráficos, aquele senso de responsabilidade com o próprio dinheiro tão típico dos judeus, enquanto algum perdedor do outro lado os ataca dizendo que, quando se é perseguido há mais de dois mil anos, uma tática suja de sobrevivência é desenvolver aquele tipo duvidoso de consenso. ------ São os judeus de sempre quem contam as piadas e têm as novas idéias (!) ----, protestarão (eu disse). ------- Eles são mesmo especiais (observou Nancy) Nesse ponto a Bíblia tem razão. Até quando eram realmente de esquerda, nunca pareciam tocados pela eletricidade humana. Nunca chegaram a se impressionar com a imposição de cores aberrantes dos anos 1960, nem com a arte irracionalista, ou a moda, ou a feminilização do mundo inferior presente nos discos de rock, ou com os hippies e os cigarros nas bocas das mulheres, nem mesmo o sufrágio universal lhes pareceu algo apaixonante; sempre tiveram na conta de algo totalmente ilusório a esperança de um crescimento econômico compartilhado entre nações amigas; miragens eram o que viam nas promessas do território sem fronteiras no seio luminoso da Aldeia Global. Certamente continuam sendo os indivíduos de maior inteligência, o que não é muito delicado da parte deles. Muitos deles fazem vistas grossas ao Deus Pai-Urso luterano como uma forma de astúcia para nos fazer crer que se aproximam de nós com boas intenções e fraternidade de pensamento, mas a única idéia de progresso que conhecem é o liberalismo (.) ------, alguma dimensão da mente dela se prolongava no espaço da sala, propondo uma série de curvas à minha, e ambas as mentes estavam agora acrescidas também dos problemas de nossa vida doméstica: catálogo de remédios no armário, combinações de consciência alterada, amabilidades negadas a parentes distantes, vulgaridades entre eu e a arte. Eu poderia perfeitamente ter baixado a crista naquele instante, e tê-la confortado com certa passividade acrítica da minha parte, convidando-a para passear num daqueles lugares silenciosos que tanto a atraíam: parques, jardins ou restaurantes com música ambiente de regatos no meio da floresta. O conceito de Paraíso de Nancy tinha a ver com copa de árvores altas a se balançar ao vento, exibindo os dorsos escuros como se houvessem espíritos dentro deles. Mas a ilha paradisíaca do meu pensamento havia desregulamentado a legislação econômica e pressionado o salário do povo para baixo à pedido dos Estados Unidos. O litoral fora ocupado pelo setor imobiliário e estaleiros agora poluíam as águas costeiras com dejetos industriais e tráfico marítimo intenso. A escassez de peixes transformara pacíficos pescadores artesanais em piratas sanguinários cooptados por organizações criminosas que se alimentavam do tráfico de drogas e da prostituição. A Autoridade de Desenvolvimento Industrial mudara o nome da ilha para Sanyo, Panasonic, Siemens, Sony, Toshiba e Epson. ---- É um pouco o que se passa com o Oriente, que no sentido profundo também flertara com o diencéfalo, um dia, para resistir à civilização ocidental, destrificada pela tecnologia, as armas atômicas, os transístores , os plásticos, as doenças e o cálculo infinitesimal. Mas foi-se o tempo em que os amarelos se jogavam contra nós (.) -------, dizia isso tudo para simular, apanhá-la desprevenida : zen-budismo, yoga, muay-tay. Anotações automáticas sempre davam resultado, mas minhas novas histórias não eram literatura, e sim televisão. Era preciso, agora, que eu voltasse meus olhos para as metrópoles e sujasse as mãos em alguns casos de corrupção no sistema financeiro, para que meus próprios assuntos voltassem a refluir sobre mim. A comunicação de massas e o mercado despertavam em mim o gosto literário de algo profundamente narcisista, auto-absorvente em minha longa contemplação de um umbigo despelado. ------- Mas não confundamos as questões ( disse à Nancy ) Em fases de grandes mudanças globais a dimensão dramática do mundo se sobrepõe à dimensão sociológica , e as fronteiras entre realidade e ficção tornam-se menos nítidas: as jovens atrizes falam de uma maneira nova e misteriosa ao interpretarem um texto meu, algo que não acontece com o texto dos meus contemporâneos. As hollywoodianas, particularmente, modelam indescritíveis arabescos com o final prolongado das minhas frases de diálogo, devolvendo-as para dentro da boca como se fossem fazer um gargarejo, e isso é inédito na história do cinema. Além disso, são mais naturais, ou menos artificiais e plásticas quando atuam sob minha direção. Parecem menos ser atrizes do que as atrizes dos outros filmes(.) -----, Nancy ficava fascinada acreditando ligeiramente que eu via na vida apenas isso: disputas acirradas que culminavam em intervalos comerciais. Ela se levantava do sofá e procurava localizar livros nas prateleiras, fazia pesquisas na internet, folheava jornais velhos durante horas em busca daquele mundo inventado que eu descrevia. Seriados policiais, comédias, filmes de terror, canais de arte, noticiários conservadores com equipes de quatro jornalistas a trocar pilhérias... novelas vespertinas contra um pano de fundo de silêncio espesso e pululante. ----- Quando você chegar a ler minhas novas histórias (continuei) espero que não sinta o mesmo interesse preconcebido dos críticos do terceiro mundo em manter um escritor incômodo e nocivo banido no limbo, pois eu sinto que, mesmo sem as ter lido, você já começou uma avaliação negativa a meu respeito: mas saiba logo que meu alter-ego literário é sempre um personagem excepcional, quase à altura do Gulliver de Swift: um gigante americano lendário, um bilionário excêntrico de duzentos metros de altura, com uma enorme cara robótica, vastíssimo tórax, um ventre prodigioso cheio de vírus de computador letais, um gosto furioso pela vida espiritual extra-terrestre e um impulso pueril para falar tudo que pensa. Um mágico produto híbrido de Jim Thorpe e Dwight MacDonald completamente atormentado por vozes dentro da cabeça, que envenenam seus casamentos e o impelem para diante como um rolo compressor. O estilo do herói galopa como Henderson, cheio de excessos de violência política, cheio de uma luz insuportável, carregada de efusões intelectuais irritantes, num estilo ágil e devastador. Encarado em sua menor dimensão, digamos, em meio a algum fracasso ocasional, uma pequena batalha perdida por capricho, ainda assim ele aparece vestido numa roupagem clássica: uma bela curiosidade literária fora da principal corrente das letras americanas, mas, apesar disso, um clássico, nos sentido em que The Informer ou A High Wind in Jamaica são clássicos. Há no personagem um silêncio misterioso que nem todas as declarações eróticas, confissões tensas, grampos telefônicos, mentiras tranquilizadoras e explosões de ódio mercadológicas ultra-liberais conseguem dissolver: um silêncio hipnótico e apavorante que é o que mantém os investidores atentos a todos os seus passos, jogando com a própria apreensão, à espera de que um ajuste de contas de proporções épicas venha apanhá-los de surpresa no meio do livro e fazê-los todos em pedaços.
K.M.
K.M.
?! 27
'' LÁ (!) '' (eu pensava, fitando o deserto na linha do horizonte ) ''Onde nem mesmo o National Geographic jamais esteve, é que minha imaginação de conquistador de terras se torna realmente civilizacional ''. No estado de espírito em que me encontrava, naquela tarde, as imagens não precisavam da minha atenção para surgirem diante de mim. Sem pretender diminuir as causas econômicas da guerra em Konam, naquilo que ela tinha de mais duro e fatídico, pensava que ela era determinada por discrepâncias entre os gigantescos meios das transnacionais e a total falta de esclarecimento moral de tais meios. Atendendo à sua natureza econômica, o mundo dos brancos colonizadores separava a técnica do espírito. A guerra em Konam era uma insurreição de escravos contra os governos de fachada financiados pelos industriais brancos. Olhando para o deserto, a impressionante velocidade com que brotavam imagens do meu pensamento levava-me para uma longa viagem dentro de mim mesmo. O quadrante oriental sem trilhos que fazia limite com a Líbia e Kanj. Nem escorpiões nem cactos viviam ali, nem mesmo a tenaz Hedysarum alhagi louvada por Caillié . Amplos ''wadis'' recordando águas antigas, planaltos estranhos ganhando forma à força de ventos perversos e sem testemunhas. E o que se encontrava por trás da minha atitude e a do meu exército, era, no fundo, bem parecido com aqueles ventos (não tanto os lugares comuns de doutrinas nacionalistas, mas um arraigado misticismo guerreiro que, analisado à luz da virilidade pára-militar e, logo, oficialmente militar de konam, se apresentava como estranhamento perverso ). De dia, o deserto era cegante, quente e puro, de modo que em alguns declives a areia se transformava em vidro fundido; e de noite a geada estalava as rochas com um barulho de máquina de escrever. Planuras alcalinas geometricamente perfeitas terminando abruptamente como soalhos de base de muralhas metamórficas que se lançavam, impelidas por uma corrente de lava invertida, até as cristas serrilhadas onde até neve já tinha sido vista por exploradores vitorianos, em séculos mais úmidos que o atual. O uniforme de guerra, para mim e meu exército, era nosso objetivo supremo, que desejávamos com todas as fibras do nosso coração. De fato, a mais marcante característica estratégica de nossa guerra, era a de ser uma pura guerra de agressão na sua forma mais radical, incluindo a ''química'' . Nossos boletins estavam todos baseados em recordes de extermínio e níveis de riscos mortais elevados ao absurdo. A vontade mais elevada que conhecíamos era a de proceder nascendo, morrendo e renascendo no deserto tão tenuemente quanto uma violenta tempestade de areia. Para servirmos à pátria, caçávamos até mesmo seus fantasmas mais antigos pelo país ; marchávamos sobre todas as convenções de Direito Internacional, sem nem ao menos termos declarado guerra oficialmente. Certamente, algumas de nossas provocações eram mais dignas que outras, mas todas sintomas de um visionarismo pubertário que desembocava no culto e na apoteose da carnificina, cujo arauto maior era eu. ----- Oficialmente ---- declarava aos países vizinhos, pela minha assessoria de imprensa ----- Minha posição é simplesmente servir ao meu país (.) -----, e o que mais eu poderia fazer (?)O fato era que a criação de uma massa de consumidores acefalados, que a injeção de sangue inferior, de óleo transnacional nas veias do povo de Konam, e a consequente mentalidade burguesa que resultara disso, acabara por separar o exército do povo, que passara a ameaçar, com sua moleza e submissão, os elementos mais aguerridos do ofício de soldado, dentro da Guarda Nacional. Foi como uma doença que tivemos que combater implacavelmente. Um vírus presente na pressa , tão pouco tribal, tão pouco ''aristocrática'', e totalmente jornalística, com que o Homem Branco apropriara-se de nossas virtualidades patrióticas sem antes terem apreendido e compreendido nosso passado. Na nossa guerra havia qualquer coisa que escapava à economia da racionalidade técnica ; na razão de nossa guerra havia qualquer coisa de inumano, xamânico,desmedido, gigantesco e cósmico , algo que fazia lembrar um processo vulcânico, uma irrupção elementar. Uma colossal onda de vida orientada por uma força dolorosamente profunda, compulsiva e uniforme. Aquela era a guerra eterna, a Jihad de que tanto se falava por ali, mas com vestes um pouco diferentes ; e também a última guerra, a guerra total, de destruição de tudo, da supressão e da morte dos mundos. Em uma palavra: A GUERRA PERDIDA ! Mas, ao mesmo tempo, a forma como lidávamos com a impossibilidade da vitória total, dentro de nós, permanecia o tempo todo em progressão. Começava sempre pelo fato de que transmutávamos qualquer derrota ocasional, em meio à insanidades de todo tipo, numa violenta vitória interna, por meio de uma confissão de culpa e horror que estendíamos histericamente à humanidade inteira. Nossa política, que nunca deixara, até então, de fornecer-nos sanguinolentos manifestos à decadência do Ocidente, era o reflexo mais fiel de nossa insurreição.
Certamente, naquele momento, talvez pelo pijama preto que Marina usava, e porque minha atração por ela estava momentaneamente toda tingida de preto, fosse necessária uma injeção de morfina no meu braço, para acalmar meus pensamentos na véspera daquela invasão, que prometia uma pilhagem sem precedentes ao país vizinho. Era sempre ela quem aplicava morfina em mim, como uma espécie de Medéia, ou feiticeira da Cólquida. ''Ganhar ou perder uma guerra (seguia pensando comigo ) é qualquer coisa que, a acreditar no espírito de minha linguagem e pensamentos, penetra tão fundo na trama de nossas existências, que nos torna para sempre mais ricos ou mais pobres em quadros, imagens e descobertas''. E como nós havíamos vencido um número incontável de batalhas, nos últimos meses, à qual estava hipotecada toda a substância material e espiritual de Konam, pode-se avaliar o efeito da morfina nos meus abundantes fluxos mentais, há poucas horas de iniciar um operação bélica suicida. A noite com Marina, no entanto, havia sido notável. Ela insistira tanto no meu ''infantilismo '' guerreiro que percebi que o que ela queria dizer com essa palavra era o contrário de um homem de bem, o que me empurrou ainda mais para minha esfera de calamidades mentais. Voltando a fitar o deserto, pela janela daquele entreposto, na entrada do país vizinho, pensava que em todo o mundo, naquele instante, estava em curso o mesmo tipo de exacerbação, que em Konam, porém, era mais crua que nas outras nações. Uma dissecação e morte de paradigmas que, entre nós, já constituía uma verdadeira e nova religião da guerra. Presente nos corações indistintos dos konangoleses, como a Morte, aquela era uma religião sem Deus, sem proibições e asseverações compensatórias de espécie alguma ; uma religião cujo único rito era o exercício infinito da energia vital, e na qual formas exaustas como a ''busca'' , o voto, a propriedade, a expiação, a lei civil e a consecução de objetivos pessoais não existiam ; uma religião posta à serviço de um dispêndio físico e espiritual cujo único propósito era a entropia, cuja única recompensa era o êxtase, a morte e a pilhagem, uma explosão psíquica caótica e contínua, sem culpa e sem sono. Milhões de pessoas, na África inteira, vinham encenando as provas de uma tal religião. ''O mundo com certeza a importará, se tudo der certo (!) '', pensava comigo. ''Sem lhe dar um nome, obviamente, nem atribuindo a si próprios quaisquer virtudes derivada dela ''. Kzana, sem dúvida, era uma cidade importante para nossos planos, além daquele deserto ; um objetivo oblíquo da minha estratégia que, sem morfina, certamente eu teria evitado, por prometer-nos uma cilada da OTAN. Mas naquela tarde, por aquela janela,meu capricho de Conquistador Sanguinário, meu dever de Chefe de uma Armada que só entendia a língua dos bombardeios perigosos, obrigava-me a marchar até lá e destruí-la. ''Pois não têm se tornado os tiranos africanos (pensei finalmente) estranhos e covardes em relação a seus próprios domínios, nas últimas duas décadas (??) E não deveria o portador de uma nova religião da Guerra, um nova religião da Morte, tentar, através do genocídio, harmonizar não só os poderes, as forças e as facções dentro das fronteiras, assim como também os vazios, as alucinações, a psicose e a megalomania, as esperanças perdidas e o horror através da pilhagem de povos pouco conhecidos (???) .
K.M.
Certamente, naquele momento, talvez pelo pijama preto que Marina usava, e porque minha atração por ela estava momentaneamente toda tingida de preto, fosse necessária uma injeção de morfina no meu braço, para acalmar meus pensamentos na véspera daquela invasão, que prometia uma pilhagem sem precedentes ao país vizinho. Era sempre ela quem aplicava morfina em mim, como uma espécie de Medéia, ou feiticeira da Cólquida. ''Ganhar ou perder uma guerra (seguia pensando comigo ) é qualquer coisa que, a acreditar no espírito de minha linguagem e pensamentos, penetra tão fundo na trama de nossas existências, que nos torna para sempre mais ricos ou mais pobres em quadros, imagens e descobertas''. E como nós havíamos vencido um número incontável de batalhas, nos últimos meses, à qual estava hipotecada toda a substância material e espiritual de Konam, pode-se avaliar o efeito da morfina nos meus abundantes fluxos mentais, há poucas horas de iniciar um operação bélica suicida. A noite com Marina, no entanto, havia sido notável. Ela insistira tanto no meu ''infantilismo '' guerreiro que percebi que o que ela queria dizer com essa palavra era o contrário de um homem de bem, o que me empurrou ainda mais para minha esfera de calamidades mentais. Voltando a fitar o deserto, pela janela daquele entreposto, na entrada do país vizinho, pensava que em todo o mundo, naquele instante, estava em curso o mesmo tipo de exacerbação, que em Konam, porém, era mais crua que nas outras nações. Uma dissecação e morte de paradigmas que, entre nós, já constituía uma verdadeira e nova religião da guerra. Presente nos corações indistintos dos konangoleses, como a Morte, aquela era uma religião sem Deus, sem proibições e asseverações compensatórias de espécie alguma ; uma religião cujo único rito era o exercício infinito da energia vital, e na qual formas exaustas como a ''busca'' , o voto, a propriedade, a expiação, a lei civil e a consecução de objetivos pessoais não existiam ; uma religião posta à serviço de um dispêndio físico e espiritual cujo único propósito era a entropia, cuja única recompensa era o êxtase, a morte e a pilhagem, uma explosão psíquica caótica e contínua, sem culpa e sem sono. Milhões de pessoas, na África inteira, vinham encenando as provas de uma tal religião. ''O mundo com certeza a importará, se tudo der certo (!) '', pensava comigo. ''Sem lhe dar um nome, obviamente, nem atribuindo a si próprios quaisquer virtudes derivada dela ''. Kzana, sem dúvida, era uma cidade importante para nossos planos, além daquele deserto ; um objetivo oblíquo da minha estratégia que, sem morfina, certamente eu teria evitado, por prometer-nos uma cilada da OTAN. Mas naquela tarde, por aquela janela,meu capricho de Conquistador Sanguinário, meu dever de Chefe de uma Armada que só entendia a língua dos bombardeios perigosos, obrigava-me a marchar até lá e destruí-la. ''Pois não têm se tornado os tiranos africanos (pensei finalmente) estranhos e covardes em relação a seus próprios domínios, nas últimas duas décadas (??) E não deveria o portador de uma nova religião da Guerra, um nova religião da Morte, tentar, através do genocídio, harmonizar não só os poderes, as forças e as facções dentro das fronteiras, assim como também os vazios, as alucinações, a psicose e a megalomania, as esperanças perdidas e o horror através da pilhagem de povos pouco conhecidos (???) .
sábado, 10 de dezembro de 2016
?! 26
------ Trata-se de uma produção de imagens verdadeiramente avassaladora (Nancy disse) Mas desta vez a tomada de consciência do personagem não correspondeu exatamente à intensidade do prazer com que você descreveu o cerne da experiência; deduzo, no entanto, que o transe foi tão profundo que reteve as palavras e imagens certas, uma autêntica aura aparecendo no texto ao final de cada frase (.) -----, concluiu ela. A vida parecia nunca ter forçado Nancy a admitir, muito menos a deixar de lado uma única de suas pretensões intelectuais. Ainda ardorosamente determinada a ser a autoridade mundial em crítica literária, naquela manhã ela parecia-me severa ao extremo quanto ao que era certo e errado em tudo que eu escrevia. Num outro estágio da experiência, a ''audition colorée '' da manhã permitia-me apreender sua aura como um ornamento , um envolvimento ornamental no qual ela estava mergulhada como num estojo. Na noite anterior, eu a vira conversando com o Senador Dole, outro grande pretenso farol americano da intelectualidade. ------ Em 1817 (ela dizia ao Senador) um lugar na NYSE valia U$ 25. Já nos anos de alta, no fim de 1990, o preço chegava a U$ 4 milhões. Em 2006, finalmente , ela se tornou uma empresa pública com fins lucrativos e todas as suas vagas foram trocadas por dinheiro e ações. Hje qualquer negociante só pode comprar licenças de um ano (.) -------, concluiu. Ela não parecia, na noite daquele coquetel, ter recuado um único centímetro da idéia de que toda palavra que pronunciava era da máxima importância. Mas talvez nada, além dos quadros de Van Gogh, tivesse me dado até então uma idéia tão autêntica de aura quanto a visão de Nancy. Audition colorée : as palavras que saíam de sua boca, naquela noite, eram imediatamente transformadas em fragmentos tremulantes diante dos meus olhos ; ondas de fragmentos intelectuais que se organizavam em padrões, dentro do meu cérebro. Velha e nobre bandeira de dissuasão nuclear. Nancy seguia impenitente, no círculo de conversa do Senador, brandindo para o mundo aquela rígida imagem de Super-Dama da alta roda que fazia de si mesma, e era. ----- Dezessete postos, cada um composto por vinte e duas seções de operadores e máquinas, cada um deles negociando papéis de até dez companhias listadas. Eis a Bolsa de Valores , senhoras e senhores. Operadores comissionados trabalhando para corretoras, vendendo ações para o público enquanto correm da cabine telefônica para o posto, e vice e versa. Apenas os especialistas lidam com uma só ação, informando as cotações aos operadores. E os operadores independentes atuam no pregão sob ordens das corretoras (.) -----, ela disse. Nancy, para mim, era a própria personificação dos seis ou sete bilhões negociados por mais de duas mil empresas por dia, na Bolsa. O encanamento dourado do SuperDot, acima da confusão barulhenta do piso. Em seguida, os ''realistas'' da classe política americana assumiram o comando da roda de bate-papo : aquela tribo de ''especialistas'' em fazer e desfazer acordos invisíveis, mestres das formas mais desavergonhadas de aniquilar politicamente um adversário, usando a mídia , o mercado e a espionagem governamental a seu favor. ----- Por último, apenas as preocupações morais. Maquiagem para aparecer na televisão (.) ------, Nancy sussurrou nos meus ouvidos, assim que a roda de compadrio yanke começou a proferir aquela velha ladainha irreal, dominada pela impostura, acerca de todos os horizontes cinzentos da política americana. Bill Clinton, aparentemente ileso após a derrota da esposa, exaltava Nixon a cada minuto, por sua ''jornada notável'' e, sob o efeito da própria sinceridade, expressava em surdina, para H. Kissinger e outros, uma muda gratidão por todos os ''conselhos sábios'' que Nixon lhe dera. Not bad... Enquanto isso, o ex-governador Wilson assegurava a todo mundo ali que, ''Quando pensamos em Nixon, pensamos em seu altíssimo intelecto '' . E mais aquela enxurrada de clichês lacrimosos. H. Kissinger, quase cem anos de idade, falando ainda no seu tom mais inflado e despido de egoísmo, toda a fria autoridade daquela voz embebida em secreções nasais, citando Hamlet para descrever não sei qual ministro de Hitler. ----- O que precisamos mesmo é lançar toda a luz que a linguagem ofical e a razão de Estado ainda pode nos oferecer sobre aquela vivência primordial de nossas guerras no Oriente Médio, de cujo negrume surdo continua saindo esse maldito misticismo da morte dos mundos (.) -----, Kissinger disse para Bill. ------ A literatura por aqui (Nancy me disse) não é (obviamente) uma realidade fundamental, é mais uma espécie de lodo caro no qual essas velhas múmias governamentais vão colher apetrechos para suas entrevistas. Por aqui, manipulam a arte como doses homeopáticas de um veneno perigoso, cheio de efeitos colaterais (.) ------, o clímax, a atração sensual que sentia por ela era uma coisa permanente . ------ O risco de se usar a literatura na política (comentei com ela) é que a Palavra, a Revelação Poética, se separe do que ela revela e adquira uma consistência autônoma. O ser manifesto pela literatura se separa da coisa revelada e se interpõe entre ela e os homens, como um Demônio. Exatamente como naquele ''aggadah'' do Talmude, em que os quatro rabinos entram no Pardes e tem acesso ao conhecimento supremo. ''Ben Azzai olhou-o e morreu ; Ben Zoma olhou-o e enlouqueceu ; Aher cortou os ramos, e exilou a Shekinah de si mesma. Apenas o Rabi Akiba saiu ileso ''. A Shekinah , na Cabala, é a última das dez Sephirot, os atributos da Divindade, sua manifestação na terra... sua Palavra. E quando a Shekinah é exilada de si mesma, perde sua potência positiva e torna-se maléfica, dizem os cabalistas então que ela ''suga o leito do Mal '' . Por isso eu lhe digo : se quisermos ser os primeiros cidadãos de uma comunidade de quarta dimensão, sem pressupostos e sem Estado, devemos aprender a entrar e sair ilesos do Paraíso da Linguagem, como o Rabino Akiba (.) ------, eu disse. Nancy riu, e riu bem alto; provavelmente, o aggadah fez emergirem pensamentos tão extraordinários, e de forma tão rápida na cabeça dela, que ninguém conseguiu deixar de prestar atenção nela: ----- Esse LOUCO (todos os presentes riram quando ela apontou para mim ), sem dúvida inspirado por impulsos religiosos que acredita serem genuínos, arrastou falsamente toda a América para a beira de um precipício poético, propagandeando uma visão de felicidade totalmente irreal, que precipitará as massas americanas num perigoso surto de psicose. Com alegria, mandemos toda influência extra-terrestre embora da nação enquanto é tempo, e permitamos, uma vez mais , que o capital globalizado e as técnicas americanas se combinem amorosamente com nossos recursos naturais esgotados e arraigados padrões de comportamento moral hipócritas. O protestantismo de nossos antepassados, em contraposição ao socialismo de mercado da China e às sublimações econômicas neuróticas da Europa, impõe-nos os nossos velhos ideais de trabalho paciente e alegre como única salvação, o bom senso intuitivo e uma trama múltipla de laços de parentescos, empresariais e matrimoniais, que, ao invés de diluir, reforçará enormemente nossa elite econômica, o grande individualismo egocêntrico do nosso um por cento mais rico, que diariamente desenha e redesenha, ao seu bel prazer, o curral existencial em que todos vivemos. Senhoras e senhores (peço-vos ). NÃO EXISTE DEUS ALGUM , ALÉM DO ESTADO E DO MERCADO.
K.M.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
?! 25
Eu costumava me fechar no Gabinete Presidencial com dois ou três Ministros de Guerra (todos os ministros do meu regime eram Ministros de Guerra ) para tentar meter à força no ''script legislativo'' do Congresso de Konam todos os clichês rasteiros daquele resto agonizante de partido de oposição, todos os pontos de vista cosméticos, ditos ''progressistas'', que eu pudesse passar adiante, pela minha assessoria de imprensa, sem ter meu despotismo esclarecido desmascarado na imprensa internacional. Manipulava o script legislativo para enfiar ali qualquer refugo ideológico que julgasse ter algum conteúdo útil para a sociedade, em qualquer contexto que fosse. Imaginava, assim, poder influenciar o pensamento do povo e ''envernizar'' minha ditadura com patéticos filtros democráticos. Acreditava em tudo isso: Doutrinação, Propaganda Institucional, Apertos de Mão e Tapinhas nas costas. E aquele meu estilo peculiar, nos meus fragmentos de prosa reproduzidos no site oficial do Governo. Mais a sintaxe militar. A polícia secreta. E a sensibilidade constrangida e intimidada de uma ou outra jornalista, que antes, no entanto, procurávamos afagar com subornos. Meu dom de observador político crescia na mesma medida que meu poder, único termo de comparação p tal. O Gabinete Presidencial tinha passagens cheias de quadros com exemplos da minha caligrafia. A fonte daquela ''luz intelectual'', à frente do meu ''balão despótico'', era visto por todos os departamentos do Estado, no seu interior violeta, como o que designávamos de ''o total aparelhamento do regime''. ----- Total desorientação do sentido do tempo, em primeiro lugar (eu disse) Em outras palavras: rejeição de quaisquer conversas mediúnicas entre intelectuais estrangeiros, e sobretudo, nenhum discurso malthusiano sobre isso. Oponência. Alimentência. Divagação reducionista sobre nossos ''homens selvagens ''. O resultado, no estrangeiro, era nossa total simetria com os vilões das histórias em quadrinhos deles. Kaisers e Kautskys. Deliberadamente construídos por um jogo de acontecimentos, como um momento privilegiado de esteticismo liberal. ----- Só conseguimos compreender isso (continuava eu) se nos colocarmos historicamente no lugar que nos compete: depois, muito depois do fim e da autodestruição da arte ocidental, e depois do trânsito da vida democrática do Ocidente através da prova da desilusão política e do total desencantamento do mundo liberal. A ''passagem a noroeste na geografia da verdadeira vida'' , ponto de indiferença entre a arte e a vida, na qual ambas transformam-se decisivamente numa POLÍTICA à altura de suas tarefas, através de gestos hostis à comercialização do pensamento que precipita na situação de cada país os ''cristais'' da substância social comum (.) ------, concluí. Depois que saí para andar nas ruas de Konam, sob um disfarce civil cômico, a vacuidade da sesta tomava conta da Avenida do Fim da Inflação. Na intersecção em que a Avenida do Fim da Tributação se encontrava com ela, uma ilha de tráfego,retangular, exibia uma estátua em minha homenagem, semelhante à da nova capital. Até meus óculos escuros e botas, maior que o K. natural, o rosto metido em sombras, meu quépi e minhas dragonas embranquecidas por guano ---- tudo dentro de uma fonte cujos borrifos rítmicos atiravam para o alto véus e espectros de borrifos. Em torno da bacia de pedra, as oito línguas de Konam expunham sua palavra para a ''Liberdade''. Parado ali, com um cigarro na boca, eu pensava que aquela fonte simbolizava à perfeição nosso país e o próprio Universo,despejando continuamente alguma coisa dentro do nada. Uma sinuosa vegetação bege, de densidade semi-árida, florecia à sombra da fonte, com um hálito bafejante que lambia meu rosto como uma língua, enquanto eu cruzava a interseção tremeluzente rumo ao bairro industrial. A zona comercial de Konam (cidade) raleava, surgindo barbearias e papelarias de vitrinas sujas com as caixas de seus alfabetos juntando poeira ao lado dos prelos imóveis. Cafés e bares esperavam pela onda vespertina de fregueses proletários. Ventiladores de teto, de pá única, giravam dentro deles ; havia serragem no chão e grandes garrafas verdes mantidas frescas debaixo da aniagem molhada. Naquele momento, minhas narinas já captavam o odor sulfúrico, cáustico e complexo com o cheiro das fábricas estrangeiras à margem da rodovia. Também ali tinha existido, ao longo dos acessos do coração industrial de Konam ----- sua satânica ''raison d´ être '' transnacional ----- essa multiplicação de traillers e furgões de moradia nômade, onde hoje alojávamos nossos agentes secretos, misturados à paisagem de edifícios baixos e esboroados, em seu nu anonimato, fechados dentro de quilômetros de cerca de mourões dos quais pendiam tabuletas vermelhas advertindo quanto à alta tensão, materiais explosivos e gases tóxicos. Aquela, para mim, equivalia à mísera cenografia na qual Nietzsche colocava o ''experimentum crucis'' de seu maior pensamento . A Konam que eu construíra era a instância com a aranha e a luz da lua, entre os ramos , no momento em que à questão do Demônio ''Queres tu que este instante retorne infinitas vezes (?) '' era pronunciada minha resposta : ''Sim, eu quero ''. Decisivo, para mim, era meu deslocamento messiânico pelas ruas e avenidas de Konam, naquele meio-dia que, através de todos os meus sentidos, mudava integralmente a imagem do mundo, deixando Konam, como país, quase intacto. Mais alguns passos, no entanto, e eu já voltara a reagir de forma extremamente agressiva ao objeto dos meus sentidos, o que era uma ''contradicttio in adjecto ''. Depois, ecolalias da percepção sensorial. Contato, ato, gesto, pelo tato, com o tato esfacelado sobre toda a cidade. E por meio daquela ''coisa'', que deveriam ser meus passos, aproximei-me das cercas e olhei, acreditando estar seguro ainda o bastante para fazer piada de tudo aquilo. Do outro lado de uma ampla margem de deserto macadaminzado, um escuro conjunto de galpões de tetos inclinados, inescrutáveis calhas de transporte, barracões de janelas pretas, chaminés cônicas, torres com extremidades flamejantes e estruturas para bombas, vomitava um estardalhaço multifacetário e o oceânico fedor químico do refino de hidro-carbonetos. As torres de fracionamento terminadas em bolas e os baixos tanques de armazenamento ligados à sua fonte subterrânea de suprimentos por um espaguete prateado de tubulações paralelas. Pequenos pavilhões de chamas adornavam o complexo como a um castelo de filme de terror. Tudo o que interessava ao proprietário daquela usina era de que modo o Governo de Konam poderia servir à sua causa. E o que era a causa dele ?? Exportar, pilhar Konam com seus licenciamentos em favor da democracia fajuta dos brancos. Ouvi, de repente, um tinir. Progressivo clarear da percepção. Toda a monstruosa geringonça estava em movimento, devorando alguma coisa do solo , e, digerindo-a, transformava-a num enorme excremento em camadas, aprazível aos demônios brancos que, a mundos de distância dali, ganhariam um monte de dinheiro sujo com aquilo. Além e acima do fedorento, fumegante, agitado e palpitante emissário do consumismo, a muralha fétida, precipitosa demais para qualquer estrada, estéril demais para qualquer vida, pendia como uma cortina diáfana de fumaça tóxica por trás da qual esperava-me, como uma prostituta cara, o plano nacional de desenvolvimento de Konam. O cheiro era o de um deserto químico ; tudo na terra que meu coração patriótico conhecia havia sido removido com a chegada das transnacionais, exceto o céu vazio, escaldante, de azul tão intenso que raiava o violeta, no alto. Depois disso, longa divagação sobre a palavra ''ameaçar'', e ainda outros infantilismos instantâneos: ao capitalismo, que organizava concreta e deliberadamente ambientes e eventos para despontencializar a vida nos países do Terceiro Mundo, eu respondia com um projeto nacionalista igualmente truculento,mas de signo oposto. Minha ''utopia autoritária'' era perfeitamente tópica, pois tinha lugar exatamente naquilo que desejava reverter. Segui caminhando, disfarçadamente, ao longo da cerca elétrica, seguindo o lixo de latas e envelopes de pagamento marrons , até chegar a um posto de guarda, uma guarita de compensação não mais larga que uma cabine telefônica. Para minha surpresa, havia uma garota ali dentro, a quem, imediatamente, pedi autorização para entrar. Não revelei minha identidade. ------ Sou avaliador de prejuízos. Houve um acidente com mortes aí dentro (. ) -----, eu disse. Ela era uma jovem alta da estirpe dos Kundang, cujo sorriso proclamava abertamente sua sensualidade. Relâmpago nos olhos verdes ; boca ávida e suculenta ; olhar provocante e insondável. Mas parecia um pouco tímida,por dentro. Da minha parte, eu não tinha dúvidas quanto a ser um exímio ator , capaz de colocar em ato situações nas quais meus gestos humanos, subtraídos das potências do mito e do destino nacional, que eu encarnava à frente do Governo de Konam, podiam facilmente acontecer sob quaisquer disfarces, devido à vasta experiência que tinha da força de sustentação identitária da Commedia dell´arte. ----- De onde vem o capital dessa empresa (??) Quem fornece assistência técnica para eles (??) -----, perguntei à ela. Mas não se compreenderia nada da minha máscara cômica, naquele momento, se a entendêssemos simplesmente como um personagem despotencializado e indeterminado. O Ditador de Konam faiscava perigosamente sob meu disfarce, a mão afagando o revólver na cintura. Acho que foi nesse momento preciso que passei a ordem pelo rádio. ----- Máscaras não são personagens, moça (eu disse à ela) E sim gestos figurados num tipo. Constelações de gestos. Numa situação em ato, a destruição da identidade do papel se dá juntamente com a destruição da identidade do ator. É entre o texto e a ''execução'' que se insinua a máscara, como misto indistinguível de potência e ato. ''GESTO'' é precisamente o nome desse cruzamento entre vida e arte, ato e potência, geral e particular, texto e ''execução''. Uma questão prática. Capiche (??) -----, eu disse, enquanto uma centelha cruelmente feliz, a perspectiva de um velho ajuste de contas, acendeu para fora o meu rosto rabugento. ----- O QUE FOI (?!) ------, ela perguntou, assustada, assim que um Mercedez cinzento, no silêncio de seu mecanismo perfeito, deslizou sobre o cascalho estalante e sujo ao lado da cerca e baixou o vidro. Aproximei-me do carro e, com um ''gesto'' quase imperceptível, acertei seis tiros seguidos na cabeça do motorista. Tendo concebido um plano mais visionário que o assassinato à sangue frio do diretor-geral, não surpreendi-me quando olhei para o alto e avistei os quatro helicópteros chegando em linha para bombardear as instalações da fábrica.
K.M.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
?! 24
Realmente, Konam era uma terra seca. Ao meio-dia, dirigi-me para a garagem do Quinto Batalhão com meu Camaru, tendo organizado uma expedição oficial para inspecionar o território da nova capital. ''Der Bau'' eu pensava ''O nunca nomeado protagonista do conto de Kafka, A Toca , estava o tempo todo obcecado em construir uma toca inexpugnável para si mesmo, que pouco a pouco, no entanto, revelara-se uma armadilha mortal'' . Cannabis indicae. Óculos escuros. Meu monólogo interior, ao longo da viagem, partia de trabalhos oficiosos, onde o líder da nação deveria exibir toda sua fé no futuro aos seus comandados, e chegava, naturalmente, ao erotismo e à patologia sexual da orgia noturna . A conversa oficial com militares e engenheiros estagnada num plano puramente científico. Digo: sem nada que operasse, ou que abrisse para um infinito de perspectivas moventes, numa palavra, sem que a ''comunicação'' se estabelecesse de fato. Uma parte do plano eu guardava só para mim. Os vastos campos de amendoim de Konam se transformando em pobres roçados esparsos de mandioca e milho ao longo da percurso, uma vida vegetal que nos machucavam os olhos com sua demonstração de esforço inútil sob o sol inclemente. Os cultivadores daqueles campos cemiteriais, raramente vistos na paisagem, erguiam ocasionalmente o braço ossudo à passagem do meu Camaru, levantando uma ilusória nuvem de pó. Logo que as favelas de zinco dos nômades redistribuídos de Konam ficaram para trás, no horizonte baixo e líquido, começaram as aparições soturnas de choças não numeradas e latas enferrujadas metidas em paus, anunciando a venenosa e proibida cerveja nativa. ''E não foi exatamente isso que aconteceu com o espaço político do Ocidente '' eu seguia pensando, ao volante '' As pátrias que os ocidentais construíram revelaram-se, para seus povos, que deveriam habitá-las cmo se habita uma linguagem, apenas armadilhas mortais de submissão. Kafka realmente antecipou lucidamente a coisa toda: após a anestesia cerebral do consumismo, e a falsa sensação de bem-estar, a indeterminação derivada entre espaço público e privado , ''Castelo'' e quarto de dormir, tribunal e sotão, inseto e toca. A situação de konam, guardadas todas as proporções, era idêntica à do mundo branco: coincidia com aquela situação de onde partia o ''nazismo'', de onde ele sempre estivera espreitando a aldeia global. Todos esses fatos, eu não só os percebia, naquele momento automobilístico, como um piloto frio e apressado dos próprios pensamentos, mas como o ditador de uma pátria da qual eu só conseguia tirar uma evidência política, econômica e militar muito penosa. Mais de uma vez, tive de contornar um esqueleto de girafa no meio da pista, que havia sido arrastado para ali em suas últimas pernas pelo tufo seco de capim que, na desolação da paisagem marrom, brotava em resposta ao líquido em ebulição que respingava dos radiadores que passavam na estrada. Quando o calor do sol à pino sobrepujou até o ar condicionado do Camaru, parei o carro junto à uma choupana de espinheiros sobre uma armação de galhos secos e compactados com lama. Aqueles canteiros de obra, no centro do novo plano diretor, tremulavam no horizonte há meses, no entorno exato onde ficava situado o monumento de bronze que me retratava heroicamente. Nenhuma outra vocação e consistência além de minha própria existência fática, a do poder encarnado, por tanto, tendo que assumir meus próprios modos de ser perante a adejante bandeira verde e preta no pára-choque do Camaru. Misericórdia era o que eu representava para o povo, quando estava de bom humor. O povo assisitia pasmo à construção da nova capital, Konasburgo. E minha visita aos canteiros de obra entrou noite adentro, por uma noite desértica e sem luzes, de um azul cremoso, no qual apenas os pontinhos distantes das fogueiras do acampamento brilhavam, com a mesma beleza aquosa das estrelas no céu. Segundo havíamos combinado, passaríamos a noite ali ; eu estava rodeado de seguranças e pela Guarda Nacional de Konam, que sempre me escoltava em peso. Embaixo de nós, alguns deles sabiam, dormia a velha instalação de armamentos do época da União Soviética. A própria terra daquela região era esquecidiça, nem túneis de ventilação, nem vigas de entrada traíam a presença das baterias de mísseis balísticos, todos equipados com ogivas múltiplas de reentrada independente . ''Que maldito nômade ''pensava comigo então '' Com seus camelos e bodes , se deteria em seu caminho para tentar compreender isso (?) '' Eu atribuía somente à mim a ''grande tarefa histórica'' de ''construir para mim mesmo'' uma ''armadilha de dimensões nacionais '' . Nacionalismo, imperialismo africano ... mas o que estava em jogo em Konam (agora) era diferente e ainda mais extremo: uma panela de pressão política da qual tudo o que era intelectualmente aproveitável ascendia rapidamente para a invisibilidade confidencial de um plano militar completamente louco. Nossos silos subterrâneos estavam todos apontados para as instalações norte-americanas, ao norte, e para o território fantoche de Kehel, a oeste, e ainda para os remotos portos de Kanq, no Mar Vermelho, a leste ; portos esses (eu pensava) que poderiam tornar-se importantes e perigosos, caso eu não viesse a bombardeá-los em breve ; do ponto de vista estratégico, era preciso pulverizá-los o quanto antes, expulsando a presença estrangeira e equipando o território anexado com armas de terceira onda. Mas os ''dados da observação sigilosa'' , comentava eu com meus oficiais '' Não estavam ainda afogados em observação confiável''. ----- Como jogadores de um torneio de xadrez reduzidos a poucas torres e peões e ao rei emblemático ( o Alto-comando de Konam ouvia-me atentamente) bocejamos sobre nosso conhaque em meio à desconexa partida-final, buscando determinar qual estilo de ''tarefa histórica'' difundiremos pelo deserto esférico e faminto que nos resta. Em todo caso, é divertido pensar que ela não será só sub-saariana em aspecto, como também dominada por uma idéia de África completamente devastada pela guerra. Nossa distante e vaga aliança com os russos, que jamais a reconhecerão oficialmente, serve apenas para obrigarmos a OTAN a instalar, com despesas onerosíssimas, mísseis idênticos no nosso vizinho Kehel (.) -----, eu disse. Como preparativo para a noite em ''campo'', todos nós já estávamos embriagados, pestanejando de assombro ante os abraços esfomeados e aidéticos de prostitutas nigerianas ; expletivos cirílicos e esparramadas ofertas de cocaína, que ninguém ali recusava . ----- Nós, Konangoleses (eu disse, em meio a fanfarra) adoramos De Gaulle. Ele nos lembra a girafa, aqueles deuses que já não nos visitam mais. Na época, lembro de ter dado à ele cinco anos, numa aposta com o Presidente do Senegal, para desistir da Argélia e, mediante o resíduo sujo de seu racionalismo francês, perder na sequências todos os outros pedaços menores de África Ocidental Francesa, até ser deixado de lado, como Robespierre, e se tornar um velho chato e perdedor a contar suas derrotas contra o Parlamento (.) -----, concluí, rindo. Ora, cada vez mais o dever patriótico se apresentava a meus olhos como a obrigação de consagrar meus pensamentos à massa acefalada e inoperosa de konam, que procurava em mim, por todos os lados de minha sombra, e às apalpadelas, uma herança cultural como missão. De uma certa maneira, o que eu fazia como Chefe Supremo da Nação era tentar conservar tal herança, que considerava guerreira em grau máximo, mais do que aprofundá-la.
K.M.
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